2014: melhores filmes

Desculpe pela demora, já tinha comentado aqui que ano passado tive prioridades além do cinema e, até aqui, essas prioridades tem me ajudado bastante (!!!). Como resultado, mais um ano em que eu diminuo em 10 o número de filmes na listas, mas culpe também o nosso circuito (ainda procurando uma forma de enfiar Ross Perry e Brisseau nessas listas).
O sistema é o mesmo dos outros anos: vale qualquer filme lançado no Brasil, seja nos cinemas, BD/DVD, TV, etc.

Menções honrosas:
Enemies Closer (Peter Hyams), Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (Daniel Ribeiro), Nebraska (Alex Payne), No Limite do Amanhã (Doug Liman), Non-Stop (Jaume Collect-Serra), Oldboy (Spike Lee), Ela Dança Eu Danço 5 (Trish Sie), Time is Illmatic (One9), Veronica Mars (Rob Thomas), Vizinhos (Nicholas Stoller), You’re Next (Adam Wingard)

30 Anjos da Lei 2 (Phil Lord e Chris Miller)
Havia tantas razões para se ser fã do primeiro, e as mesmas razões estão presentes aqui, mas o que faz esse filme crescer mais e mais a cada vez que penso nele é Lord e Miller levarem uma tese tão simples do humor (onde qualquer arquétipo pode virar gag, incluindo as particularidades do Hill e Tatum) para constituir absolutamente tudo que funcione nele.

29 Chef (Jon Favreau)
Ao contrário do que o Shyamalan disse, esse não é o filme que colocaria Favreau no território de um autor, mas ele explora de uma forma mais clara (não leia isso como “limpo” ou mais “agradável” como certos críticos tentarão te convencer) as mesmas qualidades dos picos do diretor (Cowboys e Aliens e Homem de Ferro 2). Pode parecer meio sub-Woody Allen as vezes, mas é incrível como cada hora que o filme tende a cair Favreau volta ao miolo para algumas sequências muito efetivas.

28 Operação Invasão 2 (Gareth Evans)
Outra continuação que radicaliza as ideias de seu primeiro filme, o que quer dizer que nós continuamos com algumas das cenas mais viscerais e violência gráfica e um painel político meio imperfeito, mas sempre relevante de Evans.

27 Academia de Vampiros (Mark Waters)
Provável que a única vez que você ouviu falar de Mark Waters em 2014 foi porque Mean Girls completou 10 anos, mas o que pouca gente sabe é que de um artesão moderado pelos dotes da Tina Fey, ele foi se tornando um diretor preciso, ainda que hiper refém de certos artifícios acadêmicos. Este aqui é um de seus mais expressivos visualmente, utilizando um pouco (bem, na verdade é bastante) da linguagem pop e girly de seu clássico e uma nostalgia de Buffy pra fazer uma espécie de conto que menos analisa sua geração que tenta compreender seus fascínios.

26 Ip Man: A Batalha Final (Herman Yau)
A longa cena de abertura deste último Ip Man é um zoom digital por uma Hong Kong pós-guerra, fadado a um CGI zumbi de Yau. Isto já diz muito sobre as intenções do diretor, mas diz por como, dentro da série, um painel literalmente geométrico de sua ação é tão importante.

25 O Homem de Tai Chi (Keanu Reeves)
Keanu Reeves estreiou como diretor num filme de ação chinês. Incomum. Mas é como ele trabalha, na espreita do objeto orientado pra VOD, uma idiossincrasia de gênero básica, mas sempre eficiente, que gera uma sensibilidade de ação pra cada mometno em Man of Tai Chi. A mise en scene dos seus embates é o que interessa aqui e Keanu não hesita em ser relaxado e econômico com suas gorduras.

hotel24 O Grande Hotel Budapeste (Wes Anderson)
Anderson a altura em que parece um dos caras de mais prestígio no cinema americano, insiste em vender sua “fórmula” de autor como sua única possibilidade. Não é que ele seja tão melhor que os outros, mas a possibilidade de estar fazendo filmes tão específicos entre si com esse toque metarreferencial para suas próprias estórias é sempre bem-vindo.

23 Snowpiercer (Bong Joon-ho)
Em seu primeiro filme americano, Bong parte de uma premissa absurdamente comum – uma metáfora política de como é a sociedade funcional – para um daqueles sci-fis no típico motor do cinema popular á Carpenter. Não tem nada demais falar que Snowpiercer é tão brilhante simplesmente porque ele é violento e tem um humor negro de primeira, aliás.

