2014: melhores discos (2)

Ok, enquanto você clica aí pra ver a lista, que tal saber quais são as experiências mais terríveis com música que existiu em 2014?
Banks, Goddess
Criolo, Convoque Seu Buda
Ed Sheeran, x
How to Dress Well, What is This Heart?
I LOVE MAKONNEN, I LOVE MAKONNEN
Jhene Aiko, Souled Out
Lily Allen, Sheezus
Paloma Faith, A Perfect Contradiction
Pharrell Williams, G I R L
Untold, Echo in the Valley

Agora, devidamente limpos. Vamos lá. 

25. Sage the Gemini – Remember Me
Duas das melhores coisas que aconteceram no rap esse ano foi o Bobby Shmurda com a febre do shmoney dance e de “Hot Nigga” e os Rae Sremmurd, o duo de muleques que era o primeiro grande exemplo da influência da Nicki Minaj no rap dos últimos anos. Os dois são grandes exemplos daquela espontaneidade juvenil, que vem tanto se destacando e se mostrando necessária no gênero ao longo do tempo. Sage the Gemini, que era algum candidato a esse posto ano passado em “Gas Pedal”, junto com o amigo Iamsu! (que também lançou um bom disco esse ano), apenas reforça aqui como criatividade e ironia andam de mãos juntas pra saber o quanto o som que esses garotos fazem é interessante.

Tudo aqui até parece ridículo no papel: Sage é um cara que escreve letras com um tom pesado de voyeur na balada, que tem Justin Timberlake e Robin Thicke como heróis e realiza o revival de um som que foi veículo pra ninguém menos que a Ciara 10 anos atrás. Mas no disco tudo isso é apenas um acessório que torna sua persona ainda mais interessante, seja para experimentar outra sonoridade fora do r&crunk e rnbass que dominam o disco ou seguir o flow de um rap melódico à Future ou Drake tendo palavras mais auto-consciente para tal. E olha que de guest spots em sex jams como “2 AM” pra pastiches desengonçadas a, sim, ótimos singles do Flo Rida, Sage se tornou meu rapper homem favorito do ano.

24. Gazelle Twin – Unflesh
A estética assutadora de Elizabeth Bernholz e seu ideal de corpo humano é como uma trilha sonora de vida própria para os filmes de David Cronenberg: olhe para os vídeos desse disco, olhe para a forma como ela fala sobre o mestre canadense; junte aos temas recorrentes ao longo do disco (puberdade, eutanásia, aborto, etc). É como se ela estivesse tentando complementar as ideias do diretor; especificamente lá pela metade do disco, cortado por uma intro (“A1 Receptor”) que soa como um ataque de pânico, ela abandona o exercício para os instintos mais comuns do corpo e entra numa espécie de meditação sobre a morte e suas formas. É um exercício de horror literalmente performático que por vezes atinge seu estado bruto em canções de 3 min.

23. Cher Lloyd – Sorry I’m Late
No ano em que cantoras como a Tove Lo e Sia eram respeitadas por quanto mais pareciam explosivas falando sobre vulnerabilidade, Cher veio igualmente cheia de tiques vocais e frases over the top, mas totalmente desarmada pra falar de alguns assuntos que sempre fazem bem as baladas emopop (perda, desespero, etc.); a maneira como ela torna frases tipo “GO ON PUT THE KNIFE IN” ou “I’m tired, i’m growin’ older” menos instrumento pra choque que sínteses do disco vai pra quanto ela manipula tão bem essa sonoridade. A afetação fica pra quando ela canaliza o melhor da Kesha num power pop dizendo “keep it all in your pants, booooy“.

22. Katy B – Little Red
Não exatamente o sucessor do On A Mission que muito querem, Katy vê neste disco mais ou menos o mesmo que a Cher: a possibilidade de estar totalmente focada no songcraft de uma música pop; não à toa, o principal assunto do disco são as mais variadas sensações e acontecimentos de uma noite na balada — e Katy o faz da forma mais muscular possível, já que como ela mesma lembra, esse é assunto tão recorrente na música pop mas sempre tão subestimado. Also: este disco inclui um dueto com a Jessie Ware chamado “Aaliyah”, que é tanto por essa ideia como pela música em si um dos maiores trabalhos já feitos por humanos.

