2014: melhores discos (1)

As menções honrosas, na mesma linha do ano passado (EPs, mixtapes, comps, etc):
Boosie Badazz, Life After Deathrow
Cadu Tenório, Cassettes / 1987/1990 / Vozes
Chronixx, Dread & Terrible
De Leve, Estalactite
DJ Neptizzle, DJ Neptizzle Presents: Ultimate Afrobeats 2014
Gabriel Garzón-Motano, Bishouné: Alma del Huila
Gucci Mane, The Oddfather
JUNGLEPUSSY, Satisfaction Guaranteed
Kevin Gates, By Any Means / Luca Brasi 2: A Gangsta Grillz
Liz, Just Like You
Mac Miller, Faces
Pearls Negras, Nossa Gang / Biggie Apple
Shackleton, Freezing Opening Thawing
Vince Staples, Hell Can Wait
ZUSE, Bullet

Não sei se é por tanto na blogosfera num geral como nos nichos com que eu estou mais familiarizado o consenso é de que foi um ano decepcionante, mas fato é que acredito que 2014 foi o ano em que eu mais ouvi discos. E, digo, talvez tenha sido o primeiro ano em que eu me preocupei em ser econômico; tudo que eu ouvia, me interessava genuinamente (e, tipo, escutei um disco da Lily Allen – que é provável ser o pior de todos os tempos), sem necessidade alguma de ouvir qualquer War on Drugs ou Future Islands da vida. Essas duas afirmações e fazer essa lista me distanciam daquela ideia que eu tanto curtia gostar, a de falar/ouvir/gostar de tudo um pouco (mas, apesar dos pesares, ainda ouvi dois bons discos de country) e é o que me levam a crer que o meu gosto é a cada dia mais específico (e isso é… bom?). E ter um gosto mais específico™, pelo menos nesse momento, me faz compreender melhor aquilo que aprecio/me interesso por.

Passado isso, um ano pruma lista estranha também; são 50 e eu nem sei como pude deixar o Rominho Fróes, Charli e Owen Pallet de fora. E o melhor disco da Tori Amos desde os anos 90? É difícil e, ao mesmo tempo, o que mais teve ao longo do ano foram discos que me impressionavam muito de início e depois foram esfriando — o último DJ Quik, que nem saiu há muito tempo, só cai; não que ele seja ruim, mas a cada vez que eu volto ao Book of David só vejo o quanto afeta o fato do disco ser tão aquém do que ele pode. Also: a decepção do ano foi o The Roots e seu disco incrivelmente tolo e inofensivo. Nem posso dizer que os caras já não tavam ensaiando um momento desses há anos, mas essa era Jimmy Fallon só veio pra provar o quão anticlimáticos eles tão.

Mas, então, vamos ao que interessa.

50. Slackk – Palm Tree Fire
Quando falava sobre Meridian e Skepta e lembrava o quanto essa nova galera da Hyperdub, Logos, etc. tentando um grime art-school era chato, Slackk é quase uma subversão dentro deles: o cara encara um grime típico com pinceladas nas descontruções. O tom jazzista aqui, só tem a acrescentar; com direito a grandes harmonias, linhas melódicas e tudo.

49. FKA twigs – LP1
Eu tava meio que ambivalente sobre este disco quando ele saiu, principalmente por ser um direcionamento pra carreira da twigs que eu não esperava, dado o primeiro single. Mas hoje ele me soa melhor, como um tratado feminino sobre sexo e desejo da forma de um Portishead nos anos 90 via um vício incondicional (muito bem-vindo) pelas melodias que uma Ciara faria.

48. Neneh Cherry – Blank Project
A one hit wonder de “Buffalo Stance” faz um disco discreto mas grande, sobre a própria mitologia. E é, principalmente, interessante como ele joga com o que é auteurism dentro da música pop hoje: uma narrativa vertiginosa que é precisamente pontuada por seu produtor (Four Tet), mas com ele existindo ainda para complementar suas ideias, não tomá-las pra si.

47. Tom Zé – Vira Lata na Via Láctea
A vitrine completa do Tom Zé pós-Coca-Cola não poderia ser visceral enquanto ele está com Caetano ou Milton; e mesmo entre um momento menos muscular e outro, o cara sabe, como ninguém, a hora certa da importância de utilizar sua persona como uma experiência extra-musical dessas.

46. Jesse Boykins III – Love Apparatus
Nome alternativo: “Why I Love Machinedrum”. E Jesse Boykins fazendo um rework do último disco da Beyoncé pelas suas batidas tripped-out soul, então…

45. Mr Twin Sister – Mr Twin Sister
Demorei um bocado pra me interessar por esse disco e nas últimas semanas tem sido um companheiro valioso. Imagine a captura de uma estética queer como o Dev Hynes fez ano passado mais o revival balearic. Ah, e imagine o “smoke weed and listen to Sade” num espaço não tão distante do Last Train to Paris.

