dissolução, compreensão, expansão (3)

 

MC Bin Laden, “Bololo Haha”

Estamos só no início de dezembro, mas já parece um pouco esquisito ainda estar falando sobre música, ouvindo e comentando ainda discos desse ano, etc. deixar as listas pra segunda quinzena do mês ou mesmo pro próximo ano vem sendo um ritual aqui nesse blog cada vez mais difícil de manter, mas em meio a tantas listas AOTY, resolvi retomar aqueles posts de meses atrás sobre os discos de funk antes delas por um motivo simples: nas últimas semanas, saíram discos do MC Pedrinho (sim, de “Dom Dom Dom“, o provável maior hit funk do ano), do MC Livinho (de “Pepeca do Mal“) e, principalmente do MC Bin Laden, o provável mc mais inventivo desse ano.

Destaco o Bin Laden aqui porque o disco do Pedrinho, apesar de bom é viciado demais nele ser um garoto de 12 anos fazendo aqueles versos e o MC Livinho já é, em si, o menos interessante aqui (“pepeca do mal” vai, mas ele menos divertido que assustador, e nessa vibe pastel de sex beastscoisas bem melhores por aí). O bin laden é o mc esse ano com que eu mais tive contato, que foi além dos meros hits e procurava uma carreira sólida. desde que eu vi esse clipe de “Passinho do Faraó” e havia elementos tanto na música como no clipe que te deixavam vidrados ( a over-produção low-key, o loop da voz de bin laden, os muleques do clipe tudo transtornados, os absurdismos, etc) já percebia sua visão bem diferente da maioria dos mcs. O que só se confirmou quando veio essa entrevista – muito boa, por sinal – onde, entre outras coisas, o que mais me chama atenção é ele dar nome pros shows de Baile do Afeganistão (!) e os dançarinos de iraquianos (!).

Um disco lançado há menos de um mês é meio que um triunfo em relação a todo o trabalho que ele e o pessoal da KL fizeram durante o ano, mesmo que não seja tão forte quanto a sua persona prometia. Há pouca coisa realmente ruim aqui (“Mais que Vergonha”, talvez, por além de datada ser caricatural pro seu estilo — rimar ‘vergonha’ e ‘maconha’ não deu) e num geral ele está sempre se destacando pela produção letárgica hiper-diferenciada do funk que se faz hoje; a mais próxima de algo tradicional aqui é “O Fuzil do Bin Laden É Banhado a Ouro” que, na verdade, é um revival do funk da primeira metade dos anos 2000. Esse dinamismo do beatmaker Mano DJ (que aliás também faz um ótimo trabalho pros outros mcs da produtora) faz a maioria das músicas sobre drogas aqui soarem como um equivalente musical de Pineapple Express (mesmo que a melhor nessa estética não tenha entrado).

***
Semana passada a FACT publicou este artigo sobre a quantidade de discos de dance music bons lançado este ano, numa postura parecida com a minha aqui quando comecei a escrever sobre isso. O que eu noto é que, claro, há diferenças gritantes do funk pra techno/house, mas principalmente há um grande desinteresse por artistas em específico (afinal, quantas pessoas se interessam por esses discos que eu tou falando aqui?); digo, nos últimos anos o interesse sobre o gênero e escrever sobre ele cresceu, mas é algo tão generalizado que ainda não sobra momentos para uma relação com os mcs. Contextualizando: um gênero relativamente novo como o footwork já tem seu espaço cativo dentro da blogosfera (que só cresce) e já criou o seu próprio exército de estrelas (Traxman, Manny, Spinn, Rashad, Nate, etc). alguns alegariam que são os mcs que dificilmente se estabelecem, o que não seria de um todo errado, mas o principal motivo continuaria sendo a falta de investigação no gênero, nas diferentes estéticas ou mudanças ao longo do tempo.

Falo tudo isso porque o Bin Laden é quem eu vejo hoje com alguma chance de reverter essa situação, pelo seu senso de imagem e esforço de artesão em criatividade. Ele é tipo o cara que muitos olhariam e poderiam ficar falando por horas sobre o próprio processo em vez de, sabe, uma sucessão de comentários que poderiam ser atribuídos a outros mcs. Se alguém se interessar por isso e ele for além de um fenômeno viral interno, poderia, quem sabe?, fazer pelo funk o que o Silva e a Gaby Amarantos fizeram pelo pop há alguns anos.

^-^

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