sobre a vulgarização do gosto (or nah)

Um dos discos que eu mais tenho escutado ultimamente é “Músicas Pra Churrasco Vol 2”, o mais recente do Seu Jorge. O disco é perfeitamente canônico e exportável como tudo que ele fez até hoje, acrescentando umas doses cavalares de smooth soul em vez do samba de shopping anterior. Muita influência de Stevie Wonder, Barry White e principalmente Jorge Ben e tals.

Eu aposto como se eu procurar qualquer crítica pro disco no Google, o que eu falei acima será o corpo do texto. Claro, sem surpresas; você é realmente tentado a valorizar algo por elogios que carreguem uma certa credibilidade. Natural. Mas sim, soul é a minha praia, eu realmente curti a voz do Seu Jorge dentro dele e tudo mais. Mas não posso dizer que as coisas que mais me atraem dentro do disco sejam essas. Eu gosto é de vê-lo flertando com o populacho, dessa valorização das crônicas meio banais na vida de um cara suburbano; não que essas sejam qualidades propriamente ditas, mas é o que o talento do Seu Jorge quer. Ele faz músicas sobre gente bipolar, sobre motoboy, faz sex jams, uma outra sensacional chamada “Mina Feia”… o que der na telha. E o melhor é que essas opções dele – líricas e até melódicas também, já que tá sempre entonando um típico sacana – tem um contraste genial com a suavidade, a elegância do soul: é como se ele estivesse reafirmando uma imagem de “novo rico”, imagem conservada e perpetuada por mais de 10 anos, do cara de Belford Roxo que tá na capa da última GQ. Eu gosto disso, me diverte um bocado.

A moral dessa história sobre meu gosto, dessa minha interpretação é que… ela é um gosto, uma interpretação. É a melhor forma de mostrar o que me atrai num objeto, certo? Então porque coisas como essa são escritas? E coisas como essa brotam feito gremlins? É um incômodo desmedido e sempre lotado de (más) tendências naturais dentro de um mesmo nicho, muita condescendência. É sintomático que você precise relacionar um mero diretor que você não goste com o tumblr, o pornô, o .GIF e até o funk e o Esquenta numa tentativa falida (e bem clichê, sejamos sinceros) de depreciar uma *geração*. (Um longo silêncio pra tentar entender a definição nada ecumênica de geração imposta aí.)

***

Eu nem tou falando isso necessariamente a respeito do vulgar auteurism ou o que quer que isso signifique hoje. Apesar de que foi algo a que eu estava muito mais alinhado lá no início da disseminação (2012, mais precisamente, na época de Resident Evil – Retribuição e Soldado Universal 4), ainda é um tipo de pensamento crítico que eu me identifico — primeiro, penso pela linha de pensamento do filme de ação, de seu conceito de auteurism, do apreço pela geometria espacial e por, claro, dar cada artigo que o Paul W.S. Anderson e o John Hyams merece (incluindo essa épica entrevista do último no Notebook). Mas de repente, eu leio que o maior atrativo desses filmes é por serem coloridos? Ou por terem planos que ficam pompozinhos em screenshots?? E que são simples. rápidos. poucos. meros frames? (mas lembrando: Eu gosto disso, me diverte um bocado.)

Mas ok, vamo imaginar que foi um reducionismo, no mínimo, grosseiro. Vamo passar pros cineastas que é o que importa. Por que não há nenhuma citação ao recém-aposentado Soderbergh? E ao John McTiernan, mais de uma década sem trabalhar? E o Russel Mucahy (quem é esse?)? Só porque alguns destes diretores, meio ou totalmente inativos, anulariam o argumento do “modismo”? E os majoritariamente *defendidos* para além do v.a. (Neveldine/Taylor, Shyalaman, Mann, de Palma, etc), o que rola aí? Será que vale a pena confrontar uma crítica tão mal construída como essa? O que é “relação de desonestidade” agora?

3 comentários em “sobre a vulgarização do gosto (or nah)”

  1. teu post tá bom e deu uma bela esclarecida nas minhas ideias. o texto da interlúdio é bem um exercício inócuo de pensamento mesmo, tāo prepotente e ao mesmo tempo tão vago nas próprias intenções (um detalhe que tu nem pegou é que só o número de screens de re:retribuition no tumblr do va já deve dar metade do filme, mas ele bate na ideia do frame de 3 segundos em todos os parágrafos). eu sou dos que tão mais nem aí que qualquer coisa pro autorismo vulgar, mas que é bem comum esbarrar nos mesmos gostos, então dou uma relevada.

    *só salientar que o paralelo no início do post foi MUITO relevante. isso já deve ter acontecido comigo várias vezes e eu nem percebi. é até estranho se interessar por cinema – arte etc – e esbarrar tanto nesses argumentos forçosamente semelhantes e você sequer parar pra problematizar isso.

    1. ‘eu sou dos que tão mais nem aí que qualquer coisa pro autorismo vulgar, mas que é bem comum esbarrar nos mesmos gostos, então dou uma relevada.’

      sim, eu tou meio q por ae hj mesmo…
      valeu os elogios <3 acho que esse texto dá até pra fazer um balanço mais completo do tanto de coisa aleartória que tá lá, meio q jogada e manipulada, só pra dar algum sentido a opinião dele.. esse post ficou bem um resumo do resumo :B

^-^

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