“So, don’t I deserve to be privileged?”

no início do ano eu resenhei o disco da jazmine sullivan, reality show, mas por questões de timing e outras competências, o texto nunca viu a luz do dia. Isso já tinha acontecido comigo ano passado quando escrevi sobre a ariana grande, só que enquanto o disco dela foi esfriando e não foi tão bom quanto eu esperava (na vdd, passou longe) o da jazmine é uma obra-prima; e o quanto eu puder falar sobre ele, ainda será necessário. Fora que ainda é um material super relevante pro nosso tempo recebendo uma atenção tão pífia – uma comparação random, mas, ela guarda paralelos óbvios por seus assuntos com o To Pimp A Butterfly, só trocar o blaxploitation pelo Love & Hip Hop e a sede pretensamente épica do k dot pelo songcrat exuberante da jazmine. enfim, o que importa é que está aqui agora, o artigo na íntegra.

“This is a landmark, hey!!!!! List makers and bloggers. I’m sorry that there is no gimmick here, and I’m sorry that this is a dark skinned female…fully clothed… but this belongs with your Channel Oranges and your Black Messiahs, why wait for someone to tell you this? In fact… it almost saddens me that some people might like this just because I’ve now said that it’s amazing, but you know… I understand, how do you even hear of music these days? Usually from people proclaiming it. The landscape has changed…there’s no more music news, there’s only music views.” – Dev Hynes

No final de 2014, quase que simultanemanente, Nicki Minaj e K. Michelle lançaram dois dos discos mais fortes daquele ano, dois discos que decorrem sobre um tema tão caro a música (o fim de um relacionamento) por perspectivas um tanto curiosa, dada a personalidade de ambas as artistas. “The Pinkprint” e “Anybody Wanna Buy Heart?” eram discos que tratavam sobre o que vinha após um relacionamento da maneira mais vulnerável possível, uma maneira na qual ambas já falaram que é um estado em que podem se sentir confortáveis e perfeitamente fortes. Acima de tudo, são trabalhos de duas mulheres que, em geral, são colocadas num grupo de ‘bad ass bitches’ dando continuidade a enorme versatilidade que elas tem com a música e seu lirismo.

O terceiro disco de Jazmine Sullivan, Reality Show, pode-se dizer complementa as mesmas ideias de Nicki e K. Michelle, mas com observações quase que metalinguísticas sobre a forma que os artistas são encarados – a começar pelo seu nome. Não que Jazmine seja o tipo de cantora no padrão ‘bad bitch’ onde as pessoas facilmente não a levariam a sério ao realizar faixas confessionais, mas sim que ela reconhece essa possibilidade, aliás, estas afirmações que sempre puxam as mulheres (ainda mais as negras) para um estereótipo, para um subjugamento a cada opção que elas façam. Reality Show, assim, conversa com os dois supostos autores do disco: a Jazmine e seu público, ou a sociedade de um modo geral.

Não surpreende que ela percorra durante o disco inúmeros arquétipos, tropos e gírias, que é o melhor modo, segundo a própria, de falar sobre a sociedade no nosso tempo e como ela afeta a nossa percepção. Ela volta a uma vulnerabilidade, como Nicki e K. Michelle, mas em tom de análise, sobre um relacionamento abusivo que culminou no afastamento da cantora de sua carreira por 5 anos; um relacionamento como uma exploração intrinsecamente confessional para um disco que se permite como uma dupla visão.

A primeira faixa, “Dumb”, apesar de ser um teaser promissor liberado mais de 6 meses antes do disco, não é o caminho que Jazmine segue aqui. Sua jornada começa em “Mascara”, uma das suas músicas mais fortes, onde ela fala sob perspectiva de uma mulher que vive da aparência, um tipo de personagem que os reality shows amam, mas adota uma postura mais complexa do que se espera: Jazmine não está interessada em ser crítica a uma mulher como a Kim Kardashian, por exemplo, aqui está em jogo a como ela é negativada, a como ela depende de um POV masculino para ser como ela é – e o subverte mais tarde, usando uma ferramenta como… uma maquiagem? Acima de tudo, “Mascara” se dirige a consciência que ela tem da forma como é vista, e age com uma superioridade sarcástica, neurótica, que não esconde seu cansaço e vulnerabilidade diante da visão que a sociedade teria.

