Melhores filmes de 2013

*Constatei esses dias, organizando a lista, que esse foi fácil o ano em que eu estive menos amarrado ao circuito. Alguns grandes filmes como Act of Killing, The World’s End, o Brisseau e os Johnnie Tos recentes, etc. até cheguei a selecionar aqui antes de checar no calendário do Filme B ou do Cineclick e perceber que eles não chegaram no Brasil ainda. (Espero que ano que vem dê pra lembrar deles.) Para a minha surpresa (ou não), mesmo assim consegui montar a lista dos 40 de boa.

E eu pretendia fazer esse top como fiz o de discos, dividido em duas partes, mas pelos comentários relativamente mais curtos e também pelo tempo (já caminhando pra metade do mês e eu aqui ainda falando em listas de melhores do ano, quando esse é em geral o período em que o blog é mais ativo) vão todos os 40 filmes e as menções honrosas de uma vez. Como a regra de todo ano, considero os filmes lançados no Brasil em 2013; entre lançamentos em circuito, direto em home video ou até TV. Não é o método mais tradicional de se fazer listas, mas é a forma que eu encontro de lembrar alguns filmes que sempre são jogados pra escanteio e por, como qualquer um deve saber, o nosso circuito não ser lá grandes coisas. Este ano, aliás tiveram alguns casos bastante representativos e que depõe a favor da forma como eu organizo as listas aqui: um filme-evento como Spring Breakers chegou direto nas locadoras, a comédia (pensando no gênero intricadamente) mais respeitável do ano era um stand-up pra HBO do Louis C.K. e diretores do porte de Steven Soderbergh e Greg Mottola estavam fazendo filmes pra TV. Bom, não sei como exatamente eu devo encarar esses fatos, mas todos estão bem lembrados aqui. Vamos lá.

Menções honrosas:
Adeus Minha Rainha (Benoît Jacquot), Alvo Duplo (Walter Hill), Cloud Atlas (Tom Tykwer e Lana e Andy Wachowski), Corrida Mortal 3 (Roel Reiné), Deixe a Luz Acesa (Ira Sachs), Depois de Maio (Olivier Assayas), Doméstica (Gabriel Mascaro), Kill List (Ben Weathley), Oz Mágico e Poderoso (Sam Raimi), Obsessão (Lee Daniels), Parker (Taylor Hackford), Trance (Danny Boyle), O Último Desafio (Kim Jee Woon), A Visitante Francesa (Hong-sang Soo), Wuthering Heights (Andrea Arnold)

40 Bem-vindo aos 40 (Judd Apatow)
Começando já com uma leve decepção, este filme de percurso onde Apatow não faz muito além de reimaginar Husbands (e um pouco de Modern Romance se a presença de Albert Brooks diz alguma coisa), o que surpreendentemente gera alguns resultados desequilibrados. O artifício principal do autor aqui é ter uma piada como carta na manga em cada situação potencialmente dramática, o que rende tanto o melhor momento de This Is 40 (a hilária discussão de Mann e Rudd que termina numa mesa redonda sobre Simon & Garfunkel) como a desastrosa participação de Melissa Macarthy. E é claro que eu estou sendo um pouco cruel com ele, mas é só que eu espero uma justificativa melhor de Apatow quando ele diz que Ryan Adams é melhor que Nicki Minaj.

39 Gravidade (Alfonso Cuaron)
Certo que houve uma vantagem pra mim só ter visto esse filme alguns dias atrás, quando todas as opiniões sobre ele (extremas ou não), já estavam cozinhadas. E é certo também que parte do potencial dele só existe na mente do Cuaron. Mas, ao contrário do que eu esperava, em partes isso até o beneficia: o diretor mantém uma serenidade/controle que deixam seus planos-sequência construir todos os sentimentos que o filme poderia evocar (toda a noção de desespero, atmosfera de suspense, etc). Outro ponto é que Sandra Bullock está num momento muito bom (eu nunca fui fã dela, mas até no último Paul Feig seu papel é ótimo).