44. Scott Walker + Sunn O))) – Soused
Dentre todos os discos colaborativos dessa lista, esse é o mais curioso — Scott Walker se juntando com uma banda de drone metal, precisa de mais? — e o único que se propõe a ser mais do que um exercício de nicho. Ele é um exercício diferente, na verdade, para os dois artistas em questão: como uma síntese de quando Scott explicou a virada na sua carreira como uma consequência de seus bad dreams.

43. Calvin Harris – Motion
Fazer um blockbuster EDM contando com todo mundo de todo lugar (de HAIM pra HURTS, de Tinashe pra Gwen Stefani) e manipulá-los como uma unidade de hooks easy listening e só (rock arena sentindo inveja) é a tarefa ideal pra Calvin Harris de 2011 e, amém, todos esses bangers estão em todo lugar nesse e no ano que vem.

42. Fennesz – Bécs
Christian Fennesz apenas parece ainda mais refinado, evocativo na construção ambient de seus discos. Ainda houve o experimento ‘Mahler Remixed’ esse ano, mas em Bécs ele adota a sonoridade épica e angustiante dentro de uma espécie de retalhação do noise, sempre da maneira mais invisível que eu tanto gosto.

41. Azealia Banks – Broke With Expensive Taste
O disco que me fez dar atenção pra Azealia Banks pela primeira vez na vida porque: é um grande e complexo disco de rap sobre nada & o quanto tudo isso é legal, precisamente.

40. Hit-boy Presents HS87 – We the Plug
Você conhece o Hit-boy por alguns dos grandes singles de R&B e rap desta década, mas com certeza não deve saber que ele é rapper (dos bons) e que tem uma gravadora onde ele convoca ocasionalmente seu time muito talentoso pra gravar uma mixtape aqui, uma comp ali. Esse time, ao contrário daqueles veículos esquisitos que a Young Money e G.O.O.D. Music fazem, sabe exatamente como é a sintonia rapper/crooner/produtor (also: um desses caras, o Kevin Roosevelt lançou esse EP incrível, que é um complemento a estética do disco e você precisa ouvir agora mesmo) e, sim, da maneira mais redonda possível, faz um dos discos de rap mais funcionais e equilibrados do ano.

39. Lee “Scratch” Perry – Back on the Controls
Qual a lembrança de grandes discos que você tem de artistas pioneiros no alto dos 80? Para Lee Perry, uma reuniãozinha com o produtor Daniel Boyle para que esqueça seu fetiche pelo dub old-school e ele tem o seu material mais interessantes em uns… 30 anos?

38. T.I. – Paperwork
O ano prometia tanto para os southern kings: a volta do Outkast, a esperança do Clipse via Pharrell e os discos do Weezy, Tip, Jeezy e Juicy no segundo semestre. É um tanto frustrante que só Jeezy e T.I. se concretizaram com discos, mas os dois vieram com o melhor trabalho que poderiam fazer para o momento. T.I. ganha ainda mais por ter feito ao mesmo tempo um disco que é a) o melhor material do Jay-Z em cerca de um década, b) a melhor trilha sonora – sóbria e econômica – sobre o caso de Ferguson, junto com o EP do Vince Staples e c) ainda assim ter as faixas que são o óbvio padrão T.I. de rap como standouts.

37. Liars – Mess
Encontrar o lado mais obscuro, frio da dance music é um clichê, clichê que soa para o Liars como a melhor alternativa de reinvenção ao mesmo tempo é a musica que eles estavam se preparando pra fazer após o WIXIW. A esta maneira, a sonoridade é ainda mais revigorante quando eles adotam um tom burlesco, irônico; é um disco de passagem, no fundo, que reconstroi o fôlego dos Liars.

36. Timothy Bloom – Timothy Bloom
Eu não digo que tenho fraco pra tradicionalistas soulful, mas há sempre aqueles que tem algo mais interessante que dar a sua melhor impressão do Stevie Wonder; esse cara, originalmente um protegido do Timbaland (!) mescla southern soul em toques psicodélicos que, creio eu, D’angelo fez ainda melhor agora no fim do ano, mas é surpreendentemente eficiente num debut desses, muito pintado como quadrado por aí. E agora no fim do ano ele relançou o disco com 1-2 singles clubby, que me deixa ainda mais seguro sobre como Timothy está distante da camisa-de-força que os mais tradicionalistas tanto adoram.

35. Fatima – Yellow Memories
Do mesmo lado (em partes) de Timothy há a sueca Fatima: a priori, um típico disco de neo-soul. Até que você perceba uma voz soulful tão sutil como a dela flutuando entre produções de ninguém menos que Floating Points, Theo Parrish e Oh No.

