Bug do milênio


Meghan Trainor, “No”

Esses dias fiz no Spotify uma playlist que concentra tudo aquilo que foi o início do milênio musicalmente pra mim, com o mesmo nome desse post: trilhas de Malhação, Disk MTV, Clipe Mania, Vale 10, Hit Parade, Planeta DJ, As 7 Melhores, programas de rap no final da tarde das rádios de Planaltina, etc. Claro, não tão completa quanto deveria, pq infelizmete o Spotify não tem a) a discografia do Rouge, b) a discografia do Br’Oz, c) o KLB pré-A Cada Dez Palavras, d) a fase teenpop da Luiza Possi e e) “Carla” e “Me Abraça“, do LS Jack.

Sim, eu tô me sentindo um tanto nostálgico a esse tempo em 2016. E devo muito disso a “No”. “No” não é o primeiro hit a reviver esse tempo, mas é o primeiro hit a tentar fazer o pop contemporâneo de hoje soar exatamente como o de 2002. Um pouco de “Lonely” da Britney, um pouco de “Case of the Ex” da Mya, um pouco de “Stuck” da Stacie Orrico. Ela não é bem sucedia por aí, mas isso me faz querer investigar como a nostalgia (desse tempo, da Meghan Trainor – funcionam em “No”.

Se você notar bem, essa música parece uma evolução do que qualquer produtor do PC Music faria. Ou algo que eles ainda vão fazer. Tudo porque as inflexões da Meghan Trainor, em qualquer tipo óbvio de revival que ela faz, são frágeis, pra não dizer falsas. Há um faux rap, a letra é faux girly, faux kiss-off, o falso sotaque hood etc. E quando ela abandona isso é pra fazer uns meghan-trainor-isms que me irritam, também (o jeito que ela fala blah blah blah tho!).

Mas curiosamente, eu gosto dela. Cheguei a brincar a época em que saiu, que se a Meghan aparecesse no clipe de piercing no umbigo e calça de cintura baixa eu admitia que a música é boa. não foi bem o que aconteceu, mas eu admiti mesmo assim. eu gosto do hook e a da onipresença do no e do untouchable (dois termos também óbvios), a repetição dos termos como insistência do tanto que a música é pegajosa. Essa é, ironicamente, uma maneira pouco óbvia de se fazer um hit de rádio em 2016. Acho que antes de tudo, é isso que torna a nostalgia dela tão palatável como uma trilha de malhação circa 2002 — e é por um meio que certamente não era bem o que a Meghan queria…

Pra efeito, eu lembrei de uma faixa do Little Mix, “Boy“, que usa um recurso de nostalgia e tempo dela parecidos; e a música da Meghan me pareceu ainda mais autêntica enquanto as Lil Mix são só um fetiche padrão do Timbaland de hoje em dia.

Mas enquanto “No” cumpre o papel de me lembrar da época em que eu chegava a tarde do colégio feliz da vida com os cards do Yu gi oh! que eu comprei, pronto pra ver o Disk MTV e Videoclash, tem outros elementos que tornaram a nostalgia por esse tempo tão forte nesse início de 2016 pra mim — e que certamente contribuíram pra que eu simpatizasse com um faixa da, duh, meghan trainor.

Eu gosto do cd do Lucas e Orelha, que a esse ponto não vale mais a pena se aprofundar tanto o quão parecidos com o Claudinho e Buchecha eles são, mas eu gosto principalmente do estilo de songwriting que eles seguem (que é basicamente o romantismo do pagode 2000 – exalta pre-thiaguinho, travessos, belo, etc.), um estilo quase morto entre os artistas masculinos daqui hoje. also tem uma música chamada “Love com Você” no disco! eu gosto também de laços de família (melhor novela do maneco depois de mulheres apaixonadas) e da malhação da geração vagabanda (precisa de rubrica?), duas novelas que eu assisto com muito gosto quase todo dia no VIVA a tarde.

Todos os elementos citados nesse parágrafo meio que moldaram pra caralho o que foi a minha vida na primeira metade dos anos 2000, de uma catarse que consumir tudo isso em 2016 continua tão bom — claro que, por vários vestígios da época, afinal a nostalgia é perigosa a isso, mas todos eles funcionam muito bem assim mesmo. ainda essa semana, eu começava a citar essas novelas, esses artistas pra um amigo e a conversa terminou, basicamente, na construção informal da minha biografia.

Eu não fiz esse post pra iniciar uma já velha (e extensa e chata) discussão sobre nostalgia, mas isso é tão bom, sabe.

Um comentário em “Bug do milênio”

  1. Tive a mesma ‘viagem’ sobre essa música.
    Me senti no inicio dos anos 00, quando se ouvia muito TLC e Destinys Child com aquele black-pop, aquelas referências de ritmos animados e cheios de sintéticos disfarçados por uma letra ‘chicletuda’ e cheia de mini-mensagens.
    Mesma vibe que eu senti em INÚMERAS faixas do novo álbum do Zayn (bem melhor fora do 1D).
    Você já ouviu esse?!

    Adorei o texto!

^-^

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