38 Antes da Meia-noite (Richard Linklater)
É esquisito que o filme menos relaxado da série seja o que mais demora para encontrar algum fundamento dramático. Antes da Meia-noite pode ser definido como o momento em que Linklater corre o tempo todo para se desvencilhar de conceitos simplistas (o filme de viagem ou o filme de casal em crise) quando nos outros dois ele o faz sem pensar muito. É nessa especificidade que ele se revela, literalmente, mais expansivo, até que Ethan Hawke e Julian Delpy partilhem um espaço com várias pessoas onde (enfim) as memórias se estabeleçam num processo histórico que a série sempre procurou.

37 Os Três Patetas (Peter e Bobby Farrelly)
Farrellys no seu mais irresistível piloto automático tashliniano. É tudo tão inocente (e autossuficiente na escala do tipo de material com que os irmãos adoram trabalhar) quanto voltar aos 5 anos e ver algum desenho na Cartoon Network.

36 Era Uma Vez na Anatólia (Nuri Bilge Ceylan)
Eu estava lendo estes dias Adirley Queirós falando sobre arquétipos ficcionais, onde para ele é mais do que justo pensar em particularidades como o motor de todas as certezas universais do cinema narrativo. É só que eu não pude parar de pensar nesse filme aqui quando ele é sempre costurado nas bases que o próprio título “Era uma vez” carrega: na catarse, no impulso que as personagens evocam. Servir bem uma estória pode te qualificar a servir bem uma classe e (porque não?) todo um território.

35 O Cavaleiro Solitário (Gore Verbinski)
O primeiro passo que Verbinski dá em Lone Ranger é entender Shot Liberty Valance, onde Ford se preocupava muito com a ética dos mitos (e como isso implicava na ausência da verdade para eles; ela é sempre vista como um perigo). O segundo é processar toda a História nessa (des)ordem, com direito a picos de horror e humor a todo instante levados ao extremo (senão confundidos) e uma ideia perturbadora sobre a História como um espaço aberto a interpretação de seus heróis. Já vimos Verbinski flertar com absurdismos em todas as belas matinês de Piratas do Caribe, nada, no entanto, tão excêntrico e subversivo (na iconografia do western ou de seu revisionismo) quanto este aqui. Alguns bons defensores dele jogaram comparações com Os Três Mosqueteiros (Anderson) e Django Livre (Tarantino), mas o espírito imposto aqui me faz sempre pensar na forma igualmente expansiva de John Woo sobre a velha Hong Kong.

34 Barbara (Christian Petzold)
O primeiro filme que todo mundo de Christian Petzold é um retrato sólido da paranoia de uma Alemanha Oriental nos anos 80. A vigilância é uma condição da estética do alemão assim como é o centro da interpretação de cada ator, no centro do thriller mellviliano onde nem o guarda-roupa poderia escapar de estar dentro da atmosfera de horror. E, diferente do que um Bonello didatizava no último plano de L’Appolonide, a opressão existir além das possibilidades desse filme é uma consequência sempre clara.

33 Clear History (Greg Mottola)
Após o fiasco de Paul, Mottola se aventurar na TV num veículo para Larry David parece uma opção tão óbvia quanto promissora. Mas trabalhando aqui com 3 dos autores de Seinfield (já excluindo David), ele está mais a vontade do que se espera; para além de condensar um episódio de Curb Your Enthusiasm em 100 minutos, é um objeto muito bom sobre reanimar identidades, sua trama se amarra numa espécie de farsa onde cada personagem move o fluxo da ação se impedindo de manejar suas próprias características. Inclua aí também algumas das melhores gags de 2013 e um Jon Hamm (hilário) num personagem que é o encontro perfeito de Don Draper e Ron Burgundy.

32 O Som ao Redor (Kléber Mendonça Filho)
O espaço social e cinematográfico a serviço da linearidade de Kleber Mendonça Filho. Mais um equilibrado clichê de cinema contemporâneo (se não pelo extracampo, pelos personagens arquétipos) que o panorama crítico urbano que muitos querem, é no equilíbrio com que o diretor domina suas formas e estruturas que ele encontra a tensão de horror tão almejada.

31 The Package (Jesse V. Johnson)
A tradição de underdog, como os Unisoldiers do John Hyams recentemente mostraram, fizeram bem a Dolph Lundgren. O ator se mantém numa autoconsciência as vezes bizarra e sempre muito, muito divertida. Mesmo aqui onde ele faz o vilão, seu personagem é a personificação do anti-mito – cada interpretação você pode associar tanto a humildade como improviso. Eu queria falar mais sobre como Johnson incorpora cada movimento de Steve Austin e como toda a ação é um trunfo de eficiência e de cuidado com os personagens e tal, mas ainda é difícil terminar de assistir The Package e não estar falando sobre o monólogo de Lundgren enquanto faz um smoothie e assiste a um homem morrer.