21. Kelis – Food
2 anos após Nas fazer seu “Here, My Dear”, Kelis deu sua visão cínica do material breakup: ela recorre a tanto uma especialidade como mitologia (relacionar ‘Food’ e ‘Milkshake’ é instantâneo) pra criar uma espécie de auto-biografia modelada em tons de Minnie Riperton e Stevie Wonder. É similar ao disco da Neneh Cherry, exceto que Kelis e sua inquietação artística desde que era uma musa dos Neptunes faz um disco como este parecer uma mera variação orgânica totalmente coerente dentro da sua carreira.

20. MC Nego do Borel – É Ele Mesmo
Leno Maycon é provavelmente a melhor personalidade e também a melhor pessoa que eu tive o prazer de conhecer em 2014. Tentar diferenciar do quanto tudo que envolve ele é fascinante seja por uma aparição na TV, essas músicas ou um tweet é irrelevante. Mas, pensando da forma mais canalha possível dentro do contexto aqui, saca isso; é apenas como se uma música pudesse ser maleada pelo sotaque + timbre e ele conseguisse refletir o carisma a todo lugar que seu nome passe.

19. Flying Lotus – You’re Dead!
“I believe there’s more than this—that maybe when we die our brains conjure up some kind of shutdown experience, and that’s what people try to sum up as the afterlife. But yeah, I think something else is going to happen and it’s going to be crazy and confusing and weird, and we probably won’t know what it’s all about. It’ll just be another place where we’re trying to understand why we exist at all.”

18. Tinashe – Aquarius
Aquarius. Um título muito bom, mas que sempre me incomoda. Ele é, obviamente, uma referência ao mood&b, aquele R&B lotado de batidas subaquáticas dominado por Drake e cia. E me incomoda ainda mais por me remeter arduamente a figura da Tinashe que eu tinha em 2013, antes de escutar “2 On”. E, após “2 On”, durante muito tempo eu não acreditava nela como uma grande artista, uma persona forte para além de um veículo perfeito pras beats do Mustard. No Aquarius o tapa na minha cara foi tão forte que o disco tem alguns dos maiores produtores pop da atualidade (Mike Will Made It, Stargate, Detail, etc) e nenhum soa exatamente como você espera pelos hits que eles produzem — eles são um complemento que, na melhor das possibilidades, parecem idealizados pela Tinashe.

Aquarius, o disco, é previsivelmente hiper-focado nesse conceito de R&B mais atmosférico, obscuro, mood. Mas, de alguma forma, Tinashe lembrou que música nenhuma se sustenta com atmosfera: ela apenas cobre boa parte dessas tendências de blog sobre R&B num conceito pré-formulado e deu músculos onde praticamente todos os artistas que seguem essa cartilha soam vagos — o solo inexplicável de guitarra do Dev Hynes em “Bet”, os melismas inesperados de “Cold Sweat”, a textura Sade-esque grave de “Far Side of the Moon”. Tinashe, ao contrário do que ela tentava fazer na época de suas mixtapes, faz com que esse som (seja indie, alt, future, shitty r&b, o que for) soe correto, orgânico, vivo em vez de tão controverso entre os fãs do gênero.

17. Untold – Black Light Spiral
Provável ser o disco que mais criativo do ano, ao lado do Clap! Clap!, não à toa você poderia basicamente substituir o painel imaginário da música africana que o produtor italiano faz pela cena urbana de Londres na mente do Untold. Ele cria uma depuração textural tão intrigante a partir disso (os mais diversos sons – cirenes, carros de polícia, etc – se unindo para dar senso ao que há de mais essencial do techno ao footwork) que a atmosfera do disco já sobreviveria muito bem só com parte de suas ideias.

16. Toni Braxton & Babyface – Love, Marriage & Divorce
Um disco de veteranos, de pessoas de meia idade sobre assuntos de meia idade. Ás vezes nostálgico, mas sempre focado na música dos anos 90, que tanto rendeu pra esses dois, como a única possibilidade de lapidar suas palavras. O que é meio que uma violência.

