Sobre Creed e as narrativas negras

olhando pro primeiro filme do ryan coogler, fruitvale station, ali havia toda a pompa de filme de festival-pequeno-‘livre’ mas ele já buscava uma figura que simbolizasse toda uma experiência negra americana. a figura de fruitvale também era michael b. jordan, mas coogler o exibia amargurado de uma forma totalmente compreensível — ele não conseguira tirar um herói dali, e uma sensação que me vinha a cada instante do filme é que aquilo era uma limitação, mesmo se tratando de uma história real sobre um traficante (!) numa narrativa de redenção. fruitvale station é muito bom, though, mas coogler se saiu tão melhor em creed, onde enfim, ele poderia ser tão imaginativo e criar seu herói. não a toa que essa notícia do cara dirigir filme do pantera negra não faz nada além de me animar MUITO.

creed, mesmo, é um filme sobre apropriação, é um blaxploitation em forma de filme de luta. não é pra fugir as regras do filme de gênero, é pra ver a como elas se adaptam a um cinema essencialmente negro como o proposto por coogler. as batidas de trap na trilha sonora, o bairro tipicamente negro em que creed vai morar e as figuras que vivem lá, os traços de sua estória… todas são características que coogler busca em criar uma experiência universal com o herói negro, mas com sua imaginação podendo chegar a um mito.

duas sequências me parecem fundamentais pra entender o que é se apropriar de um dos maiores ícones brancos do cinema americano no século 20 e atestar que ela, então, se transformará no mito negro que o coogler quer: a) momento em que o creed arruma os dreads da bianca, dos momentos mais singelos dele é ao mesmo tempo uma amostra de até onde coogler chega fazendo cinema popular e seus elementos mais ortodoxos (o romance, o drama, a ação — ele é bom com todos em creed) e também a síntese dessa negritude a que ele quer ‘contaminar’ o espaço do rocky e b) momento em que michael b. jordan caminha entre as motos, mais e mais símbolos periféricos, ao som de ‘lord knows’; um momento de afirmação do mito e em que a gente entende bem porque o coogler queria fazer esse filme desde que era muleque.

4 comentários em “Sobre Creed e as narrativas negras”

    1. hahah na real, eu amo o stallone e amo ele em creed, portanto qualquer premio pra ele aqui é bastante especial, mas sim, impossivel não encontrar um cinismo por trás de quem só quer ver o filme como “do stallone” ou mais um cap do rocky. p. ex., depois q vi creed fui ler uns 3 textos de sites brasileiros q frequento e nenhum deles tinha sequer a palavra ‘negro’. não sei nem como reagir a isso…

  1. bem boa essa tua avaliação do fruitvale station. me fez querer rever o filme, pq na época eu tinha uma outra ideia sobre o personagem negro no cinema e o que o coogler tinha feito me soava ‘fake’ d+ por se tratar de um filme baseado numa história real. mas hoje, vendo de outro angulo e seguindo essa ideia que tu expressou, faz bem mais sentido. de qlqr forma, tô louco pra ver creed.

    1. eu só fui ver fruitvale uns dias antes de ver creed! na época ñ me interessou nada, e ele tem um ou outro tique de cinema indie, mas num geral é algo que o coogler é habilidoso em lidar com. e sim, ve logo creed!!!

^-^

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