Bem-vindo a Nova York (Abel Ferrara)

Existe uma realidade formatada nos últimos filmes de Ferrara (acredito que a partir de Mary) que permitiu uma amplificação de seu próprio excesso. Não é algo novo para ele, aliás, talvez seja uma das melhores descrições pra toda a sua carreira; mas houve um momento em que sua estética se fundamentou nesse processo. Alguns momentos que dão a especifidades deles como os shows de strip em Go Go Tales ou Willem Dafoe no alto do seu prédio em 4:44 e agora, aqui em Bem-vindo a Nova York há vários momentos, mas creio que o ‘quase um filme a parte’ que são as cenas de sexo já expõe toda a realidade que Deveraux poderia representar. Ali está Depardieu, que é tanto a figura cartunesca decadente como uma caricatura do poder; assumindo todo um imaginário que o ser humano já guarda das Grandes Figuras. E, como em todo filme de Ferrara, é um protagonista tão apático que sempre ajuda a justificar o que há de mais frágil na sua carreira dados os seus contemporâneos.

E repito: isso é só uma parte! A parte que fundamenta, mas não mais relevante que quando Ferrara entra no universo da decadência de Deveraux (a prisão), uma parte que investiga tanto a vulnerabilidade do poder (quando expõe o corpo de Depardieu) quanto dá um 360 graus sobre tudo o que o universo daquela figura rejeita (e a forma como os homens negros são vistos é importante nessa percepção). Alguém já me falou que Bem Vindo a Nova York formaria um bela oposição a O Lobo de Wall Street; o que não é mentira, já que enquanto a caricatura e o excesso ocupam quase 3 horas para Scorsese a ponto de alguns mal interpretarem suas próprias intenções, em Ferrara não existe espaço para barrigas, o fluxo narrativo é milimetricamente construído e claro, nunca há dúvidas sobre o que a figura de Deveraux representa, a despeito de Ferrara ser literalmente bem menos higiênico que Scorsese.

Um comentário em “Bem-vindo a Nova York (Abel Ferrara)”

  1. acabei de ver o filme e não poderia concordar + com oq tu disse. é quase como se toda a construção do personagem já fosse pré-concebida que não há espaço (e eu vejo isso mto mais como uma forma dele não cair no clichê de sensacionalizar a situação) pra que toda a densidade das imagens se completem naquele momento singular que é a cena final do filme. obra prima!

^-^

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