da ilusão a reafirmação da imagem em wildest dreams

also: joseph kahn é um gênio. já falei isso?

desde a primeira vez em que falei sobre minha admiração sobre o kahn aqui (e dá lhe lá uns 3 anos) eu vi ele passar por situações inusitadas e inesperadas dada a forma como era o seu processo completamente não-outsider como diretor de clipes. uma nota rápida: as pessoas em geral realmente não se importam com diretores de videoclipes — quer dizer, se você não é spike jonze ou michel gondry ou um diretor de cinema respeitável, tipo o pta, e dirige um clipe pra sua ex-namorada de vez em quando –, eles são vistos como não mais que um operador, alguém que tá ali especialmente para dar algum sentido á imagem do artista. o que kahn tem conseguido, desde que começou a colaborar com a taylor swift há menos de um ano, então, é bem além: ele saltou de alguém que simplesmente dirige bons clipes pra taylor swift á um auteur que desperta o interesse tanto quanto o artista em questão. nas duas últimas colaborações dos dois, então, eu tive um prazer de ler “a film by joseph kahn” nos créditos iniciais. incomum.

os motivos pra isso, claro, envolvem muito o timing de estarmos falando da maior popstar do planeta do momento, mas também há muito diálogo e entendimento da cultura pop que elevou kahn a esse status. (eu conseguiria passar um dia inteiro lendo ele falar sobre seu trabalho com a britney spears, por exemplo.)

semana passada, das tantas vezes em que a taylor subiu no palco do vma, me chamou a atenção o momento em que ela foi receber algum prêmio por “blank space” e levou o kahn junto pro palco; num discurso de agradecimento redirecionado pra ele, ela diz “ele me tirou da minha zona de conforto”. isso, em si, já diz bastante e em tantos níveis quando chegamos até “wildest dreams”: minha reação instantânea observando a metalinguagem dele era relacionar aos velhos clipes da taylor, áquela época em que tudo que ela fazia era um coming of age padrão e recebia críticas pesadas nas mensagens digamos, hum, na linha conto de fadas da disney.

em “wildest dreams” EXISTE esse tipo de romance idealizado, mesmo que toda a ideia do clipe seja em volta dos bastidores de um filme. quando kahn distancia seu plano pela primeira vez da equipe de filmagem e há o primeiro close-up no casal taylor/eastwood filho a sensação é de se perder entre os dois; uma manipulação um tanto óbvia, mas que, para além de tansformar um clipe de bastidores até então, ajuda na reafirmação dessa imagem (voltemos ao bruto).

afinal, se o clipe rompe com a imagem da velha estória de amor em seus clipes, se apropriando da mesma como um instrumento da narrativa é um truque e tanto. a diluição das especifidades do espaço – os planos abertos na áfrica, os animais, a perspectiva de ambiente, tempo, etc – são o maior resultado disso. a influência de “hatari!” nesse sentido vem mais que uma solução visual, está na forma em que ele aposta esse espaço — um universo propenso a essa ilusão do romance. o clipe é grandioso enquanto é um clipe sobre o romance.

kahn afirmou que esse é seu melhor clipe até o momento e, embora ele não seja um “toxic” ou “everybody”, nem mesmo é minha parceria preferida dele com a taylor, isso é totalmente compreensível. “wildest dreams” é seu clipe mais ambicioso até hoje, não no tipo de ambição que formulou a bagunça em “bad blood”, mas ele tem uma aproximação muito forte com a estética cinematográfica. é uma sofisticação a qual kahn nunca lidou antes (o irônico é que como um auteur estabelecido, dirigindo filmes, ele sempre se apropria tão bem da estética de videoclipe neles) e eu não consigo pensar em outra justificativa pra isso se não que é, sim, uma perspectiva da taylor — que não coloca em cheque sua figura de autor aqui, de qualquer forma. um plano como quando a mão do eastwood filho no estúdio vai se distanciando da de taylor até só enxergarmos a figura da garota, por exemplo, eu diria que é mais kahn mimetizando uma opção da tay que qualquer outra coisa.

mas kahn é um diretor de extremos, que sempre trabalhou com maximalismo, na superfície da visão ocidental por um asiático. seus dois outros clipes com a taylor também não mudavam muito essa história, mas em “wildest dreams” é diferente. ele flerta com uma sensibilidade, uma delicadeza que se aplica bem a maioria das letras da taylor — ainda mais essa, onde cada momento ela agarra suas especificidades no melodrama — e que anteriormente pareciam alienígenas na sua linguagem. se taylor disse que kahn a tirou de sua zona de conforto, por sua vez ela também fez o contrário. isso se aplica tão bem a dinâmica do vídeo que, não importa os giros que eu der explicando o autorismo de joseph kahn nele, sempre volta a imagem, a mitologia do artista. e ninguém melhor que ele a imaginar, analisar e aplicar isso, né?

^-^

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