big little lies, the mom girl power

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Rapaz, sabe que mesmo com o hype e os comentários negativos de amigos bem ridículos que me atiçavam um pouco a curiosidade, eu nunca tinha visto até então nada do tal de Jean Marc Vallee. Comecei a ver essa Big Little Lies quase ou totalmente por causa da Reese Whiterspoon e a possibilidade de vê-la num thriller meio ridículo e cômico, já que o David Fincher tinha me tirado essa possibilidade há alguns atrás em Gone Girl.

Acho que toda essa premissa meio Pretty Little Liars MILFs Version dava um gás pro tipo de material que costuma ser irresistível pra mim, mas ao longo dos episódios que eu ia vendo, percebia o quanto esse tipo de ideia, de série de gênero, do whodunit tem sido super explorada pela TV ao longo dessa década e o quanto depender dela, de alguma forma, tem enfraquecido as narrativas (como How to Get Away with Murder, tão precocemente datada). Não acho que esse tipo de análise tenha sido alguma metalinguagem do David Kelley não; btw, ele é extremamente ineficiente em dar alguma tensão a trama de assassinato. Mas ele acerta muito na dramaturgia e no centro das figuras femininas centrais: não tenho dúvidas que Madeline, Celeste e Jane seriam alvos fáceis de estereótipos misóginos num bom thriller genérico, mas aqui, felizmente, elas partem de uma folha em branco para, ao longo da série, serem devidamente exploradas e o melhor de tudo, sendo meras reféns da contextualização, o que também ocasiona delas serem sínteses de problemas ubíquos como o abuso físico e psicológico, o estupro a infidelidade, a visão do que é ser mãe e etc.

Eu gosto do tom naturalista que a direção do Vallee conserva nesse sentido, dá uma crueza e uma dependência das três atrizes principais, que sendo bem sincero, soam como as verdadeiras autoras da série (literalmente, considerando que a Reese e a Nicole Kidman também são produtoras). Em contraste, eu realmente odeio os planos puramente estéticos do Vallee que vão e vem pra lugar nenhum, apenas como pretenso recurso videoclíptico de luxo pra filmar um mar, mas não posso deixar de dizer que, ao mesmo tempo, amo aquele desfecho que também é um show de misandria gratuita como nos melhores clipes da Rihanna.

charli xcx e as narrativas pop

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Voltando lá por 2012, eu tenho péssimas memórias do que a Charli XCX e tudo aquilo que chamaríamos de popstars da internet, como a Grimes e a Sky Ferreira, representavam. Dizia eu que apreciava a ideia do que elas estavam fazendo, mas que nada daquilo chegaria ser um um pop autêntico, definido em si, ou algo assim, simplesmente porque elas eram técnicas demais. Os anos se passaram, a Charli conseguiu alguns hits, virou uma songwriter da indústria, mas por alguma razão, ela não deu realmente certo como uma popstar. Escutando o Number 1 Angel, na verdade, você percebe que ela nunca deixou de ser uma popstar da internet.

Mas entre o que isso representa pra 2012 e o que representa pra 2017 tem um abismo, acho. E aqui no Number 1 Angel a Charli é mais uma nerd de música pop presa num quarto cantarolando algumas musiquinhas que incitam um nostalgia já conhecida dentro do material dela. Não acho que ela queria algo muito diferente disso desde os tempos do teenpop enfeitiçado do True Romance, por exemplo, mas é a primeira em que ela efetivamente me pega por essa diversão — é um ponto de identificação entre nós dois que, agora, eu vejo além das entrevistas coolzonas.

É curioso que essa estética (sim, porquê a única estética que une todo o material da Charli, for real, é essa ambição) chegue tão firme sob o signo dos caras da PC Music, que também representaram o ponto mais baixo da carreira dela ano passado e also são responsáveis por um show de pseudagem numa das correntes estéticas mais pretensamente bestas da minha memória. Number 1 Angel também trabalha com truques de produção parecidos com o do Vroom Vroom, tho. Mas aqui há muito mais um showcase pra toda essa persona da Charli que pra pirotecnia do PC Music, e ela meio que tem um timing certo pra essas beats, pros momentos exatos em que elas soarão over. Pouca coisa aqui sai do controle dos ideais dela.

