Melhores discos de 2013 (2 de 2)

And it aint rly nothing but clothes in the way

20. Omar Souleyman, Wenu Wenu (Ribbon Music)
Quando surgiu meu primeiro contato com Wenu Wenu (música), eu sabia que não deveria encarar aquele tipo de som como algo estranho. Não só pelo mínimo conhecimento de música árabe que eu tinha (e ainda tenho), mas por querer encontrar um olhar dentro daquela cultura (bem resumida na faixa, ou neste disco) em que houvesse um diálogo com tudo que é de mais acessível pra todos nós. Para dar confiança às reivindicações, há Four Tet, o produtor britânico; e, olha só, essa é a melhor função dele no disco, a de estabelecer uma relação entre a nossa cultura e a do sírio. Não é que ele seja só uma imagem (o Sr. Omar Souleyman é um popstar, afinal), mas para Four Tet se preservar, conservando o dom que ele tem para fazer grandes músicas agindo como se elas fossem faixas padrão de uma discoteca, é o que melhor investe em atenção a força melódica de Omar. E os dois juntos apresentam-nos uma cultura (e sonoridade) limpa, longe de domesticações ou turismos estéticos. É só disso que eles precisam pra criar um dos melhores discos pop do ano.

19. Major Lazer, Free the Universe (Secretly Canadian)
Agora esqueça tudo dito aí em cima sobre Omar e Four Tet. Em “Free The Universe” simplesmente não faz sentido reclamar do que torna a música jamaicana mais americana, ou a americana menos domesticada. Muito porque o ano foi surpreendentemente anticlimático para o Diplo (se você pensar que resenhar disco do Daft Punk pode ser uma grande ação) e, por isso mesmo, um disco mais relaxado, sem as rupturas do ‘Guns’ me parece relativamente mais orgânico (devo agradecer a ausência do Switch?). Suas explorações estilísticas seguem com rigor, desta vez querendo existir só pelo potencial pop de cada faixa. Do electropop farofa ao dub. Do brostep ao moonbahton. É bem o tipo de estudo do top40 (mais explícito pelas tags de rádio) que é bom ver realizado por alguém sem amarras entre o que é ou não vendável dentro dele. É irregular, e provavelmente não seria tão bom se não fosse. E também o tipo de disco worldbeat que qualquer um imaginaria vindo de um cara loiro de olhos azuis, para o bem ou para o mal.

18. Matt Elliott, Only Myocardial Infarction Can Break Your Heart (Ici d’ailleurs)
Mr. Elliott é um especialista em espetáculos. Ele não quer o ouvinte próximo a ele, ou melhor: ele até pode estar, mas só o suficiente para o músico apresentar sua melancolia grandiosa, um festival de desespero, temperamental e um melodrama em pleno vigor (o título é bastante representativo). Matt preenche cada espaço do disco como um épico em seus desconcertantes movimentos folclóricos, para o nosso protagonista é importante que você se importe com as preocupações desse espetáculo. Seja quais forem elas. Para isso, a economia inexiste: a produção exuberante, o baixo, cordas, tambores, camadas vocais etc. (Sim, sua dinâmica com a banda é uma das maiores qualidades do disco.) Claro que em sua grande ambição (The Right to Cry), uma faixa que se sustenta bem em seus 17 minutos, Matt ainda é tão urgente quanto na maior parte de seu catálogo, mas um corte de otimismo é bastante singular aqui. E vê-lo converter o melodrama de cada faixa em atmosfera pura nas suas extensões é sempre muito bom.

17. The National, Trouble Will Find Me (4AD)
Lembro que à época do lançamento deste disco, li um artigo intitulado “Why I Hate The National” (que felizmente não consigo encontrar um link). Eu não só achei horrível por trazer algumas das piores tendências *poptimistics* (algo que, lendo os outros itens dessa lista, você notará que eu não tenho condições de desprezar), mas por reduzir Berninger e cia a mais um amontoado de ideias mal formuladas para discussões sobre a arte erudita vs  mau gosto institucionalizado. Claro que quando eu percebi, alguns amigos já estavam levando essas teses adiante e os National já pareciam uma extensão dos cânones da NME. Eu posso ir direto ao óbvio? “Eles são bem mais do que isso”? Posso falar que é a banda de rock atemporal por excelência do século XXI? E que este disco é muito bom, sendo um disco de hábitos? Estas perguntas não deixam de ser um pouco redutoras, eu sei, mas é uma construção longa e sólida que me leva até elas. O melhor exemplo está na melhor faixa do disco, estranhamente batizada de “I Need My Girl”, com as mais claras tendências autodestrutivas de Matt e todo o excesso à Fitzgerald que o transformou num grande letrista; mas não para por aí: a faixa tem um quê de ternura, encontra seu otimismo e humor dentro da própria obscuridade. No fim, tudo funciona perfeitamente porque eles ainda tem o equilíbrio mesmo entre uma ou outra superfluidade.

