dissolução, compreensão, expansão (2)

Ludmilla, “Poder da Preta”

Ludmilla, esse ano, teve um caminho parecido com o Nego: primeiro lançou um EP de “apresentação” que só mostrava o que ela tinha de mais desinteressante como novidade a medida em que lançava versões ruins de seus antigos hits, quando ainda era conhecida como mc beyoncé. Na verdade, estava óbvio que nada ali poderia ser empolgante: o combinado dela como artista de gravadora parecia seguir exatamente os mesmos passos da Anitta. Vieram alguns hits que já não tinham a mesma força de antes (mas acredite: tanto “sem querer” como “hoje” funcionam bem no contexto do disco!), e pronto, a mc lá de “Fala Mal de Mim” já não tinha mais a mesma especificidade de antes.

Algo aconteceu quando ela lançou seu disco de estreia, chamado de “Hoje”; o disco borrava por completo as linhas entre o que você espera pra uma ex-mc. Acima de tudo, ela surgia com a personalidade totalmente formada como cantora pop (e tem uma compreensão bem mais ampla disto que, digamos, as suas concorrentes) ao passo em que ainda se apropria do seu antigo status quando bem entende.

Há um monte de movimentos e mudanças interessantes aqui no disco, e eu vou até sacrificar aqui muita coisa que havia pra falar sobre a minha faixa preferida e (talvez) o único real revival do funk melody na era de ouro do Claudinho & Buchecha em “Tudo Vale a Pena”. Eu acho que é um ponto importante explorar todas as influências dela aqui, vez que os dois convidados são dois grandes ídolos; mas o que molda o disco mesmo é uma solução óbvia entre o seu padrão de funk antigo e as habilidades dela como uma cantora pop. À época do lançamento, li uma entrevista onde a Ludmilla dizia que a vontade dela sempre foi ser cantora, algo que a estrutura do funk não beneficiava (acho que em “Fala Mal de Mim” é perceptível as tentativas de malear a voz). Agora aqui no disco, com ela tendo basicamente faixas melódicas, a mudança de postura já ganha o primeiro ponto. Mas o mais interessante é como ela entra nessa postura que permeia o pop brasileiro (a fofice, a ironia) mas jamais está em busca do tão falado likeability. É a antítese da Anitta, talvez.

Esses dias conversando sobre algumas faixas do disco, principalmente “Poder da Preta” e “Morrer de Viver” e alguém lembrou que tudo se assemelhava a algumas cantoras de r&b (de novo: as influências são importantes). Eu fui além e, primeiramente como uma brincadeira, falei que era uma espécie de r&b thug tupiniquim. Mas essa é uma leitura mais que relevante aqui. Ou vale lembrar que o r&b thug criado lá no anos 90 pelo R. Kelly basicamente pra cantores de r&b que tinham atitude e/ou imagem de rappers, hoje é melhor utilizado por mulheres. No disco de Ludmilla, eu vejo a Ciara de I’m Out, a Beyoncé de Flawless, Drunk In Love e Diva, a Rihanna de Pour It Up, etc. Claro, ela dilui e converte tudo que há de mais vigoroso e honesto para essas faixas para um ‘flerte’ com o funk.

Aqui não demora até que você perceba que está diante da Ludmilla, uma cantora, que simplesmente tem empatia pela agressividade e a liberdade sexual do funk. Se no início ela é sacana, irônica, se auto-afirma (Sem querer / roubei seu coração / Desculpa, meu amor / eu não tive a intenção), faz algumas músicas sobre as inimigas e depois pode radicalizar essas ideias (é uma faixa chamada “Te Ensinei Certin”, precisa dizer mais?), no final do disco ela pode ir mais além ainda em duas músicas com os dois pés na misandria (entre as quais, “Poder da Preta” é uma das melhores). Mas também, um pouco antes, há um corte inquietante em “Morrer de Viver”. Ela muda o objetivo, muda a força motriz, mas nunca perde a postura. “Relaxa na maldade, faz o que tiver que fazer comigo” – não são palavras pra qualquer uma cantar, mas pra Ludmilla, sempre despida e disposta a ser objetiva na conexão com o ouvinte, isso é nada além dum exercício de autenticidade.

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