22 O Lobo de Wall Street (Martin Scorsese)
Este, assim como Hugo e vários dos recentes do Scorsese, pode ser um filme que se revela sempre ostentando os seus defeitos, mas ele é um tanto mais vibrante (alienante, talvez?) que os outros porque 1) é uma comédia, 2) das mais divertidas situações de mau gosto que ele poderia fazer, 3) nunca recusa o que pode vir pela frente nos excessos de Belfort e 4) esse é o único filme dele em que eu gosto genuinamente do Leonardo Dicaprio.

21 O Gebo e a Sombra (Manoel de Oliveira)
Ainda me acostumando com o filme anual no circuito de Manuel de Oliveira que eu vi há mais de dois. Esse aqui é uma espécie de contraponto a Estranho Caso de Angélica, onde o diretor capta cada nota da situação ou detalhes dos atores como um potencial filme de horror. É filme de um peso desigual, muitas vezes proferindo situações simples como observações muito contundentes sobre a Europa contemporânea (ajuda quando você percebe que Jeanne Moureau e Claudia Cardinale estão nele).

20 Amar, Beber, Cantar (Alain Resnais)
O último filme de Resnais é também talvez seu menor em uns 20 anos. Mas Resnais menor a altura dos seus grandes diálogos com o teatro não quer dizer menos que tenhamos pelo menos uma aula de condução dos elementos teatrais como puramente cinematográficos e que amplia muita a sua ideia sobre tudo a que ele se dedicava desde Meló.

19 Twixt (Francis Ford Coppola)
Outro filme que o circuito passou uns 2 anos ignorando aqui antes de estreiar, espécie de In The Mouth of Madness do Coppola em versão ainda mais divertida. Este é o tipo de filme que se costuma demitir pelas altas doses de cheesy-ismos, mas por alguma razão, eu vejo isso também em Tetro – uma das grandes obras-primas do diretor – e funciona de forma semelhante aqui: a medida em que a carreira de Coppola se encontra mais vale ser esperto que talentoso. Ele se vale da ideia de que ninguém duvidaria de um filme de Francis Ford Coppola sobre um artista perdido e vai em direção as possibilidades fetichistas ou não mais pessoais que ele poderia ter. Um cinema apaixonado cuja relevância se dá na própria paixão.

18 Lucy (Luc Besson)
O filme mais sem vergonha do ano, aquele que abraça todo o anacronismo brega dos anos 90, toda a precisão de seu design/produção/figurino/wtv em nome de uma crença ridícula, mas sempre tão estimada; é do tipo de filme que te instiga por mais horrível que você ache, é do tipo que faz querer saber até onde Besson pode ir – no mesmo dia em que vi, li uma entrevista dele dizendo que é mais importante pro cinema francês que Godard! E, assumindo que tudo de bom que você possa encontrar em Lucy pode ser simultaneamente o que o torna repulsivo, esse não é nem o melhor veículo proto-feminista pra Scarlett Johansson de 2014.

17 Jersey Boys (Clint Eastwood)
De certa forma a decadência de um grupo pop para Eastwood não tem muito de diferente que suas longas observações sobre a morte, ao longo de uma carreira tão grande. É isso também que o coloca tão a frente desses comentários de redes sociais que se espalharam nas últimas semanas – como só um autor como ele, na altura dessa vida poderia dizer; há algo de incrivelmente memóravel a tirar do espaço onde seus protagonistas se estabelecem e o que ele evocará em diferentes estágios de suas vidas, um labirinto que alimenta a nostalgia, as memórias e que demonstra o extremo cuidado dele para com o que é atemporal.

16 A Imagem Que Falta (Rithy Pahn)
Este é antes de tudo um filme de sedução, no qual Pahn nos conecta como turistas dentro de sua história no Camboja. Conforme mais e mais você fica seduzido pelas imagens (não necessariamente pela criatividade delas) ele é um filme de catarse, onde a consciência cultural do diretor é o motor generalizado da experiência.