30 O Abismo Prateado (Karim Ainouz)
Um exercício excitante de Ainouz sobre o desejo de Alessandra Negrini em encontrar seu próprio elo como protagonista e também um filme geralmente subestimado pelo mesmo motivo. Desconfio que os maiores críticos dele sejam os mesmo que viram Alice (a parte do material do autor que mais partilha em comum com Abismo Prateado) com maus olhos, talvez porque centrar-se em filmar encontros concisos já não seja tão singular quanto em Madame Satã. Mas recusando grande parte dos tiques eventuais que Ainouz só utiliza ainda por ser a melhor forma de se fazer cinema urbano (ver: A Via Láctea), é o tipo de olhar para a figura feminina forte como só uma boa condensação de seu cinema faria e, como em qualquer outro filme dele, o momento é o que nos aproxima de Violeta como é o que nos vai distanciar quando ele já for só uma vaga lembrança.

29 Riddick 3 (David Twohy)
Twohy segue um belo contador de estórias em exercícios tão depurados quanto imperfeitos. A narrativa evoca diversas passagens dos dois filmes anteriores até que ele se torne uma jornada intimista de Vin Diesel sobre heróis disfuncionais. A ficção é imensa, mas o diretor trata de tornar cada elemento dentro dela essencial num cuidado visual e precisas descrições texturais que revelam um exercício mais pulsante que o imaginado.

28 Detention (Joseph Kahn)
Não há nada melhor que matar sua falsa protagonista nos primeiros minutos de filme. Justificativa? Estamos em 2013 e ela fala de Hoobastank. Kahn não é só um especialista em todo o o hibridismo da cultura pop (este filme é um híbrido assumido) mas o cara que está aprisionado a gerações de modismos e contesta o valor de cada um deles.  Se uma auto-representação dentro do próprio filme não indica suficientemente o fascínio desse universo, tente recusar a nostalgia de entrar na wikipédia do diretor e sacar alguns clipes que ele dirigia há 10, 15 anos atrás. E favor, ler isso aqui.

27 A Datilógrafa (Régis Roinsard)
Lembro que esse filme veio para o Festival Varilux no primeiro semestre e, como a maior parte do que passa lá, não me importei muito. Meses depois ele chega ao circuito e, num destes momentos em que você só vai ao cinema pra acompanhar alguns amigos, mais do que uma bela surpresa se revelou o antídoto ideal para todas as tentativas bestas recentes da França de emular Hollywood. O foco de Roinsard está em 2 coisas: os atores e sua estrutura narrativa. Os dois juntos poderiam ser propulsores de academicismo, mas o diretor se dedica tanto e tão apaixonadamente aos seus momentos mais fortes que nenhuma saída de controle ou overacting tiraria seus tantos prazeres.

26 Depois da Terra (M. Night Shyalaman)
Vamos pular toda aquela parte de que Shyalaman é um maldito, que esse filme ser subestimado era natural, que qualquer filme seu pós-Sinais merece o mínimo de consideração? (Embora neste último eu esteja sendo até malvado.) Vamos direto ao ponto em que mesmo um filme menor como este ainda tem uma precisão singular no cinema americano sobre o autoconhecimento, sobre a sobrevivência. E que todos os artifícios (entre o literalmente religioso senso no uso da natureza e uma convicção dramática/emocional sempre pulsante) para alcançá-la é o que me deixa mais seguro de que ainda estamos falando de um dos melhores diretores de hoje.

25 Círculo de Fogo (Guillermo del Toro)
Costumo não me importar muito com o trabalho de Del Toro, mas Pacific Rim é um belo filme sobre ficcionalizar seus impulsos (os melhores e os piores), com cada elemento de fabulação a serviço do diretor, preciso como nunca. Vi muita gente comparar as suas tentativas de dramatização a Top Gun, mas se ela tivesse alguma lógica certamente eu não estaria me importando com a japonesinha e nem chamando o Idris Elba de gênio.