34. Leon Vynehall – Music for the Uninvited
Baseado nos discos de house que eu mais gostei esse ano, eu diria que a tendência atual é uma desconstrução de gênero. E Leon Vynehall representa tão bem essa teoria porque cada uma dessas 7 faixas é um novo caminho e/ou complemento a potência delicada do gênero. Tente escutar “House of Dupree” e não se apegar menos pela relação emocional que pelos detalhes em si da faixa.

33. Taylor McFerrin – Early Riser
Um filho natural do Flylo e Thundercat (ele é da gravadora dos caras) via John Legend e Robert Glasper fez uma das paisagens sonoras do ano: sem abandonar a organicidade do nu jazz, ele não recusa em utilizar seus vocalistas para misturar o tom melódico junto o que há de mais claustrofóbico no disco. Mas, ei, esse não é um lugar de onde você quer sair; é um lugar onde seu apelo ‘simpático’ pode ganhar uma conotação absurda.

32. Nick Jonas – Nick Jonas
É engraçado: tive que esperar um aval do Maxwell para que meus amigos não falassem com desdém sobre eu ficar tão empolgado com o disco solo de um Jonas Brothers. Esse é mais ou menos o disco híbrido pop/r&b que a Ariana Grande tentou fazer no My Everything e sofreu tanto no achatamento de personalidade. É fácil dispensar o Nick como um sintoma da relevância do Miguel/JT no universo pop, mas esse disco se levanta tão bem só; como ele explora essa tradição de gênero com o POV mais futurista possível e, simultaneamente, é um disco pop excelente e correto, com um duelo de hooks e grooves como num processo estilístico á Jam/Lewis ou Timbaland dos anos 90.

31. Theo Parrish – American Intelligence
Parrish clama para que seu som não seja caracterizado como ‘cru’, mas ouvindo o American Intelligence (provável ser o release mais tardio dessa lista), é difícil não se sentir atraído pela atmosfera caseira que essa sonoridade trás: é um house de camadas, um som que se reinventa em pausas, dentro de uma mesma estética. É, talvez, a síntese da dance music: sons que se remodelam, se reconstroem até que virem não mais que grandes ecos. Talvez uma estratégia para que o mestre de Detroit esteja certo e errado sobre como você interage com sua música.

30. Start – Fruto do Jogo
Um equivalente em 2014 para o Batuk Freak: um disco que se sente tão a frente da narrativa ditada pela rap nacional que, por vezes, é complicado encaixá-lo no mesmo contexto. Em parte porque ele vê no funk uma identidade de música urbana mais sólida (os samplers de hits clássicos como “E Se Mexer Com Nóis” e a própria presença de alguns mcs) e também por se unir ao melhor dos clichês do rap americano atual (uns 2-3 cortes R&B-ish lá pelo meio do disco). E é ainda mais interessante o que esses caras fazem aqui, por ainda assim ter uma “Chapa Chapa” como o hit atual; uma música que vai além de te lembrar que esta é a banda do filho do Marcelo D2 e se torna um manifesto visceral pra um assunto tão manjado esse ano.

29. MC Bin Laden – MC Bin Laden
“Eu já sou meio doidão, faço rima de cabeça. Eu fico matutando. O povo acha que eu sou louco e eu só estou aqui pensando. Aí eu chego do nada e falo: “Aí, rapaziada, se liga nessa música”. Tatatatá, vou cantando. E os caras falam: “De onde veio isso?”. Jesus me deu o dom.”

28. Lone – Reality Testing
Com todo o respeito aos dois épicos que o Matt fez no disco da Azealia Banks, mas sua aproximação j-dilliana com o hip-hop aqui é sua ideia mais suntuosa em termos de inspirar imagens vivas dentro do house. Um disco pequeno, dado às suas ambições, mas convidativo e apaixonado a contaminar cada paleta a uma percepção de um dos mestres do house de hoje.

27. DJ Mustard – 10 Summers
Um esforço “solo” pode passar despercebido, dado a odisséia que Mustard fez com YG, mas este é um disco tão relevante quanto; afinal, ele atesta que o cara sabe explorar muito melhor a própria mitologia que a maioria dos produtores charbait, como Timbaland e Pharrell — que sempre falham na hora de fazer seus próprios discos. E eu sempre recomendo este ensaio da Tiny Mixtapes sobre o 10 Summers, uma das melhores formas de se entender música em 2014.

26. DJ Q – Ineffable
Um dos sujeitos mais carismáticos e criativos do British bassline, lançou o seu tardio disco de estréia como um evento que nunca se sente completo: Ineffable captura um espírito da dance music sem muito esforço, expandindo seu território desde o 2-step a uma deep house atual, mas como num bom inconsequente exercício desse nicho, a pontualidade rítmica dificilmente age em favor do caráter cultural que ele poderia ter. Culpemos os britânicos que elegem Ed Sheeran o principal urban act de 2014, então, porque num mundo justo esse é equivalente do 10 Summers pra cena inglesa.

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