15 The World’s End (Edgar Wright)
Este é o filme mais bem realizado de Wright até aqui, e falo de um dos diretores mais importantes dessa atual safra, pelo seu diálogo e apelo frente ao público. Todo filme de Wright é sobre um crescimento, uma maturidade indesejável pra Simon Pegg e Nick Frost; não surpreende que parte deste filme se destine a ser um drama à Albert Brooks, onde ele predefine o que será esse desejo de maturidade, estabelecendo seus espaços e personagens muito bem e, como sacana que ele é, só precisamos de um twist para que ele se torne um outro filme igualmente bem realizado, um scif-i lotado de CGI que nunca soa mais que uma grande aventura pessoal.

14 Ninja II: A Vingança (Isaac Florentine)
Uma das figuras centrais da Nova Escola de ação, Isaac Florentine, assim como o John Hyams tem como principal qualidade não exatamente cada movimento que ele expõe da ação de seus filmes, mas como agrupa alguns desses movimentos e transforma em diferentes unidades espontâneas. Não é errado falar que um filme como Ninja 2 está muito próximo de um musical: a intensidade com que Florentine coreografa suas lutas e como ele arquiteta e expõe todas as suas próprias intenções em meio a cada uma delas é certamente uma qualidade cada vez mais distante dos ditos musicais que o cinema de ação tem se apropriado muito bem.

13 O Ciúme (Phillipe Garrel)
É certo que O Ciúme segue a linha quase ética da segurança com que os temas passeiam pela câmera de Garrel (são como relatos pessoais), mas muito da força vem dele se assemelhar a um olhar infantil. Ou olhar incompleto, sendo literal com as imagens que ele evoca. É um filme de fragmentos e espaços sobre um relacionamento estranho, delicado.

12 Passion (Brian de Palma)
Como todo bom de Palma, Passion é um filme de pistas falsas, para não dizer uma relação paradoxal: neste caso, um thriller congestionado de opções impessoais para que o diretor as condense e invista no seu típico modelo autêntico de fazer cinema. É uma geometria de maneirismos, no melhor estilo de Femme Fatale e Dublê de Corpo, a que ele busca voltar de década em década e sempre tão bem.

11 Gone Girl (David Fincher)
Três filmes em sequência aqui que me fazem pensar no Brian de Palma (nenhuma ironia com a inclusão de um filme dele entre esses) não porque ele faz ‘grandes thrillers’ e essa bobagem toda, mas como ele parte das expectativas mais artificiais para com o gênero para algo mais próprio, que nem sequer está ligado aos fundamentos dessa estética. O filme de Fincher nem sequer é um thriller, muito mais uma comédia de tantos arquétipos de casais – e alguns precisam urgentemente serem avisados disso -, filme de atores na sua forma mais cínica. É um tanto estranho as opções que Fincher faz aqui, como emular várias ideias de Side Effects do Soderbergh (outro especialista em farsas), mas quase sempre são artifícios certeiros dentro dele. “That is marriage”, diz Amy lá pelo fim do filme, como se Fincher indicasse exatamente o que ele quer para o público sem que o mesmo quisesse desvendar tal relação.

10 Grand Piano (Eugenio Mira)
Fechando a trilogia dos thrillers onde tudo que menos importa é você saber que é um thriller esse subestimado filme espanhol sobre o exato processo entre a incapacidade de criar e o autêntico (tanto quanto qualquer De Palma decente). Na verdade, Mira mostra em vários níveis – narrativamente, incluso – o quanto seu virtuosismo pode se envolver na relação que o filme tem com suas próprias influências. Talvez como em Ocean’s 12, nada aqui soe minimamente como um diálogo; no máximo, ele pede licença para sucessivas apropriações enquanto articula o próprio conceito de autenticidade.

9 A Guerra das Drogas (Johnnie To)
Obrigado as ideias de Johnnie To do que é uma guerra de drogas, um título elucidativo (para alguns redutor) do que é essencial aqui: não há humanidade para haver ação, cada um é devidamente – e literalmente – apagado da narrativa para que ela permaneça tão em êxtase.

8 Débi e Lóide 2 (Peter e Bobby Farrelly)
Sendo fã dos Farrelly há tanto tempo e crescendo com o Débi e Lóide de 94, esse filme parece um triunfo pra mim. Não porque é uma continuação, nem por ser uma celebração da sua dramaturgia (muito semelhante, diga-se), mas por ser uma celebração da carreira deles. Ele evoca elementos seja dos momentos mais formais dos irmãos, seus notáveis experimentos, depois reinventados e devidamente formatados, seja idealizando uma autenticidade independente de tudo que eles já fizeram. É apenas uma forma muito mais forte de se fazer isso que qualquer outro diretor pensaria.

