No netflix & chill that’s dead: um guia pro dance-rap nesse verão

Bem, essa é uma espécie de continuidade climática do post que eu fiz há mais ou menos um ano atrás, onde o rnbass parecia ser o que mais importava na minha vida (e incrível que apesar de tanto que maltrataram esse menino, em 2016 eu continuo caminhando a favor do rnbass com “Needed Me” e, principalmente “Work From Home“). E agora, a minha escolha do que seria o som do meu verão amazônico 2k16 é o dance-rap! Claro, não é nenhum gênero tão ‘homogêneo’ quanto rnbass, mas minha tese é que o dance-rap nunca foi tão ubiquo/provável/criticamente não-condenável/variado e escapar dele atualmente é quase impossível.

Compare hoje com, por exemplo, a época em que a Nicki Minaj lançou “Starships“: dance-rap sempre esteve no DNA da Nicki, mas em 2012 isso foi responsável por uma backlash imena que afetou consideravelmente a popularidade dela no cenário urban. Já ano passado, Nicki lançou “Truffle Butter” que foi um dos seus maiores hits no formato e, vejam só: é uma faixa de dance-rap. Hoje eu vejo o Skrillex colaborando com Vic Mensa, A$AP Ferg, 2 Chainz, The Game; hoje é comum ver rappers como guest em festivais de EDM; hoje a popularidade o grime dentro e fora da Inglaterra voltou a crescer; hoje o revival do hip house quase não tem detratores; hoje já existem mcs que já nascem muito mais afiliadas a DJs que qualquer outro ambiente próprio de rap.

Talvez seja tempo de revisionismo, também, pra todo o início dessa onda de fusão do EDM com o rap que foi tão renegada lá no início da década, com o Pitbull e o Flo Rida, e a própria Nicki, vale lembrar. É bom pra ver também como se dá a evolução desse dance-rap moderno, até chegar a essas músicas aqui; cada uma muito singular, muito experimental em variações nada óbvias do que é o dance-rap.

 10. Flume ft. Vince Stapes & Kučka, “Smoke & Retribuition”

“Never Be Like You” é o óbvio hit atual do Flume, mais EDM-ready e etc, mas eu gosto uito também dessa combinação aqui das raízes mais downtempo, mais minimalistas do início da carreira e uma ou outra inflexão de EDM a lembrar a atual popularidade dele em festivais do gênero. Vince parece bem um turista de gênero nesse tipo de música e eu acho que isso não é bem uma crítica.

 9. A$AP Ferg ft. Missy Elliott, “Strive”

Eu gosto e acho essa música bastante funcional, óbvio, mas todo o contexto (hilário) por trás dela é tão mais genial. A ideia do cara que encarnou uma pose beirando a caricatura do que era o gangsta rap nos anos 90 no seu primeiro disco e agora tá um fazendo hip house na linha do que era tão discriminado na mesma época. E ainda usando um nome tão forte do dance-rap (Missy) pra ganhar biscoito. Sério, Ferg é demais.

 8. Cardi B, “I Gotta Hurt”

Esse não é nem um dos, tipo, 5 melhores momentos da mixtape da Cardi B, então, eu recomendo que você vá logo baixar um dos melhores releases de rap do ano. Mas no contexto da tape “I Gotta Hurt” funciona tão bem pq em meio a uma profusão de momentos tão DGAF, tantas batidas de trap, há aquele único flerte com a música eletrônica; nem sequer há rap aqui, um momento calmo e tão inesperado que me lembra aquelas faixas de house da Mariah circa-Butterfly lá pelo final do disco também feitas com a mesma intenção.

 7. Karol Conka, “É o Poder”

Só esses dias ouvindo essa música na balada eu parei pra ver o quão incrível a produção dela era: do faux-reggae a cada símbolo nas batidas de trap meio “Bandz a Make Her Dance” á cada utilização do timbal reforçando tanto a persona da Karol quanto o objetivo da música em si. Muita gente reclama da letra parecer uma sucessão de frases pra status no facebook circa 2014, mas escutar cada uma dessas palavras na entonação da Karol – principalmete ao vivo, mas não só ao vivo – me faz pensar mais numa apropriação desses cacoetes de internet como melhor forma de criar um hino num díalogo atual, claro bem kitsch pq não daria pra ser diferente, mas a Karol já sabia fazer isso muito bem em “Tombei” e aqui não é diferente.

 6. Baauer ft. M.I.A. & G-Dragon, “Temple”

Eu amo o disco do Baauer, Aa – ele funciona como uma espécie de Jack Ü ’16 pra mim – e, claro, amo cada opção de mc que ele faz pras suas beats. M.I.A. x G-Dragon certamente é a colaboração que ninguém precisava sonhar; e ele insere os dois exatamente nesse clima de algo absurdo. E é um pouco triste e absurdo, também, que um hook como “body body bod body wow” pareça tão fora de contato com as rádios de 2016.