24 Margaret (Kenneth Lonergan)
Não há conflitos, nem soluções, um filme que vive das situações e de personagens voláteis. Demorou 6 anos para chegar aos cinemas já com o status e a consciência de que não é todo dia que se faz um filme como este.

23 Lincoln (Steven Spielberg)
De todos os filmes listados aqui sobre processos históricos nenhum é tão aficionado pelo seu material quanto Lincoln. Pegue os personagens de Tommy Lee Jones e Sally Field como exemplo, duas figuras injustiçadas pela História; os dois atores passam o filme inteiro em busca daquilo que Lincoln (um Daniel Day-Lewis calmo, sereno, em total consciência de sua figura de Grande Homem) tem de mão beijada, nem que para isso atinjam um overacting constrangedor.  Acima de tudo, ele é o resultado da grande fase da carreira de Spielberg (de Catch Me pra cá só me lembro de um erro) se reaproveita algumas ideias de Cavalo de Guerra sem o decorativismo.

22 Behind the Candelabra (Steven Soderbergh)
Antes um projeto de cinema obrigado a virar encomenda da HBO e agora, ainda o (provável) último filme de Soderbergh é o mais convicto dos objetos sobre o processo de auto-mercantilização que ele tanto tem se dedicado. Toda a relação vendável de Liberace funciona tanto como um ganha-pão quanto uma egomania onde a vida interior é uma abstração completa da imagem pública. Eu ia terminar dizendo que qualquer comparação com Fassbinder é redundante, mas onde alemão vê melodrama, Soderbergh articula todo o contato emocional dos personagens financeiramente (mas sem espaço para falsas críticas habituais de “frieza”: o diretor parece aqui tão fascinado com o glamour da relação destrutiva quanto todos nós).

21 A Cidade é uma só? (Adirley Queirós)
É o filme mais moderno que o cinema brasileiro poderia realizar porque, como notou o Raul Arthuso, é também livre de qualquer amarra de cinema contemporâneo (ou de um painel jornalístico, talvez?). Não é uma recusa, mas Queirós realmente olha ao redor da Ceilândia o só consegue enxergar um painel de ficção. Em algum nível, é o oposto de Abismo Prateado, onde há toda uma memória afetiva da figura do autor e da idealização que Ainouz faz do espaço urbano.

20 Bernie (Richard Linklater)
Outro belo filme de Linklater dessa vez num notável clima de improviso. Não consigo pensar em seus melhores momentos sem imaginar que Jack Black ou Matthew McConaughey também estavam contribuindo no roteiro, um potente centro de diálogos que dizem muito sobre a condição dos próprios atores (e todos aqui estão ótimos). Vale lembrar também que o personagem central tem toda aquela pompa junto a uma morbidez que se espera, mas junto a leveza da narrativa Linklater elegantemente o substitui por uma virtuose quase minimalista.

19 A Bela que Dorme (Marco Bellochio)
E voltamos as teses de Queirós: A Bela que Dorme pode ser o melhor filme a tratar da Eutanásia que desperta em Bellochio, na verdade, o desejo de fazer um grande filme sobre a Itália. Como o cinema é legal.

18 Um Estranho no Lago (Alain Guiraudie)
A contradição de que vive Um Estranho no Lago talvez seja o que faça dele tão bom: por um lado é um filme todo bem estruturado, calculado, notável rigidez de Guiraudie etc. por outro ele parte do forte contato com/estar na natureza que é como se o tempo todos estivéssemos encontrando uma narrativa aberta, nas mais puras sensações que o cinema despertaria (e isso é claro vindo acompanhado da ideia do constante perigo e ambiguidade como parte do desejo). Mais ou menos como um remake de Instinto Selvagem pelo Apichatpong Weerasethakul.

17 4:44 O Fim do Mundo (Abel Ferrara)
Eu devia não cair no clichê de chamar esse filme de visceral, mas não há nada melhor a ser dito sobre um filme temático de Abel Ferrara se não que ele é a obra mais visceral sobre o fim do mundo que o cinema já pensou.