16. Gucci Mane, Trap House 3 (1017 Brick Squad)
Vamos admitir que Gucci Mane é o rapper mais importante de 2013. Por toda a personalidade conturbada que ele se tornou – vide ir ao twitter chapado escrever que comeu todo mundo e interpretar a si mesmo em Spring Breakers – ou pela infinidade de releases mensais, cada um forte o suficiente para parecer um evento. O melhor deles, este Trap House 3, se fixa em aproveitar ideias de trap music que Gucci já tinha desenvolvido anteriormente e é em algum nível seu disco mais convencional (acredite, só o fato de estar a venda no iTunes já é um pouco assustador). O melhor de encontrar o rapper nesse tipo de piloto mais controlado, é que ele tem uma flexibilidade entre o puro choque e as mais perigosas saídas espertinhas (elas não são predominantemente cômicas, mas te obrigam a achar isto) e um precisão com o flow que o deixa mais distante das mixtapes irregulares.

15. Bill Callahan, Dream River (Drag City)
“The only words I’ve said today”, para depois entoar “Are ‘beer’ and ‘thank you'”. Por meio destas inflexões sutis que permitem Callahan brincar com seus críticos até que ele possa realizar um disco autodescrito como soulful. (Todo esse bom gosto para piadas, claro, vem da forte influência do Leonard Cohen, agindo aqui também nos tons de voz do sujeito, um sentido de experiência que não economiza na aparência de sem força.) Ele tem um ambiente aconchegante e instrumentalmente um meio termo perfeito entre seus discos anteriores. E sua entrega a cada momento de artifície é o que resulta em Dream River como uma revelação, um disco que sai ganhando até nesse tipo de situação.

14. Holden, The Inheritors (Border Community)
Quando ouvi esse disco pela primeira vez, ainda sem muito hype entorno, era apenas a confiança numa indicação do Four Tet (claro, Holden tem um selo sólido, mas não foi o melhor exemplo de produtor de techno que eu me acostumei nos últimos anos). E eu insisto em falar de Four Tet aqui porque Holden atinge uma dimensão textural semelhante a do inglês em seus momentos mais fortes de histeria: com uma ideia progressiva às estruturas (“Renata”, a melhor, termina no seu ápice), seu detalhismo, o confronto de bases e seus sons mais superficiais etc. Cada beat aqui vem com uma sensação de incerteza; as intensões de Holden são tão ambíguas que a linha entre desconcertante e confortante em algo como “The Caterpillar’s Experience” inexiste. A intensidade em The Inheritors é como se sentir acolhido num espaço não convencional.

13. Beyoncé, BEYONCÉ (Columbia)
Esse disco é o que I Am Sash Fierce teria sido se a Beyoncé já reservasse um punhado de ideias do 4 para ele? Digo, ele ainda me parece meio high concept, meio plástico, mas tem a vantagem de não ser vendido com uma música chamada “If I Were A Boy”. Nem de ter um disco separado com algumas das piores baladas do universo. Óbvio, muitas das qualidades dele vem do fato de B não separar mais o que plástico do que é pessoal, do que ela considera autêntico (afinal, a Beyoncé mãe, esposa, feminista, etc. do disco também não deixa de ser um personagem), mas BEYONCÉ tem um prazer especial quando se trata de uma comunicação mais direta: ela é confortável o suficiente para dar algum tipo de impulso moral (a homens e mulheres) sobre seus assuntos e são assuntos, “assuntos” melhor dizendo, muito próprios que se não apenas Beyoncé deveria estar falando, ao menos é um grupo seleto de artistas. Em “Drunk In Love”, o melhor dos exemplos, ela fala em this shit sobre acordar na cozinha ao lado do Jay Z; mas this shit é o amor em suas próprias imperfeições, que entende e conhece sua frivolidade, uma sequência entre acreditar que realmente o suave e o cafona se acompanham nessas merdas.