 5. LAY ft. Flow MC, “Fal$os”

A Lay é uma das rappers mais interessantes a surgir recentemente por aqui; desde o clipe de “Ghetto Woman” eu tenho acompanhado cada movimento dela com gosto, e que fique claro que ela é mesmo o tipo de artista com uma expressividade visual que mais parece uma extensão da sonoridade. Final de abril ela lançou seu (ótimo!!!) EP de estréia e seu melhor momento, entre tantas variações de gênero pra formar uma unidade (com o beatmaker fantástico dela então, Leo Grijó, fazendo de grime a dancehall tão bem), é o funkzinho de “Fal$os”. Aliás, apesar de gostar de tudo no EP, não posso deixar de comentar que, sim, o estilo sexploitation meio Lil Kim anos 90 da Lay é tão próximo de tudo que de melhor as mcs de funk tem oferecido nos últimos anos que eu espero mais experimentações dela nessa linha daqui em diante.

 4. Azealia Banks, “The Big Big Beat”

Eu esperava não me importar mais com a Azealia Banks em 2016, mas a medida em que a imagem dela vira só um amontoado de bobagens ditas toda semana no twitter, sua música – claro, bem inesperadamente – tem ganhado uma forma cada vez ‘redonda’. Eu não quero usar a palavra zona de conforto, mas é fato que de “212” pra cá ela tem usado uma mesma fórmula – e eu gosto disso! É como se por “Big Big Beat” ela baseasse um mesmo house-pop feito lá em 2010, com o mesmo flow que já não é tão impressionante assim, só pra tornar cada vez mais essa forma numa espécie de marca (!), ou mesmo pra ver o quanto ela consegue explorá-la. Vá baixar já a mixtape SLAY Z que tá cheio de bangers como esse.

 3. KAYTRANADA ft. Anderson .Paak, “Glowed Up”

Apesar da capa de um Flylo mais pop pelas experimentações nas beats, o KAYTRANADA sempre me faz pensar no Black Eyed Peas pré-EDM a cada faixa que eu ouço dele. São utilizações tão puramente radiofônicas da música negra, e ainda assim tão anacrônicas na escolha dos samplers, das influências tropicais e etc. E eu não tou bem por dentro do hype do Anderson .Paak, principalmente pelos seus versos fraquíssimos no disco do Dr Dre ano passado que catalizaram todo esse sucesso, mas essa música, meus amigos… cada synth suave, cada percurssão nervosa, e a presença do .Paak que consegue conciliar tão de boa duas partes tão opostas!

 2. TT the Artist x Snappy Jit, “Dig”

Comparando “Dig” a faixa do Ferg com a Missy, fica óbvio notar uma certa tradição nas mulheres mcs do dance-rap (talvez por imposição, ou um traço cultural, como o trabalho da maioria delas prefere me mostrar). E claro, isso se deve muito a TT the artist contagiar tanto uma batida minimal de jersey club com tanta agressividade (tão singular pra ela em relação ao que tá em voga no EDM atual) e como unir ‘dois mundos’ (do rap, da música de dança) meio que parece não fazer sentido dentro do que ela constrói a cada verso nas beats dos Snappy Jit. Eu acho que foi assim que a Missy se tornou um ícone, huh.

 1. Tinie Tempah ft. Zara Larsson, “Girls Like”

“Truffle Buttler” era incrível e talvez ainda melhor que essa música, ma a utilização do sampler da Maya Janes Coles aqui é inegavelmente mais muscular, num sentido de que, óbvio, ela é uma faixa pop e o sampler, para além do hook espetacular da Zara Larsson, é usado quase como um vírus, ou uma droga a te domar a cada instante dela – e não, nenhuma ligação específica com ele ser repetitivo! Eu amo como essa música é uma profusão de retomadas, de estilos natimortos como o new jack swing e o UK funky num meio de um pop-house tão presente da Inglaterra pós-Disclosure. É um tanto frustrante pegar uma música como “One Dance” e comparar essa reciclagem dicotômica de gêneros ubiquos/gêneros esquecidos pra ver que as bobagens que o Drake faz com o UK funky e o afrobeat são tão mais populares…

4 comentários em “No netflix & chill that’s dead: um guia pro dance-rap nesse verão”

  1. Lucas, sempre fico intrigada com teus textos, pensando na minha opinião sobre tudo o que tu escreve. acho isso ótimo.

    Sobre esse estilo, concordo com você quando tu coloca sob os holofotes os feitos das novas caras dos festivais de EDM, tá aí Rae Sremmurd que não foi citado, mas não nos deixa mentir. Sucesso catapultado pelo movimento.
    No mais, acho que mesmo você citando Karol Conká, ainda falta muito pro nacional se abrir nesse rumo.

    1. hahah thx vera <3

      aqui no brasil a industria é mt diferente e mto fechada… é quase impossivel ver produtores de edm colaborando com rappers, a karol ta quase que só nessa "cena"

^-^

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