16 Oh My God (Louis C.K.)
Louie como grande encenador num projeto dirigido e roteirizado por ele, transformando a própria condição de workaholic (com a grande popularidade que ele adquiriu no último ano) no centro do texto. Ele organiza suas ideias entre um argumento pessoal e a observação contínua que funciona como uma extensão do envelhecimento (sem mais a crise de outrora, agora vira uma fonte de sabedoria). Ambos revelam o melhor processo de autoficção que ele poderia fazer.

15 Django Livre (Quentin Tarantino)
Eu sabia que tinha de rever esse filme antes de fazer uma lista dessas. E embora ainda seja o Tarantino mais inconsistente (a dramaturgia é especialmente sem imaginação), mas  muito forte quando ele substitui a barbárie do filme anterior por uma guerra que é ao mesmo tempo silenciosa e sanguinária. Enquanto os dois lados apostam em cenas do mais puro horror a natural pastiche, o espectador espera a cada segundo pelo momento em que a violência passará de espetáculo compartilhado ao espetáculo único dos espectadores. Cada movimento dá uma aparência de passo em falso, o que como em qualquer bom filme de seu realizador é o seu melhor fetiche (sempre achar que ele está esgotado).

14 Bastardos (Claire Denis)
Se engana quem trata este filme como um simples de rotina de Claire Denis. De fato, vez que o centro do thriller aqui está na potência sensorial (ainda que seja sempre um prazer ver a autora filmando, né?), mas se cada filme dela é sempre um conto de horror, um filme sobre Vincent Lindon entre 3 mulheres presas a uma submissão não deixa de ser um pouco mais assustador que o de costume.

13 O Estranho Caso de Angélica (Manoel de Oliveira)
É o filme visto há mais tempo dessa lista (quase 3 anos salvo engano), mas também um que é difícil não guardar na memória cada momento-chave. Espécie de reimaginação natural de Oliveira sobre Laura (Preminger), onde o fascínio do diretor em imagens de cinema se eleva de forma tão assustadora até que ele use efeitos digitais como artifício. É claro que cada um deles é bem calculado e usado como o próprio objeto de encantamento/estranhamento pela sua carreira, mas também notável enquanto o diretor abraça cada imagem como se o cinema só tivesse sentido quando utilizado (e potencializado) nas suas mais completas formas.

12 Vamps (Amy Heckerling)
Vamps é um grande filme sobre o tempo, sobre viver sem seu significado, sua finitude, sua aceleração. É também sobre o modo como o tempo se correlaciona com cinefilia: uma vampira traz conscientemente um painel social e comportamental de outro tempo como algo muito próprio, assim um cinéfilo traz a memória os grandes filmes que viu de um cinema mudo (todos lembrados por Heckerling em algum momento) como se fossem seus contemporâneos. Heckerling, totalmente consciente do seu papel no mercado atual (esse filme foi lançado direto na home video), traz uma visão de compartilhamento entre o profundo fascínio e a solidão que isso provoca (é possível ver que na ideia que ela mostra gostar de cinema é tão marginalizado quanto, hum, ser um vampiro), o que permite Vamps ser uma versão de Hugo sem a indulgência natural de Scorsese.

11 O Voo (Robert Zemeckis)
O compromisso pessoal de Zemeckis reflete no que é um de seus pequenos filmes que substitui tal condição por uma muito consciente simplificação. O Voo rende uma bela dupla com o filme de Ferrara, porque além de serem “descidas ao inferno” eles partem da dicotomia entre a ambição e a visão pessoal para serem dois dos projetos mais bem estruturados sobre um certo assunto. Cada contorno  ou erupção minúscula em um gordinho-de-meia-idade-carismático Denzel Washington (excelente) é uma nova perspectiva de introspecção para o diretor.

10 Vocês Ainda Não Viram Nada! (Alain Resnais)
Um título muito propício ao Estranho Caso de Angélica, vez que Resnais deve ter imaginado ele mais ou menos se iludindo já com a atmosfera inebriante de farsa que tanto fez esse um dos filmes mais divertidos do ano. Há tanto em comum com Oliveira aqui, talvez superficialmente pelo olhar veterano onde cada ator se transforma menos num personagem autônomo que em um recurso para fundir a primeira pessoa do passado a atos performativos (semi-)reais. Afinal, é literalmente disto que vive Vocês Ainda não Viram Nada: como em Ano Passado em Marienbad, o passado, presente e futuro se colidem em total autoconscientes elementos texturais. Torto e imperfeito como ver um velhor ator se alterando após décadas de processos narrativos.