15. Racionais MC’s – Cores & Valores
De longe um dos meu momentos preferidos de 2014 foi ler a entrevista do Mano Brown pra CULT, um pouco antes da Copa — especialmente o que ele fala sobre “viver de arte”, afetou diretamente minha relação com esse disco. Eu sei que eu mesmo posso me contestar depois, mas como tivemos um grande ano pra experiências extra-musicais com discos, está aí um grupo canonizado recusando cânones; recusando old-schoolzismos; indo em direção a um Tree 6 Mafia com o único intuito de complementar a potência do grupo, seja num diálogo com as sonoridades mais recentes do rap ou fazendo faixas R&B chamando de “Preto Zica”. Alguns dizem que são só teasers, mas eles não sabem o que tão perdendo.

14. Gangsta Boo & La Chat – Witch
Geralmente fãs de rap perdem tanto tempo discutindo sobre um Jay-Z, Snoop Dogg da vida, sobre como e o porquê da decadência deles como artistas, mas quando temos um verdadeiro evento desses – duas rappers veteranas, mas em plena forma se unindo – eu suspeito que a mixtape de Natal do Gucci Mane foi mais comentada. O que eu mais gosto são as beats mais estranhas (casando com o título) e o senso de imagem típica de mean girls se misturando com o mais assustador do horrorcore anos 2000.

Also: esse foi um ano incrível pras mulheres no rap em geral e ainda mais pra Gangsta Boo, que também teve essa ótima mixtape com o Beatking e foi a única coisa que prestava no disco do Run The Jewels.

13. Freddie Gibbs & Madlib – Piñata
O disco colaborativo mais injusto aqui: tudo é sobre o Madlib, o próprio Freddie Gibbs sabe disso. É sobre seus recortes e como o cara os maneja pra serem um porta-voz da inventividade aqui, basicamente.

12. Clap! Clap! – Tayi Bebba
De um jeito que, talvez, eu só veria os Owimy Sigoma Band fazer hoje, o produtor italiano Clap! Clap! estuda detalhes específicos da música africana, especialmente as field recordings e as transforma, literalmente (só experimente olhar um encarte desse disco), num mapa de imagens complexas e de espaços bem definidos. Como ele faz pra não parecer um mero turista em toda essa viagem? Cada uma dessas faixas é baseada em combinações mais próximas a ele (hip-hop, footwork, house, etc) que expandem e conectam toda a sua paleta.

11. K. Michelle – Anybody Wanna Buy a Heart?
Eu passei boa parte do ano num vício pelos 3 singles do Rebellious Soul (VSOP, Can’t Raise a Man e Pay My Bills) e, óbvio, totalmente arrependido de não ter colocado na minha lista do ano passado. Mas a onipresença da K. Michelle em 2014 – de uma mixtape de dia dos namorados chamada “Still No Fucks Given” para silenciosamente um dos atos feministas mais fortes do ano nesse remix de “Loyal” para um musical (!) do disco dirigida pelo Idris Elba (!) – não me tirou o fôlego até que ela liberasse esse disco, já em dezembro.

O disco que não poderia estar melhor descrito nessas situações: Kimberley sempre guarda um estilo de songwriting semelhante a da Mary J. Blige, a de ver música “como uma terapia”. Ela não se importa em te insultar tanto e logo em seguida pedir desculpas. Nem de querer descontruir a vulnerabilidade e sua própria força em cada situação. As vezes ela até vê força em ser vulnerável.

Ela começa melismando “JUDGE ME” em cima dum sampler de “Feelin Good”, passa por inúmeros momentos desafiadores para um disco de R&B (blues, baladas rococó, soundtracks de 007) e termina no que se assemelha a uma balada country dizendo “God, I get it – I’m a mess and I admit it“. É como se a Kimberley te colocasse num conceito livre, se não-conceito for o termo correto, de que este é apenas mais um ato confessional dela, tanto lírica como estilisticamente. e se sentindo grande em ambos.

10. Juçara Marçal – Encarnado
Na falta de uma descrição melhor, é fácil dizer que Juçara e os outros caras do Metá Metá criam esse disco num motor classicista (e ele ainda tem um cover do último do Tom Zé, quem mais tentaria isso hoje?). O que ninguém imaginaria ainda é que um disco que desafia os padrões de autorismo é desconcertante em pleno 2014. Juçara clama pela atenção, por um diálogo com todo tipo de público. No motor de qualquer cantora popular, mas pela interpretação que só ela teve aqui. Eu tedo a usar essa como a definição de diva daqui em diante.

