so hear me out before you say the night is over

MØ, “Final Song”
Eu geralmente não sou bem um fã da MØ, mas olhando pro impacto da ideia que o público mainstream pós-Lean On tem de que ela é uma vocalista de dance music, ela tem muito a a se tornar interessante a partir de agora. Essa faixa, por exemplo, além de representar uma ruptura na carreira dela, também é um aceno do MNEK (grande cantor, grande produtor), que criou algumas das canções mais criativas no house desde o revival britânico de 2013, pra beats menos nostálgicas, mais funcionais e genéricas (por opção mesmo) e que, por isso mesmo, entendem melhor os artistas que ele quer ler. O MNEK vê em Final Song a MØ como uma vocalista de dance music, não mais a popstar outsider que eu conhecia outrora.

Isso não tira o autorismo dela sobre a faixa em momento algum, mas é aquele autorismo pop, que certamente seus fãs não estão acostumados. Eu gosto disso. Deixa ela numa posição mais agradável que antes.

Also, “Final Song” emula cada trend do natimorto EDM em 2016, mas pertence a uma tradição seleta de dance music nessa década, que evoca perfeitamente imagens de dança, baladas e tudo que está em volta, mas num olhar mais melancólico, contemplativo e bem, bem triste. Uma tradição que vem desde Dancing On My Own, a Sorry, ou Alone with Me ou Hands To Myself. O vocal da MØ, então, é um êxtase constante; há um sensação de medo e desespero e uma busca pelo momento, pela catarse. Mas ela também canta com uma frustração iminente, como se a perda fosse inevitável. É quase uma canção de amor da Kate Bush.

Sobre Caça-fantasmas, anos 80 e feminismo pop

Depois de escrever isso, eu sou o último cara a ter alguma chance de reclamar de nostalgia, mas parece que as férias de julho esse ano (quer dizer, o verão americano – e amazônico) foram os escolhido pra injeção anual dos anos 80 que essa cultura tanto gosta. Entre o fenômeno Stranger Things e esse remake de Caça-fantasmas, mais um espaço pra usar um 1989 ou E•MO•TION de trilha. Ou no meu caso, o novo disco da Ladyhawke.

No caso do novo Caça-fantasmas, o filme usa essa reverência aos anos 80 como uma forma se impôr culturalmente como um objeto relevante em 2016; tanto que suas gags citando filme da época ou as mil referências – e aparições – do filme original são autoconscientes além da conta. Tudo sobre ele aponta pro Paul Feig te dizendo, de vez em quando, que sabe o quanto Point Break (que também teve um remake que ninguém se importou) virou o clássico cult da diretora de Guerra ao Terror e que o Bill Murray é um ícone hipster.

Diante disso, impossível não ver a discussão sobre o protagonismo feminino, que foi basicamente todo o marketing do filme, em um certo grau de cinismo. Mesmo que dentro da fórmula cômica que Feig desenvolveu tão influente no cinema mainstream americano de hoje Caça-fantasmas pareça bem coerente, ele é a sua forma cartunesco num grau pronto pra só ser aceito dentro do contexto de uma terceira ou quarta onda do feminismo mesmo: não só ele é o único filme que eu vi no cinema esse ano ao lado de Carol onde todos os homens são imbecis, como as mulheres também não se movem como personagens concretos.

Ver as caça-fantasmas aqui não é muito diferente de ver o trio de espiãs em As Panteras, um filme de 16 anos atrás, por exemplo. Mas nem o próprio Paul Feig parece se importar com isso ou tentar fazer do seu primeiro blockbuster lá um filme épico ou imaginativo por esses assuntos culturalmente ubíquos. Caça-fantasmas, no fundo, é não mais que um filme sobre as mudanças de percepção, a cada geração, nas suas diferentes formas.