oscar broadcast ’17: perspectivas rápidas sobre os 9 indicados a melhor filme

moonlightÉ claro que esse pot existiria né? E este ano devidamente com todos os indicados a melhor filme vistos! E com mais uma prova do meu vício compulsivo por listas, tá tudo ordenado e numerado por preferência. É claro que eu devia tar falando sobre filmes lindos dessa temporada, como a comédia depalmiana do diretor de Oldboy, do Titanic do Rob Zemeckis, do coming of age da Hailee Steinfield com elenco mais bem cuidado desde o auge do Albert Brooks (sério, vejam The Edge of Seventeen, que filme!), de um filme que consegue ser divertido, ser feminista, ser pop, ser classicista, ser wiccano com o nome de ‘A Bruxa do Amor’, mas estou aqui escrevendo sobre filmes que encerram com músicas da Sia com batida de Bollywood, Ryan Gosling se achando o salvador do jazz, enfim… Louco né? Posso dizer que a exceção dessas duas bombas, ou até incluindo elas, a experiência de ver todos os filmes indicados ao Oscar de melhor filme em uns 5-6 anos não foi de tudo mal — aliás, acho que mais do que em todos os meus outros anos como ‘cinéfilo’, a junção destes filmes aqui definem todo um momento político dos Estados Unidos. Vejo isso quando até o mais rasteiros entretenimentos da categoria, como o bom Estrelas além do tempo, se tornaram verdadeiras plataformas de discursos sociais, o que eu diria que tem muito mais a ver com o marketing do filme que com o filme de fato. Continuar lendo “oscar broadcast ’17: perspectivas rápidas sobre os 9 indicados a melhor filme”

10 hits pro carnaval 2k17

E foi como eu sonhava 🎼😍 @puma

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Um carnaval na visão de outsider, um nordestino bem menos norderstino que eu gostaria de ser, infelizmente. Só gostaria de pedir pra que todos nesse carnaval recusem as apropriações péssimas que vem sendo feitas do arrocha de hits já estabelecidos de funk e pior, com o próprio mc no meio virando um mero coadjuvante. sério, pior moda já inventada. Continuar lendo “10 hits pro carnaval 2k17”

sobre animais noturnos e a megalomania de tom ford

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Acho que é possível associar os dois filmes que Tom Ford se arriscou a dirigir até agora como peças pueris, com ideias ambiciosas, pra não dizer megalomaníacas, o que é completamente dentro do esperado da figura á que ele investe como estilista. No fundo, ambos os filmes naufragam em investidas narrativas & estéticas muito, err, óbvias; o que também está dentro do esperado, já que por trás de toda a grife, trata-se de um principiante.

Eu defendo de boa até hoje seu primeiro filme, o tal do ‘Direito de Amar’, porque acredito que ele tenha uma fuga, uma recusa a narrativa que funciona tanto com a dramaturgia do filme como com a plasticidade excessiva do Ford.

‘Animais Noturnos’, no entanto, é uma pequena baguncinha onde a s peças nunca parecem se juntar. É um filme triplo em muita necessidade de ser, é um filme pictórico sem muita necessidade de ser. Boas intenções e até boas ideias, mas que não formam nada concreto em si, apenas diferente fragmentos do que seria um filme pro Ford em si. A montagem utilizada na tentativa de correlacionar sua ficção e o filme da Amy Adams é especialmente bizarro.

Eu sinto que eu torço a todo instante mais do que deveria pelo filme, muito porquê o Ford tem suas convicções, suas crenças cinematográficas apesar de tudo e eu vejo aqui que isso é o que o difere tanto de um filme covarde como La La Land, onde toda a fé das ideias (questionáveis) sobre arte só são explicadas em defesas manjadas, alheias ao mesmo. No ‘Animais Noturnos’ há um vício nessa crença, meio shyamalanistica até, onde o kitsch e o mal gosto são postos a prova pra ver até onde eles podem funcionar dentro de um arco dramático.

Essa relação que se desenvolve tanto no novelão com a Amy Adams, que eu gosto muito, como na ficção que tem uma pegada muito mais física, uma veia mais de ator com aqueles close-ups difíceis de acreditar que foram criados pelo Ford, que eu gosto moderadamente. Como um filme único, tudo parece naufragar.

filmes citados
Animais Noturnos (Tom Ford, EUA, 2016) C+