And everything is blurry.

Drake – “Hold On, We’re Going Home”

Você que tem internet e certamente sabe que o Drake lançou um disco esta semana (que entre a anemia do Thank Me Later e a introspecção do Take Care, é mais um disco para ele demonstrar seus raps com cara de ensaiados, reduzidos a uma mera associação de palavras, técnicos e com um flow que faz inveja ao Big Sean – claro, com algum material melódico fazendo a diferença por aí…), deve conhecer também o atual hit do disco, “Hold On We’re Going Home”, uma esquizofrênica slow-jam gayeniana e uma das músicas mais fascinantes de 2013. Há aqui a obsessão costumeira do cantor com seus relacionamentos, com suas parceiras nem sempre sendo favorecidas (no Take Care ainda havia uma Rihanna pra ser o contraponto das inquietações): trata-se do típico caso do r&b loverman e a conquista de sua “good girl”; onde mais do que uma idealização, Drake busca sua autoafirmação [I know exactly who you could be], negociando até o porque sua perspectiva é a correta. Nesse ponto lírico, Going Home tem muito em comum com um outro hit até melhor deste ano, “Blurred Lines” do Robin Thicke. Mesmo que Drake tente ser romântico o tempo inteiro [I want your high love and emotion endlessly – e soe bem menos do que queira] e a música de Thicke ser quase uma paródia do SNL para as suas outras músicas sobre sexo/conquista [como chegar na balada e mandar um “You the hottest bitch in this place” pra qualquer garota], estão ali os caras confiantes e a indulgência de tentar definir o que é uma “good girl”. A que ele vai libertar da domesticação? A que ele sabe exatamente como deve ser?

Eles andam entre o sexismo de seus ideais e o que se acredita por capacitação feminina. E isso me faz querer ver os vídeos de ambas as músicas como extensão dessa perspectiva: o vídeo de Going Home tem uma assumida inspiração em “Miami Vice”, de Michael Mann, um cineasta que dialoga com homens e alguns arquétipos que eles podem representar mas não dispensa uma personagem feminina forte; nos filmes de Mann, como a música de Drake, as mulheres demonstram força e em algum momento encontram sua fragilidade para aí aparecer o homem com o caminho certo. O vídeo de Blurred Lines e seu ar de industrial-proibidão fazem pensar nas sátiras da sociedade contemporânea que eram os filmes do Frank Tashlin: quando o diretor filmava as pernas expostas e o decote de Jayne Mansfield, ele trata de nos direcionar para um “qual é o problema disso?”, afinal não há nenhum equilíbrio entre o caos que é a sociedade e tudo aquilo que a mesma condena como “marginal”. Em Blurred Lines, para além de outras representações  de tabus como a solução (e a própria letra que é a perfeita definição de uma conquista marginal em 4 minutos), há as garotas seminuas sempre em posição de poder frente aos três caras suit & tie como meros bobos. Thicke e Tashlin negociam com o feminismo, mas como no outro caso, as mulheres ainda têm os homens que mostram o caminho correto da libertação.

Eles tropeçam, nem sempre andam em linhas borradas e dificilmente serão plenos na representação da good girl (apesar de que tanto Drake como Robin tem músicas excelentes sobre relação mútua), mas não dá pra negar a perspectiva masculina na música pop, até pelo apelo classicista, ainda é a mais honesta.

6 comentários em “And everything is blurry.”

      1. Sério? Hahaha!
        E aliás eu concordo completamente com teu post e acho até esquisito aonde essa polêmica sobre Blurred Lines tá chegando! Mais estranho ainda é que o o posicionamento do Drake em HOWGO (romântico) é BEM mais prejudicial a musica que o do Robin (auto-irônico).

        1. penso assim tb, apesar de que “prejudicial” não é bem a palavra que eu usaria – até pq há camadas e mais camadas de synths que nao negam que ali, no fundo, é só um personagem egocêntrico. acho que é como uma crítica q eu curto mto fala: cê tem que ouvir uma musica do drake já consciente q ela é sobre ele e só ele. diferença é q ela acha ele um babaca, e eu acredito num meio-termo, smp tendo a possibilidade de sair uma hold on (se n tiver rimas, as chances aumentam consideravelmente rs). e sobre BL: atualmente tou preferindo acreditar que é um choque cultural de ver uma musica crossover de um cara branco usando linguagem de hip-hop e que daqui há uns anos voltarão a ela pra reconhecer a bobagem q é tudo isso, pq tá difícil viu

^-^

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