12. Passo Torto, Passo Elétrico (YB Music)
Quando uma seleção de alguns dos melhores músicos do cenário se juntam pela segunda vez pra falar sobre o espaço urbano, eles confiam na própria impulsividade, percorrendo classicismos e projetando São Paulo como um local apocalíptico. O nosso disco político do ano pode ser o que melhor entende o progresso (o “elétrico” do título é uma força quase instantânea), mas também o peso da desilusão que vem com ela. E nada melhor que terminar tudo isso tirando sarro de si mesmo.

11. John Legend, Love in the Future (GOOD Music)
Alguns poucos amigos que se interessavam em ouvir esse disco depois de uma indicação, faziam a mesma pergunta que eu me faço até agora: como ninguém está falando sobre ele? Legend sempre foi subestimado mas, aparentemente, construiu uma base sólida nesses últimos anos (o disco com o Roots, a melhor música de Django Livre, entrou pra gravadora do Kanye West e tem o mesmo dando pitaco na maior parte das faixas aqui) para além de ter seu material mais ambicioso. Difícil saber onde ele errou. Aos que deram atenção que ele realmente merece, resta lembrar que bem diferente da superficialidade ostentada no título (e alguns cortes em comum com o 808s & Heartbreak), Legend tem mais especificidade quando trata diretamente sobre sexo; as produções servem pra contextualizar muito bem o disco mesmo sendo limpas e seguras, cientes de que o mais importante aqui  é não comprometer o soulfulness na voz do cantor.

10. Tyler, the Creator, Wolf (Odd Future)
Antes um rapaz saindo da adolescência e transportando tudo que ouviu de um punk rock mais visceral ou alguns slashers para o que foi um dos discos mais anti-hibridismos do rap em algum tempo, agora Tyler aos 22 anos, quer acenar a todas as críticas, crescer num retrato de humanização sem deixar de ainda ter aquela aparência do garoto que vai no twitter tirar sarro de todos. Ele surge, ainda quase como o equívoco institucionalizado de 2011, com alguns versos que apagariam todos os rótulos de homofóbico ou misógino (em Domo 23 e Rusty principalmente), se não simplesmente pela presença de Frank Ocean em umas 5 faixas; busca uma humanização da persona pelos relatos pessoais em “Answers”, mas percorre por todo o disco atrás de uma narrativa ficcional, seja com a obsessão (Colossus) ou o namorado amargurado (IFHY). No fim, o acidente de percurso da civilização agora pode não ser mais visto como um vilão, só um desajustado mais cativante que a média.

9. Kanye West, Yeezus (GOOD Music)
Um disco sobre o decadente em franca ilusão da figura divina, com toda a fúria, contradições e (porque não?) verve pulp de um simples rapper em ascenção.

8. Rene Hell, Vanilla Call Option (PAN)
Longe da instabilidade inofensiva de um Lopatin, Jeff Witscher não tem medo de triturar tudo aquilo que nos importamos. Toda a sonoridade aqui aponta para sua capacidade de criar imagens leves, mas ele subverte progressivamente suas (e nossas) intenções em verdadeiros delírios explosivos e impulsivos (ok, mesmo que a cada escutado fique mais claro que trata-se da precisão de Jeff como um mero artesão ilusionista, ainda é impossível não se render ao que ele cria aqui). Da seriedade a ironia satírica: a condução aqui é nada se não mágica.  Ser unidimensional para ele é uma questão de confiança: espaços, tempo, volume, batidas… Todos tem calculadamente a mesma importância. Ele se deleita como um fanfarrão entre as reminiscências de Philip Glass a medida em que a agressividade das suas opções vão ganhando força.

7. R. Kelly, Black Panties (RCA)
“How many babies been made off me?” A pergunta retórica de R. Kelly em “Shut Up” diz mais sobre a necessidade, após dois grandes discos que o afastaram de qualquer polêmica, de tê-lo como o grande vândalo que trata de sexo (e sexualidade) como uma posição emocional mais que qualquer parceria badalada em 2013.  Em seus melhores momentos ele é subversão de um loverman obsceno: uma música chamada “Marry The Pussy”, para Kells, nada tem de sugestivo; ele é bem direto na dissonância entre o sublime e o ridículo, tratar a vagina como algo do que se viver e se fazer (nenhum sentimento aqui é tão específico para além do essencial). Nos mais moderados já serviria simplesmente pra promover o perigo de levar cada letra de Black Panties para o cheesy ou constrangedor como o mais instigante dentro dele. Para o protagonista realizar um disco como esse, onde se pode deitar e rolar com suas críticas ou simplesmente encarar como um grande disco de R. Kelly no seu melhor Barry White-esque, pode ser um exercício de auto-engrandecimento bastante sólido.