9 Spring Breakers (Harmony Korine)
Tive uma overdose de discussões sobre esse filme com alguns amigos o ano inteiro (apesar de nunca ter mencionado aqui no blog), a mais emblemática foi num debate no IAP uns dois meses atrás quando um dos organizadores definiu o vértice de Spring Breakers muito bem em duas especifidades: no primeiro ponto ele comparava ao clipe de “Blurred Lines”, onde o olhar masculino tradicional era transmutado para algumas garotas que o subvertem (tudo com o benefício do imaginário da Britney Spears, a good girl gone bad por excelência da cultura americana); no outro, há uma comparação com o clipe de “We Can’t Stop” (ambos dirigidos pela Diane Martel) onde se reflete o perigo e fascínio dos jovens brancos pela cultura negra. Os dois pontos se estruturam bem dentro do universo de Korine, e é acima de tudo um filme relevante no que tange qualquer tipo de cultura experienciada em 2013. E é claro que nada disso funcionaria tão bem não fosse o Spring Breakers tem de mais comparativo com a música de Robin Thicke: o diretor torra tudo que aprendeu com Malick e Michael Mann num remake pop-vagabundo-maneirista de Trash Humpers.

8 Crazy Horse (Frederick Wiseman)
Entorpecedor em um muito cuidadoso visual que passeia entre o simples espetáculo e a conflitante ideia de que é um sendo documentado. Não conheço tanto de Frederick Wiseman quanto devia, mas no seu melhor o cinema do cara já é forte porque ele é muito convidativo desde o primeiro plano.

7 Damsels in Distress (Whit Stillman)
Um tanto irônico ver esse filme chegar discretamente direto em blu-ray aqui no Brasil no mesmo ano em que Frances Ha fez tanto sucesso nos circuitos (Baumbach também tem uma assumida influência de Stillman). Não só pelo que Stillman tem de mais cuidadoso em criar os melhores diálogos do mundo e fazer de tudo para que o espectador ria junto com seus personagens e não dos personagens, tornar cada conflito deles uma observação compartilhada sobre a juventude. E, bem, lembro-me a época do lançamento de Febre do Rato onde Assis me disse que o preto e branco dava uma entonação melhor aos seus atores, mas vendo Greta Gerwig aqui penso exatamente o contrário.

6 O Mestre (Paul Thomas Anderson)
Um grande filme sobre a contestação de um homem assombrado pela nostalgia. Ainda existe alguma dúvida que Anderson é o melhor cultor de imagens desconexas do cinema?

5  A Filha de Ninguém (Hong Sang-soo)
Quando coloquei Hahaha na minha lista do ano passado, falei sobre meu fraco contato de Sang-soo, um cineasta em notável crescimento aqui no Braisl. Algo que sumiu esse ano onde eu procurei ver pelo menos uma parte considerável de seu catálogo (ótimo por sinal), o que eu noto é que ele segue um fluxo contínuo de filme a filme. Para alguns ótima chave para chamá-lo de repetitivo, pra mim é como uma nova folha em branco sendo preenchida num dia qualquer. Num filme menor como A Visitante Francesa a mulher já dava um sinal de reinvindicar seu status no cinema coreano e aqui em A Filha de Ninguém há uma ruptura em maior escala de seus filmes: Hong faz um grande filme sobre corromper coletividade (o que ele está habituado a fazer) na perspectiva de uma mulher em busca da sua própria liberdade (o que não está).

4 Tabu (Miguel Gomes)
O filme que narra o cinema, no que ele tem de mais material e abstrato, que leva o conceito de vários outros filmes dessa lista a condição (nada fácil) de eternizar imagens. Ao cinema cabe cada movimento da história.