9. Aphex Twin – Syro
Um dos acontecimentos mais bizarro e fascinante do ano. E não uso o termo bizarro aqui como uma característica redundante da música de Richard D. James, mas é que acompanhar o vazamento (ou o processo de, né? com direito a vazamentos fakes e anúncios via deep web) era tão sensacional. Assim como foi com Yeezus e Beyoncé ano passado, o disco já valeria só por estar em cada fórum observando – e fazendo parte – daquelas reação exageradas, comentários OTT e as toneladas de gifs que são o veículo pra emoções mais ricos da internet.

Em meio a tudo isso, ele fez como o Racionais (também vindos de um recesso de 12 anos): não nos deu um épico hiper-sofisticado, mas um trabalho que simplesmente não desmanche a coerência de sua estética. Pra funcionar com o universo fantasmagórico que ele criou lá nos anos 90 basta ele provar o porquê ele não está totalmente formado. E se basta.

8. Taylor Swift – 1989
Outro disco em que a acompanhar todas as reações instantâneas era um caso a parte, mas foi o que me rendeu também o melhor comentário sobre ele até hoje: “this album feels like taylor taking her thing and turning it into a manifesto”, do Alex Macpherson enquanto eu conversava já após uma primeira ouvida. O manifesto aqui vem de tantas faces e tantas formas que era inevitável que a Taylor não terminasse 2014 sendo a representante essencial de tudo que você possa ligar á música pop hoje, nas suas questões mais imperfeitas que o tornam tão interessante.

“1989” é um tipo de disco que evoca comparações fáceis com artistas metapop, como as HAIM (eu cheguei a falar certa vez que ele era o “Days Are Gone” de 2014), por ser um disco de tantas levadas melódicas e, principalmente, um disco que dentro de seu manifesto te diz: “EI, OLHA A IMPORTÂNCIA DE UM HOOK!!”. Mas se existe algo próximo de uma fórmula pra pop perfeito é, com certeza: não ser metapop. É garantir que cantar com ironia, com gás ou com certeza pode ter o mesmo efeito. É ser menos auto-consciente que compreensível com esses atos que AINDA são normalizados como ruins ou, na melhor da possibilidades, levados como *guilty pleasure*. E aí você pega uma música como “Style” e percebe que não faz diferença se a Taylor tá com os Pet Shop Boys, a trilha do Drive ou CHVRCHES em mente: quando ela revela seus personagens, como um James Dean daydream, um red lip, classic, um good girl faith e etc. ela te evoca imagens especificamente de um tempo, de um espaço, mas ao mesmo tempo ela tá lá pra contemplar, pra falar da beleza de algo tão efêmero — mas que dentro da música pop, ganha uma eternidade.

7. Luke James – Luke James
Um cara talentoso que aprecia, na mesma proporção, John Legend e Frank Ocean fez um dos discos mais simples de R&B que eu ouvi ser simultaneamente um dos mais desafiadores. Ele pega qualquer tendência mais genérica e a tritura, reanima e a torna específica: em “Exit Wounds” ele pode querer fazer sua própria “All of Me” ainda mais emocional, mas no fim do hook, tá lá gritando “Well, FUCK YOU”; em “Options” ou “I Want You” e ele empurra cada angústia romântica como uma distorção (ele repete tantas vezes as mesmas linhas e cada vez é como se elas ganhassem um novo significado). Tudo que ele não quer é ser mais um, e dedicar o seu disco de estréia a percorrer abismos de uma sonoridade pré-manejada da forma mais inteligente soa quase como um triunfo.

6. The Bug – Angels & Devils
Eu não tenho certeza se eu escutei algum disco de rock relevante em 2014; na verdade, eu não tenho certeza se eu sequer escutei um disco de rock em 2014. Mas a estética de Kevin Martin é o que me aproximaria das características daquele gênero que era bom lá na minha infância. Como um comentário do Rate Your Music bem sintetizou, “nenhum ser humano sai ileso a isso”: seja ele mais quietinho com a Grouper ou furioso lá com Warrior Queen, a sua ideia de grime & dubstep & hip-hop é de uma brutalidade incalculável. Nem Death Grips pode estragar isso.