6. Disclosure, Settle (Island)
Na minha ingenuidade dos primeiros contatos com o Disclosure, dizer que aquilo me lembrava Fatboy Slim ou Chemical Brothers era normal (os anos 90 já era obsessão de metade do planeta, mas ok). A ingenuidade respirava neles também, afinal. Dance music com hooks de vocais r&b no Reino Unido também não é tão incomum assim (pense que eles tem um quê de Basement Jaxx e são contemporâneos a um tal de Rudimental), e até onde eu sei diluir deep house ou diluir uk garage é a tarefa principal dos DJs que se auto-intitulam *EDM* hoje em dia. É, na verdade, o que faz de Settle tão bom talvez venha mesmo do fato de os irmãos Lawrence serem os grandes artesãos pop de 2013 e, err, tenham feito 14 hits sólidos aqui. Eu queria falar mais sobre como “White Noise” é junto com Blurred Lines o único hit de rádio esse ano que em momento algum eu enjoei, que “Help Me Lose My Mind” me traz uma sensação quase religiosa de conforto ou que talvez “Confess to Me” e “January” são os únicos tipos de armadilha de nex best dude que também seriam singles tranquilamente. Posso resumir logo dizendo que cada uma dessas faixas me deixou mais feliz em momentos diferentes do ano.

5. Mayer Hawthorne, Where Does This Door Go (Republic)
Lembro bem a primeira vez que Mayer veio no Brasil, toda a imprensa se juntava para se referir ao som do desconhecido como integrante da Escola BRIT de Soul (pense em todas aquelas cantoras chatas surgidas na cola da Amy Winehouse). Mas em todo o meu contato com o material dele, enxergava um erro grotesco aí: para Mayer vampirizar esta nostalgia inflada e a imagem semi-fetichizada do bom moço da Motown é uma forma de se estabelecer para algum público. (Nem todos tem a mesma sorte do Justin e Robin.) E a sonoridade seguia intacta, seja potencializando suas bases técnicas ou, como um hábito natural, crescer como um artista do presente. E é exatamente isso que seu terceiro e melhor disco prega: não há para onde fugir dos comerciais de perfume agora. O óculos sumiu, a barba cresceu, alguns superprodutores te controlando, um gancho que não é o anti-clímax do sujeito e sim a voz sensual da Jessie Ware, uma linha do Kendrick Lamar tão ruim quanto “Fuckin Problems”… e ele está com carta branca pra ser o cara que vai improvisar relembrando o pop fusion dos anos 70 e, finalmente, quase não se importando com o que é substancial ou não é. Já deve estar permitido dizer que é o melhor disco borrador de linhas do ano.

4. Okkyung Lee, Ghil (Ideologic Organ)
Você sabe que um grande disco de noise tem aos montes todo ano por aí, mas quando uma compositora coreana de free improviso diz que irá fazer isso você não sabe exatamente o que esperar. A conexão de Okkyung Lee com o estilo vem no seu mais puro potencial agressivo: se em “Strictly Vertical” ela desafia todas as convenções do ato de tocar violoncelo, em “The Space Beneath My Grey Heart” vê uma ruptura na estética composicional, onde o violoncelo só ocupa funções de superfície. Cada faixa pode ser expressionista, do tipo que é frágil e se sente livre de qualquer expressão purista sonora ou algo assim. Lee é uma grande manipuladora e o violoncelo uma cobaia na sua estética.

3. Pusha T, My Name Is My Name (GOOD Music)
“I rap nigga about trap nigga / I don’t sing hook”. Não há melhor forma de começar  um disco de gangsta rap se não negando tudo aquilo que você pode fazer. Pusha T, com a cortesia de ter um dos melhores duos de rap na década passada, é mais um daqueles caras que querem tirar substância da imagem e que constrói a própria persona em cada faixa com base na confusão proposital entre a ficção e a auto-biografia. Um impulso firme de humor e toda a estética sombria em cada faixa, que te faz pensar mais no T.I. de “King.” que qualquer menção ao fato do disco ser capitaneado pelo Kanye West. Uma faixa como “Hold On” pode parecer um peso morto, ser mais séria que a média do que Pusha quer aqui, mas os truques de HudMo tornam tudo tão falsamente camp e diversificado em veia cômica (vamos dizer que já tivemos discos de rap mais engraçados esse ano com Kanye e 2 Chainz, mas Pusha vence na riqueza e criatividade do humor) que você se ilude numa boa e não perde nada.