3 Amor Bandido (Jeff Nichols)
Minha primeira reação após assistir Shotgun Stories, o primeiro ótimo longa de Nichols, foi dizer que em pouco tempo ele estaria dirigindo um reboot de Homem-Aranha. E ok, só se passaram 3 anos desde então e nem é o novo Homem-Aranha, mas foi reconfortante após ver Mud ler que ele estava dirigindo um sci-fi de estúdio (orçamento generoso e tudo). Isto porque os 3 filmes de Nichols apresentam o diretor numa evolução constante, tanto em ambição comercial como desenvolvimento artístico, mas se mantém de pé sempre ao seu apelo mais simples; eles te pegam numa catarse qualquer e não te abandonam mais. Posso preferir os dois filmes listados abaixo por razões pessoais ou um outro detalhe, mas nenhum deles tem o olhar textural de Nichols ou mesmo o extremo cuidado na idealização de relacionamentos pessoais.

2 Terapia de Risco (Steven Soderbergh)
Soderbergh passou grande parte da carreira experimentando formas de iludir o espectador sobre a importância de seus personagens, mas só neste provável último filme para multiplexes ele atingiu sua forma notável: o primeiro plano nos convida a entrar no universo de Rooney Mara assim como o último é um sincero adeus. Um filme de horror de aproximadamente meia hora, mais do que rico em dramaturgia com 4 grandes atores dando senso as obsessões naturais do diretor com o digital e também totalmente sólido enquanto o filme de gênero que ele tanto precisa acreditar que existe. Nada surpreendente quando um velho ilusionista esvazia cada movimento do grande filme construído até então e o converta no média que vai compreender Rooney Mara, agora um filme físico ao extremo e moldado por cada impulso da atmosfera contínua.

1 Amor Profundo (Terence Davies)
Há uma cena-chave em The Deep Blue Sea onde a câmera gira lentamente ao redor do corpo nu de Rachel Weisz e Tom Hiddleston na cama em uma exibição erótica; sabemos que há desejo e uma vontade dos dois de estarem ali, no entanto o que Davies evidencia é o corpo da atriz com seus músculos expostos onde cada um representa a condenação que ela vive. Estão direcionadas a Rachel dois arquétipos opostos de homens: num é representado por seu marido, baixo, gordo, velho, rico, barbudo, naturalmente acolhedor mas que em sua condição transpõe uma faceta de indiferente (que acaba barrado na maior parte do filme pelas gentilezas oferecidas a sua mulher) e do outro lado há o piloto que impõe um desejo carnal à ela, é novo, de origem humilde em uma satisfação incômoda à sua condição e uma jovialidade expositiva. O que Davies nos mostra, no entanto, é que Weisz encontra-se em um dilema onde nada a completa, mesmo que a amizade do marido a conforte e que o amor por Freddie a satisfaça vez em quando fisicamente, ambas as possibilidades tendem a lhe empurrar para uma amargura inexplicável. Talvez porque seja um processo autodestrutivo que ela objetivava sofrer, ou seja uma consequência natural por habitar o mundo-zumbi de Terence Davies.

Davies, em uma entrevista recente dizia que gosta de filmar na Inglaterra de época por acreditar hoje ser seu período mais convencional. Mesmo que seus filmes se liguem a um período de repressão (num laço com a sua homossexualidade), eles transmitiam uma cultura viva num mundo que canta, respira, é orgânico. E o diretor ainda se aprofunda dizendo “a razão pela qual estamos obcecados com a Segunda Guerra Mundial é que foi a última vez que foram importantes.” É neste mundo que The Deep Blue Sea transita, onde a Guerra era uma ferida dividida entre a tentativa do esquecimento e a memória afetiva permanecendo animada que se desenrola num esquema visual muito distante do melodrama (ele dificilmente usaria close-ups) ou do filme de época, evitando se entregar a narrativa tradicional, numa composição simétrica que ou prefere romper ou ir junto. Davies, afinal, é o cineasta das memórias, de cada fragmento de sua nostalgia sendo evocados com precisão. É um cinema que dialoga com um período distante pessimista, mas que como disse Davies na entrevista citada, pouco difere da imagem da cultura inglesa de hoje. Isso me faz crer que ele aponta em seus filmes, na verdade, para um futuro assustador dessa nação.

7 comentários em “Melhores filmes de 2013”

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    Cadu Roncatti Bomfim.

    1. pois pedro, pode acreditar que eu desconfio tanto desses 2 quanto a maioria por aí, mas os dois são bons mesmo. o do boyle é tipo um inception que não se importa mt com a estória e o paperboy segue a mesma linha de killer joe do friedkin (eu até decidi no unidunitê qual dos dois lembraria aqui).

^-^

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