Notas rápidas (III): A final dividend, divided we fall

Sim, esse post meio que continua mais formalmente o anterior. E o legal que eu notei agora é que quase todos os discos citados aqui são de muito bons pra cima e a excessão, o do Pharrell, foi o único realmente ruim que eu ouvi até agora. Espero que o ano continue assim.

Blank Project (Neneh Cherry, Smalltown Supersound) B+
Numa das melhores faixas desse disco, “Cynical”, Neneh Cherry alcança seu momento mais emotivo; um vocal soulful intenso e uma aproximação do rap que é a resposta ao mito que ela é (a one hit wonder de “Buffalo Stance” e que nunca é esquecido aqui). Eu diria que é uma premissa de disco eficaz e, principalmente, um bocado utilitarista. E bem, aí entra Four Tet: a narrativa de Cherry é propositalmente vertiginosa, superficial, porque Hebden existe aqui para pontuar cada uma destas superfícies com uma urgência, precisão ou atmosfera que é o músculo ideal para cada momento sobre perda – nem sempre concreta – no lirismo de Cherry. No fundo, é um disco sobre a exploração da mitologia da artista; tanto por querer cumprir o imaginário dos quase 20 anos sem um disco solo, quanto por, simplesmente, ser produzido pelo Four Tet.

Encarnado (Juçara Marçal, independente) A
É fascinante ver que a maior parte dos músicos que fazem parte desse disco o encaram de uma forma geral como um exercício de estilo (quem ouviu o MetaL MetaL, sabe do que eu falo), mas nas estruturas melódicas que beiram a anarquia e o que Juçara pode fazer com a voz entre elas revelam a visão sólida de artista. O fato do disco ser composto de algumas versões reforçam o quanto ela pode ser o único elemento a te persuadir aqui. Seja pela melhor do disco (a classicista Ciranda de Aborto) ou na mais desengonçada (E o Quico?), Juçara clama pela atenção, por um diálogo com todo tipo de público. No motor de qualquer cantora popular, mas pela interpretação que só ela teve aqui.

G I R L (Pharrell Williams, Columbia) C-
Eu gosto do hit atual do Pharrell, “Happy”. Não gosto desse otimismo meio frouxo, mas Pharrell com crédito suficiente tem alguns dos bons ingredientes que fizeram outros grandes hits-throwbacks dos últimos anos (de Single Ladies a Fuck You, de Hey Ya a Blurred Lines) atemporais. Mas o disco, o G I R L não consegue ultrapassar a barreira do mero fetiche em momento algum. Li a pouco que este é o disco pop “perfeito para esse momento”. Não dá pra discordar, nem pra dizer que isso tenha lá algo de bom. Digo: estamos num espírito de pós-renovação das rádios, as pastiches de Blurred Lines e Get Lucky (que já são pastiches!!!) naturalmente começam a surgir. Desde as guitarrinhas à Chic ao feeling de improviso e a persona de bobão do Robin Thicke existem aqui, mais como elementos aleatórios ou cacoetes sem imaginação. Eu só esperava ver gente como o Bruno Mars ou o Maroon 5 fazendo isso, mas enfim…

Love, Marriage & Divorce (Toni Braxton & Babyface, Motown) B+
Babyface sempre fez quiet storm como ninguém, mas no seu improvável e excelente retorno ano passado no disco de estréia de Ariana Grande, ele deixa claro que ainda há muito a se acrescentar por aqui: recusando todo o tipo de pastiche tradicionalista (oi Pharrell), ele reanima parte do auge do seu material nos anos 90, mas acena com vigor a atualidade entre um doo-woop das harmonias vocais, mixando – o hoje – adulto contemporâneo R&B e as boas discretas batidas de trap, até possuir uma preferência por samplers distantes da tradição da sua sonoridade. Pode até parecer que eu falo de um disco do Avalanches ou Girl Talk, mas é só mais um ponto inusitado sobre o cara que ainda está aprimorando a sua estética (eu falaria refinando também, mas o próprio tempo se encarregou de destacar isso). E claro, junto a uma de suas grandes musas, inclinando assuntos bem típicos de relação homem/mulher mas complementando as habilidades um do outro.

Oxymoron (ScHoolboy Q, Top Dwag) B
O último disco do Q não me pegou totalmente, mas neste seu primeiro por uma grande gravadora, bem, tudo me parece no lugar: a estética letárgica (óbvio, que rouba um pouco do disco do Kendrick) é mais consistente em parte porque ele está mais interessado em sutileza do que em choque propriamente dito e também ajuda notar toda a homogeneidade (sim, ele não é muito bom de surpresas – e seus picos, como “Man of The Year”, geralmente vem quando segue o fluxo de sua persona). Veja “Los Awesome” como exemplo, o banger-cortesia óbvio de Pharrell Williams; ele consegue converter toda a overprodução num truque entre seus versos, que causam uma sensação de pavor e êxtase ao mesmo tempo, e o refrão grudento grosseiramente banal do Jay Rock.

Present Tense (Wild Beasts, Domino) B
O Wild Beasts, bem como qualquer banda que se apegue as narrativas do indie rock, segue religiosamente a cartilha de evolução disco-a-disco. E eu falo ciente de que Present Tense é um tanto menor que o Smother, digo: onde Tom Fleming mais se dedica a tal evolução é na arquitetura de cada momento, em como irá estruturar suas letras (e que letras!). Sua profusão de temas não gera ambiguidades, mas prontas resoluções. A irregularidade era inevitável, tamanha a pretensão de estar e não estar num nicho: todo o perfeccionismo de uma Sweet Spot (ou todas as 4 primeiras faixas) se transforma facilmente em caricatura nas últimas faixas. O que Fleming quer, no entanto, é te trazer a sensação de que esse é  o único disco que o Wild Beasts poderia lançar em 2014. Ele tem minha atenção.

2 comentários em “Notas rápidas (III): A final dividend, divided we fall”

  1. Perfeito sobre o “Encarnado”, é um album que eu tenho ouvido muito ultimamente e aliás só fui descobri pouco tempo atrás que todo esse pessoal do Metá Metá e Passo Torto se relacionavam! E que todos tem carreiras solos interessantíssimas! Tu já ouviu algo deles?

    E oh, eu concordo contigo em alguns pontos sobre o album do Pharrell, mas não creio que isso torne-o tão ruim. Pelo menos metade dele funciona comigo, ficou tipo um Random Access Memories mais básico.

    1. sim, natário. tou de olho já no romulo fróes, que tb vai lançar CD esse ano. mas nunca ouvi nada solo não, só ouço falar muita coisa boa sobre tb.

      * não conseguiria tirar uma comparação com o RAM além do obvio, e mesmo que fosse não dá pra encarar como um elogio. tanto lose youserlf.. quanto get lucky, ao meu ver, sofrem do mesmo “mal” do g i r l. a premissa básica é igual a do ultimo disco do mayer hawthorne e do robin thicke (os dois, por ironia, tb são capitaneados por ele), o problema é comparar a habilidade de craftsman do pharrell a esses dois né, ele é quase nulo.

^-^

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