do ponto de vista a hitchcock em o silêncio do céu

“Para mim, o horror tem muito a ver com repressão, com o que se reprime e se transforma, por isso, num medo. Quando em criança via um filme de terror, e aquilo me fascinava, parecia que existia algo de perverso e proibido naquele retrato do mundo. Um morto-vivo comendo o cérebro de outra pessoa ou uma mulher grávida do demónio. Parecia-me que aquilo tudo podia talvez acontecer na sociedade. Talvez  só não acontecia porque as pessoas não falavam sobre isso. Era uma sensação peculiar que tinha de criança: quando via uma obra fantástica, um filme de terror, parecia que estava a descobrir uma verdade secreta da humanidade, alguma coisa sobre a qual as pessoas não podiam falar. Tem a ver com uma ideia de repressão. Se tinha uma repressão sexual ou um tabu, conseguia extravasar isso na minha relação com os filmes de terror. Isso desde muito jovem.” – Marco Dutra

conhecendo a obra anterior de marco dutra e a forma com a qual ele lida em recortes de terror sobre consequências do capitalismo em personagens bem, hmm, simples (pra não dizer arquétipos), fica claro o comprometimento dele com uma cena de estupro aqui n’o silêncio do céu. dutra diz querer filmar o estupro exatamente como ele é: uma violência. e por mais correto e óbvio que isso seja, entender e, principalmente, filmar uma cena como essa demonstrando a cada plano, captação de som e etc seu viés único de violência é uma tarefa bem cara ao cinema.

dutra filma essa violência ainda em dois pontos de vista, trazendo de diferentes formas e em diferentes personagens uma angústia que são mais ou menos compatíveis. esses dois pontos de vista se visitam por todo o filme através da incomunicabilidade, o ato do qual dutra extrai basicamente toda a sua tensão. de fato, a incomunicabilidade se revela criadora destes dois pontos de vista, quase sempre partindo da mesma ideia, mas com diferentes consequências e em diferentes graus de sentimento.

é especialmente eficiente quando você começa a perceber essa incomunicabilidade esteticamente dentro do filme, com os atores em expressões cada vez mais ansiosas, suadas e pálidas, a fotografia cada vez mais obscura e etc. e quando isso vira um jogo com o espectador também, como quando dutra filma a mão de mario aproximando-se delicada e lentamente de uma aparente adormecida diana sem nunca revelar mesmo se ele a toca ou não.

e apesar do argumento muito interessante, competente, moderno e eficiente, o lance do dutra é mais imagético. é onde o terror dá mais tesão nele. é onde ele vai com muita sede ao bate ás vezes, mas, foda-se, é o que filme faz de melhor mesmo.

chego a lembrar de grand piano, aquela brilhante e subestimada emulação do hitchcock onde tudo ali parecia um jogo imagético com o espectador sobre o mestre. era um filme com erros, com vícios grosseiros. mas ele sabia exatamente o que tava fazendo com tantas “homenagens” e, claro, o negócio era muito lindo de se ver. o marco dutra tem umas referências do hitchcock igualmente óbvias e viciosas (p. ex. o modo como ele trabalha o homem obcecado e a carolina dieckmann, sendo uma espécie de grace kelly moderna aqui) mas todas muito felizes e combinadas, sei lá, eficientemente na estética de o silêncio.

é um filme de texturas de gênero muito comuns que se reconfiguram pela singularidade da interpretação de cada movimento do dutra aqui.

filmes citados
O Silêncio do Céu (Marco Dutra) A-

4 comentários em “do ponto de vista a hitchcock em o silêncio do céu”

  1. Trabalhar Cansa e Quando Era Vivo tem suas ressalvas, mas são muito fortes. E eu tô curioso a beça pra esse, mas me incomodou essas referências ao Hitchcock que falaste. Pareceu algo tão manjado e abaixo do que o Marco faz (não sei se interpretei certo).

    1. é, como eu falei, é aquele tipo de ~referencia ao hitchcock~ que é uma grife dentre as referências ao hitchcock que qualquer filme pode usar. mas os dispositivos do dutra em meio a isso são, err, mais curiosoos q manjados

^-^

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