7 John Wick (David Leitch e Chad Stahelski)
uma das últimas descobertas dessa lista e talvez o filme de ação mais revigorante em algum tempo. É um daqueles filmes que não rejeita suas tendências a vísceras, que abraça cada conceito e ideia de modernidade e que por isso mesmo soa tão necessário dentro de seu gênero, sempre um fiel aliado das tradições. Esses dias brinquei dizendo que esse é um equivalente pro cinema ao EDM, mas isto não é totalmente errado; e nem é pela trilha sonora skrillex-leaning, mas o arco dramático de Leitch e Stahelski que é tanto forte por inserir a catarse só na possibilidade um twist como pela sua noção de espétaculo ligado a tal me parece sempre uma boa forma de pensar um gênero ainda relativamente mal visto e um filme que parece uma novidade dentro do seu nicho.

6 Pompéia (Paul W.S. Anderson)
Como apreciador de Anderson e suas habilidades pra encenação principalmente lidando com uma estética de video-game, eu diria que esse é fácil seu filme mais performativo. Anderson é tão certo de como cada um de seus gestos funcionam numa narrativa pretensamente épica destas que suas soluções – um sentido em que seus personagens se eternizem – são tão óbvias quanto desafiadoras.

5 Tudo Por Um Furo (Adam Mckay)
O subtexto paranóico de Mckay/Ferrell não é só meu gênero favorito do cinema americano no século 21, mas também a forma mais importante – e política! – de se falar sobre as relações de poder, saindo totalmente ao controle da guerra sobre jornalismo e dialogando com uma questão de (no primeiro apenas de gênero) de gênero/etnia. Lembre-se do que eu falei aí em cima sobre Anjos da Lei 2, não tem muito o que explicar, sabe.

4 O Ato de Matar (Joshua Oppenheimer e Christine Cynn)
Se O Lobo de Wall Street é um filme tão forte sobre os excessos do espetáculo e Bem-vindo a Nova York é a obra-prima que verdadeiramente os problematiza, O Ato de Matar é um filme que estuda uma correlação entre os dois, descontruindo a cada instante sua própria relação com o cinema. Não surpreende que a única forma que os dois diretores encontraram de fazer um experimento desse tamanho esteja tão além da ficção.

3 Era Uma Vez em Nova York (James Gray)
Gray na sua relação mais essencial com a civilização. Como se cada um três protagonistas aqui representassem a forma do corpo existir no cinema tão imenso como o dele.

2 Bem Vindo a Nova York (Abel Ferrara)
Depardieu, que é tanto a figura cartunesca decadente como uma caricatura do poder, assumindo todo um imaginário que o ser humano já guarda das Grandes Figuras. É só o que Ferrara precisa pra fundamentar seu filme até que ele entre no universo da decadência de Deveraux (a prisão), uma parte que investiga tanto a vulnerabilidade do poder (quando expõe o corpo de Depardieu) quanto dá um 360 graus sobre tudo o que o universo daquela figura rejeita (e a forma como os homens negros são vistos é importante nessa percepção). Alguém já me falou que Bem Vindo a Nova York formaria um bela oposição a O Lobo de Wall Street; o que não é mentira, já que enquanto a caricatura e o excesso ocupam quase 3 horas para Scorsese a ponto de alguns mal interpretarem suas próprias intenções, em Ferrara não existe espaço para barrigas, o fluxo narrativo é milimetricamente construído e claro, nunca há dúvidas sobre o que a figura de Deveraux representa, a despeito de Ferrara ser literalmente bem menos higiênico que Scorsese.

1 Sob a Pele (Jonathan Glazer)
Não confie em gente que não gosta desse filme porque não será todo dia em que o melhor filme do ano também é o mais relevante, um ou um dos mais comentados, discutidos etc. Eu escrevi uma cápsula sobre ele aqui mesmo, não tendo certeza se isso dá conta de metade das dimensões de Glazer, mas continua um bom resumo do que de há mais importante extraído do miolo dele.

3 comentários em “2014: melhores filmes”

    1. putz, tinha certeza que já tinha estreiado há mó tempo. tanto que eu nem me dei ao trabalho de ir checar no filmeb
      daí eu pesquiso agora e encontrei q tanto a estreia tinha sido cancelada como só vai chegar direto em dvd agora em janeiro ;_;

^-^

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