5. Nicki Minaj – The Pinkprint
Passar 12 meses hypando seu próprio disco e chegar a ele com gás não é tarefa pra qualquer um, e mesmo que a Nicki tenha passado esse tempo ao lado das melhores companhias e falando as melhores coisas, ainda é difícil falar se ela está onde deveria estar. Claro, eu estava esperando esse momento pra dizer que The Pinkprint > The Blueprint, mas isso é irrelevante aqui: The Pinkprint é como o momento em que você passa a ver o trabalho de uma rapper para além de estar focado no seu imaginário, na sua persona e no seu próprio papel dentro do rap (o papel da Nicki é maior que o de qualquer um tho). Claro, ainda há aqueles momentos em que ela flexiona 4 FLOWS ao lado da Beyoncé e faz você ter certeza disso, mas é, em essência, como um 808s & Heartbreak dela — canalizando uma persona hiper-emotiva, ás vezes, mas que te faz cúmplice de seus momentos mais árduo e se importar com aquele seu tique ‘vulgar’ de carregar sua verve mais contestadora para as faixas mais goofy possíveis (“Anaconda” e “Trini Dem Girls” são as óbvias faixas políticas aqui).

O Pinkprint é repleto dos assuntos típicos da Nicki – feminilidade, sexo, sexualidade – e que ela domina tão bem tanto na face de um homem gay como numa Barbie, mas que, agora, se sente tão bem ganhando uma faceta confessional no lugar da absurdista. “Um disco do Drake com melhores piadas e mais razões para estar triste” é a minha definição preferida, porém.

4. Ambrose Akinmusire – The Imagined Savior Is Far Easier to Paint
Ambrose é o exato oposto dos outros dois artistas de jazz que aparecem aqui (Flylo, Taylor Mcferrin), mas eles se encontram num ponto: o de tentar tornar um estilo tão mal tratado pelas Casas de Pão de Queijo em algo orgânico e trabalhável o suficiente para 2014 (alguns já levam pra um conceito de vida pós-morte, mas né).

A música de Akinmusire é como num estado imersivo de comunicação. Ele dá de cara com a música pop brilhante em “Our Basement”, tem uma vocalista também brilhante (Becca Stevens), mas as modula com um solo improvisado de trompete. assim é o jazz pra ele: sem as manipulações nostálgicas, ele é exuberante sendo standart ou vocal, seus arranjos são purificadores como as melodias de seus vocalistas, etc. As memórias são seus contornos mais modernos e assim, eu tedo a ficar com a impressão de que escutei a música do futuro (ou de hoje, idk).

3. Negro Leo – Ilhas de Calor
Minha obsessão desde que descobri esse disco era de que eu não posso morrer sem conferir um show do Negro Leo (de uma forma que, tirando a Juçara, eu não devo ter com os outros listados aqui). Essa contestação performática, esse lirismo verborrágico por opção & necessidade é fruto, acredito eu, da forma tão íntima como a música de artista x age sobre você – não digo da relação de fã especificamente, mas elas se correlacionam e, sim!, isso é um crédito e uma qualidade do artista: fazer com que você se importe em ligar os pontos de um ato seu, do seu discos, das suas performances.

No caso do Negro Leo, ou Leonardo Campelo Gonçalves, a música dele em Ilhas de Calor soa nada mais que ‘pronta’; e dado que ele mexe com noise, free jazz, no wave, rock etc. se importar com a sonoridade do disco é um ato tão vago dada sua força pra narrativa. É um paralelo infernal com a complexidade urbana e suas questões que viram jogo da Branca de Neve vs Madrasta Malvada em época de eleição. Leo pega as discussões que você teve ontem no Facebook e as purifica, as dá uma capacidade lírica, menos cínica e mais caótica (onde, enfim, os sons que ele cria interessam). Um quebra-cabeças devastador, com música chamada “Xereca Satânica” etc. O disco tá de graça aqui.