Mais tarde, sua narrativa se torna ainda mais visceral, como em “#Hoodlove” (sim, hashtags!) onde ela fala sobre a entrega total a um amor, usando um “It’s hard but you make it look easy” para descrevê-lo. Para Jazmine, que chegava a ser apontada como a ‘nova Mary J. Blige’ nos altos de seu primeiro disco, a narrativa de Reality Show é um exercício de autenticidade, um ponto a mostrar seu songwriting indiossincrático e maduro, tanto tempo após seu segundo disco igualmente brilhante, Love Me Back. Pegue a forma como ela progride sobre seu relacionamento após “#Hoodlove”, por exemplo; o que se segue são faixas num fluxo contínuo sobre como ela está sendo afetada com aquela condição: “Veins” e “Forever Don’t Last” formam os momentos mais orgânicos do disco, sobre a dor e a superação da mesma por alguém que ainda está imerso nas sensações dum relacionamento tão problemático. São momentos crus que põem sua vulnerabilidade ainda mais próxima de Nicki e K. Michelle, assim como se um momento tão confessional, tão difícil, não fosse algo a que ela estivesse pronta ou desafiada a falar até então; é uma narrativa que ela adentra com dificuldade e a desenvolve ainda desajeitada, com sua noção do que é ser vulnerável ainda ligados duramente a conceitos de poder e feminilidade.

Outras situações em que há um auto-desafio aqui é quando Jazmine inclui outros tropos impondo uma análise raramente não limitadora, são figuras de mulheres que talvez nem outras mulheres compreenderiam, aceitariam. Em “Let It Burn” há aquele amor pelo rapper em ascenção e aquela paranoia obsessiva sobre o relacionamento; em “Stupid Girl” ela segue um tipo de produção meio doo-woop soul dos anos 60 para fazer uma crônica sobre a total submissão dentro de um relacionamento (ainda que sempre haja aquela pragmatismo, essa entrega a consciência do ato – “Boys have toys too, you know they do, they call us stupid girls and when you love ‘em like I do you’ll be a fool, you’ll be a stupid girl”) e em “Stanley” há a desconstrução da garota histérica por meio da disco, um aceno irônico de Jazmine aqueles que demitem seu ponto de vista sobre um relacionamento (sim, entrando num território quase de “Blank Space” – e eu espero que a música ganhe um clipe na mesma linha).

Mas o que seria essa narrativa de Jazmine não fosse esse universo que a fascina e a diminui o tempo todo? Que seriam essas mulheres que ela conversa, fala e interpreta por cima de texturas ricas e tão mínimas? Não é exatamente como um problema que ela encara isso, há muito mais otimismo em Reality Show do que aparenta – Jazmine, no fundo, quer muito mais que nós olhemos para essas mulheres como mais uma ou outra pessoa do que necessariamente mudá-las. Há um quê de capacitação em cada uma destas faixas, por mais vulneráveis que elas sejam; que subvertem a ideia central do arquétipo e acena para uma só personalidade complexa que, aqui, é muito bem analisada.

“Love Me Back”, não à toa, em 2010 falava sobre a necessidade de ser amada. 5 anos depois, como terminar seu disco que fala sobre como o tal amor que não lhe fez bem? A Jazmine, em “Mona Lisa (The Masterpiece)” não resta nada além do maior ícone ocidental e branco de beleza para lembrar onde ela finalmente chega – a um auto-amor anacrônico, multifacetado, estilizado; um manifesto de empatia a lembrar “Every part of me is beautiful. And I finally see I’m a work of art, a masterpiece” que eleva sua então dinâmica dramática a uma dimensão relacionável. É um tom de mediação retórico para suas personagens tão bem definidas, ainda que uma tradicional busca pela autoconfiança, onde é tão bom vê-la com uma aversão notável a exotificação das mesmas, e ainda preservando sua centralização, como um catalisador na construção do disco.

3 comentários em ““So, don’t I deserve to be privileged?””

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