2. Julia Holter, Loud City Song (Domino)
Preciso lembrar que este era desde sempre um dos discos mais aguardados do ano pra mim e que, sim, revi Gigi antes de escutá-lo e, sim, li cada entrevista da Julinha e seus ensaios sobre Kanye West e Kim Kardashian. O impacto da obra-prima de Vincente Minelli no disco surge numa cena bem específica: Gigi, uma cortesã emergente, entra no Maxim de Paris com um figurão. Todos  a sua volta automaticamente se encontram em silêncio, até que tudo se acalme e a dinâmica se volte aos comentários; de intrigas a meras fofocas. E toda essa situação pode resumir o sentido de Loud City Song como pode resumir o que, de fato, Julia quer como artesã, como contaminar, confrontar uma superfície idealizada. A garota vinda de Los Angeles tinha dois discos ótimos, mas que se ligavam mais pela introspecção. Era um catálogo essencialmente claustrofóbico, com cada espaço (mínimo) muito detalhado, mas em Loud City Song, como ela mesma diz há um envolvimento maior com a sociedade; Julia, aos moldes de Minelli, tenta entender o papel de indíviduos desconcertantes como Gigi dentro dela. E o ouvinte anda junto, afinal são questões de juventude que movem tudo aqui, como se houvesse um aprendizado para Julia também em cada uma delas.  Em “In The Green Wild” entre um falsetto leve à Joni Mitchell e um tom de conversação por vezes dão um frescor de imperfeição que, por ironia, é o que mais fazem de Loud City Song tão bom.

1. Justin Timberlake, The 20/20 Experience (RCA)
No clipe de “Suit & Tie”, David Fincher divide Justin em 3 perspectivas para um cara que costura uma imagem em cima de outra imagem: o backstage de um show, onde há toda uma ideia dele como atualização do Frank Sinatra (e aí você entende porque Jay Z fazendo um rap horrível não prejudica a faixa); o show em si, a resolução perfeita de um espetáculo com todo o imaginário que você espera entorno do JT e, o melhor deles, um estúdio com o disco sendo gravado. Neste momento, Justin aparece com o rosto desgastado, mais sério e mais cansado; ali há um garoto suplicando para ser visto como um homem, o Homem que tem um trabalho. Que usa terno e gravata nele. Essa é a cerne do grande homem (num sentido de história ou dos 70 minutos deste disco) para Justin. E para ele que já foi o tipo de ídolo que tinha fãs acampando  na estrada do Rock In Rio um mês antes do show, o termo “se provar” é a garantia de muito, muito trabalho.

O trabalho de The 20/20 Experience, não aquele trabalho que automaticamente é sobre o amadurecimento, mas o longo processo de um. “Shake, like you got something to prove” – as provas são formuladas no confronto do garoto pueril que acredita a qualquer custo ser o galã irresistível (você pensa em toda a pompa que ele tem falando do seu chicletinho de morango ou construindo metáforas que já deveriam conter um colírio de brinde como uma entre amor e espelho) e o Homem apaixonado pelo seu trabalho, do tipo que não larga de jeito nenhum (se for pra transformar uma canção pop padrão de 3 minutos em uma de 8, tá valendo). Não existe “mainstream superior” ou “luxo indulgente” aqui, como a maior parte dos críticos me parecem apontar: elas são não mais que tags da imagem projetada por Justin, associadas ao seu próprio crescimento como artista (de novo, a superfície) e que se confundem com a sonoridade desde os anos 90 falsamente arriscada de Timbaland, o produtor ‘avant’ de R&B por excelência. Justin confia cegamente em cada uma de suas criações, como quem crê no sucesso delas por isto. O impressionante e o impressionável, enfim, estão confortáveis no mesmo lugar.

12 comentários em “Melhores discos de 2013 (2 de 2)”

    1. rapaz, já tou correndo pra fazer as de melhores… e eu tb tenho evitado há algum tempo falar do que não gosto. mas (vale aqui?), seria +/- isso:

      Sky Ferreira – Night Time, My Time
      Icona Pop – This Is Icona Pop
      Big Sean – Hall of Fame
      Savages – Silence Yourself
      Lady Gaga – Artpop
      Pistol Annies – Annie Up
      Sleigh Bells – Bitter Rivals
      A$AP Rocky – Long Live A$AP
      Gang do Eletro – s/t
      David Lynch – The Big Dream

^-^

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