2. YG – My Krazy Life
Eu vejo um monte dos meus amigos falar sobre Boyhood e dizer o quanto se identificam com o Mase (de longe deve ser a frase que eu mais ouvi nos últimos 3 ou 4 meses), o que talvez seja inevitável, em algum ponto, pra qualquer um que veja o filme, mas torna-se inexplicável pra mim dado os terríveis estereótipos tanto de pessoas como nas situações. Agora em dezembro, voltando a praticamente a todos os discos que estão nessa lista, com o My Krazy Life eu percebo que eu criei um laço com ele, talvez equivalente a uma identificação — o jeito que o YG detalha cada situação, sempre com umas piadinhas pesadas e uma auto-depreciação inofensiva; o jeito com que ele descreve, avança sua narrativa tão focada, passando por mudanças inesperadas se não radicais dentro do seu contexto de vivência. As mudanças não são exatamente como na minha experiência, de tantas mudanças repentinas de cidade, de colégio, de pessoas, etc; mas se sente da mesma forma, dado o impacto que cada indivíduo que passa por My Krazy Life tem, e da forma “bruta” de como eles se despedem do YG.

My Krazy Life não é meu disco do ano, só porque duas semanas antes de 2014 alguém veio e fudeu com os 11 meses e meio anteriores, mas eu não tenho dúvida que é o disco que vai comigo pra todo canto. E continuará a ir, dada a importância de sua narrativa ou dada a ubiquitade do YG como um dos rappers do momento ou dado a ubiquidade do Mustard como O CARA de 2014. Por último, é o disco hermético de 46 minutos que documenta uma relação beatmaker/rapper à Neptunes e Clipse num “Lord Willin'” para descrever um som de uma época, de uma geração.

1. D’Angelo & The Vanguard – Black Messiah
Esse ano tive o prazer de ter o aguardado e excelente retorno de 3 artistas que foram fundamentais pra minha formação musical. E nesse caso: D’angelo já era importante quando era muleque e assistia o clipe de “Untitled” na MTV. Eu, claro, estou com o Black Messiah há pouco mais 2 semanas, mas naquela madrugada em que eu esperei até umas 3h da manhã até liberarem no Spotify e praticamente chorei ouvindo “Really Love” já tinha certeza do que eu tava ouvindo. E, talvez, pra tanta gente 2 semanas já tenha sido o suficiente pra criar um consenso, estabelecer um disco aclamdo e etc. Eu não me sinto assim depois de um trabalho aguardado há quase 14 anos, e nem o Black Messiah me deixa pensar assim: a cada vez que eu volto a ele é mais uma geometria do songwriting do cara sendo reinventado, são mais harmonias ganhando mais e mais contornos. Eu acho que já teria amado imensamente tudo isso só por alguém ter dropado um disco chamado Black Messiah alguns dias depois do Ridley Scott lançar aquele filme horroroso (nem vi) sobre Moisés, sabe.

13 comentários em “2014: melhores discos (2)”

  1. tô enrolando há um tempo pra ouvir o racionais..agora vou correr! haha
    e valeu por lembrar do sage :))) mesmo com o barulho de gas pedal, parece que ele desapareceu pra maioria esse ano lol

        1. aaah sim, provavelmente sim hahah. mas é coisa mais de recepção e tals, quanto uns são ‘cool’ e outros com alguem reagindo a cê gostar, saca? acho q gostar mais do proper r&b (como eu odeio esses termos, jah) vai por outro caminho…

  2. nicki <3333 tão feliz por esse ano dela. desde o freestyle de boss ass bitch já tava pronta pra dominar! e tu falando lá de "low" lembrando que cada verso ali daria num quote, é exatamente minha sensação com cada up do pinkprint

      1. yass meu fav

        This shit ain’t got no more integrity
        Don’t write they raps, and plus they flow shitty
        Don’t make me expose you bitch, I’m too busy

        1. eu adoro como essa é qse uma diss track perfeita pra iggy azalea (se eu acreditasse q parte do q a nicki diz por ae e automaticamente redirecionam pra ela é pra de fato) no imaginario

          e tb, por como ela vem com um puta discurso informal e tal, mas usa uma palavra como “integrity” !!!

^-^

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