cápsulas — sobre anohni, kaytranada, fifth harmony e+

enfim, última parte da trilogia. bom verão  a todos ao som de into you!

ANOHNI, Hopelessness
Eu geralmente tendo a não ser muito fã de discos políticos tão francos como o Hopelessness, eles geralmente me parecem sem nuances e frágeis demais pra serem sedutores em qualquer ponto de vista que não seja seu discurso (eis um motivo porque um grupo como o Public Enemy nunca fez e dificilmente fará minha cabeça); é tipo um oposto total do LEMONADE, que tem tantas camadas e simplesmente deixa seu sentido político fluir e contaminar cada uma delas. Mas ao mesmo tempo muito me agrada como o disco da ANOHNI é tão concentrado e devoto desse objetivo, de achar seu sentido político tão declarado. É como se tudo fosse pensado nele: desde a fúria, o nervosismo das produções do OPN e HudMo ás letras mais do que bem estruturadas para um disco como esse.

Fifth Harmony, 7/27
Pra um grupo que fez o disco pop mais cool de 2015, as escolhas do seu sucessor são, no mínimo, inusitadas. Não que haja algo aqui arriscado para as meninas do Fifth Harmony: “Work From Home” reviveu a mesma fonte do rnbass que elas beberam tanto no primeiro disco, “Dope” relembra as contribuições do Jack Antonoff ao 1989, “Flex” é basicamente um freestyle delas e do Fetty Wap por cima da beat de “679” e há algumas faixas de tropical house produzidas pelo Kygo. O que torna o projeto tão estranho é a forma como elas sustentam essas faixas — a escolha de persona delas pra mostrarem o ‘amadurecimento’, num sentido bem comum a qualquer artista pop. Em vez do girl power, das Destiny’s Child remodeladas, elas se aproximam agora do que nos anos 2000 chamavam de ‘stripper pop’; basicamente, um termo que padronizava todos os girl groups que surgiram na linha das Pussycat Dolls e o Danity Kane e não deram certo (mas que da última vez que eu li, era o Dave Grohl usando pra descrever tudo que não era a Lorde). Fato é que entre o Reflection e o 7/27, elas tão se tornando simultaneamente uma enciclopédia do pop desse tempo e da história das girl groups, talvez?

KAYTRANADA, 99.9%
Como eu disse antes falando sobre “Glowed Up”, o Kaytra me lembra mais o Black Eyed Peas circa Monkey Business que a maioria dos beatmakers que ele ou os tastemakers vão usar de referência, tipo o Flying Lotus ou Madlib (?). Tipo, pela maneira como ele incorpora variados elementos da musica negra aqui e tals, até mesmo um rap backpacker com os BADBADNOTGOOD ou um soul mais minimalista com a Shay Lia, tendo todos eles a serviço pra tornar cada canção o mais radiofônica possível. E eu amo tanto essa prática dele, é como uma maneira de fidelizar a indústria do Soundcloud mesmo (de onde ele surgiu) e tornar toda a subcultura que se formou lá mais específica e (talvez) mais credível. Diante disso e do snapchat do Kevin e da forma estranha/incrível que ele usa essas plataformas pra divulgar o disco, eu diria que ele é meu popstar preferido de 2016.

LAY, 129129 EP
Eu já tinha cantado a bola do quanto tenho curtido a Lay nos últimos meses aqui, e fica mais uma vez a dica do quanto esse EP de estréia dela é excelente. A Lay é aquela profusão de ideias distintas e confusas que acidentalmente rendeu numa grande mc: ela tem um quê de girl power Spice Girls-era, um quê no riot grrl pré-Hole (que era o exato oposto), tem uma agressividade que pertenceria tanto a uma tradição perdida do rap americano do auge da Lil Kim ou Foxy Brown quanto seus rolê com o povo do hardcore, essa sexualidade que caminha como uma constante ameaça — ela começa o EP dizendo “saudações a todas as bucetas”, tho. Junto a ela tem o beatmaker incrível Leo Grijó (ex-Stereodubs, mesmo responsável pelos melhores momentos da Flora Mattos) que complementa bem com beats igualmente variadas, mutantes e nada convencionais pro rap brazuca (seu primeiro single é um grime, pra se ter uma noção) a profusão de ideias da Lay.

Meghan Trainor, Thank You
Pelos últimos 3 anos, Meghan Trainor foi a dona de alguns dos piores hits pop que a minha memória de 21 anos teve notícia. Em 2016, meio que sem entender bem porquê, ela veio com um dos melhores singles pop do ano — “No” — e isso me faz ter alguma vontade de ouvir seu disco. Vamos lá. Absolutamente todo o disco, a única exceção de “No”, são condizentes com o esperado de Trainor: um amontoado de templates pra canções bem bestas sobre empoderamento num sentido bem óbvio e sem vida; ela nunca tem nada de interessate a acrescentar a nenhuma das mensagens do disco, fica na superfície mais grosseira o tempo todo (“my name is no/my sign is no/my numbah is no” parece um bad bitch anthem perto do resto aqui). De fato há uma musica aqui chamada “I Love Me”, outra chamada “Friends” e outra ainda pior chamada “Mom”!

Um comentário em “cápsulas — sobre anohni, kaytranada, fifth harmony e+”

  1. Fiquei desapontada com Meghan.. Esperava um álbum incrível (graças a ‘no’), mas não aconteceu.
    Tenho achado a fórmula das fifth harmony repetitiva…

^-^

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