Notas rápidas (II): Vampire Weekend, David Lynch, Mayer Hawthorne, Robin Thicke

Vampire Weekend – Modern Vampires of the City (XL Recordings) B
Uma das bandas que mais sofrem hoje com o hype, e não só ele, mas todo uma questão fundamental envolvendo comparações com o Taking Heads/estilo e imagem (e por ainda levarem alguma vantagem em relação aos outros do ‘segmento’, nem há porque culpar quem realmente não acredita no valor que hoje ainda é dado a eles e ao National), o Vampire Weekend saiu de um disco difícil e cheio de maneirismos, o Contra, para uma estilização de suas melhores características. O ‘Modern Vampires’ saiu há pelo menos dois meses, e sim eu ouvi bastante nesse período e também me decepcionei bastante. O fato de eu comentar agora aqui, sobre eles, ressalta a dificuldade de se abraçar um trabalho de uma banda que tenta fazer uma música positiva a partir de escolhas frustrantes. Ainda desconfio de muita coisa que os caras fazem, mas existem elementos importantes como a sinceridade e a naturalidade com como tudo é feito aqui que me deixam muito mais apto a apreciar uma música de camadas, como Hannah Hunt (provável melhor coisa que o Ezra já escreveu), onde há primeiro o gesto de bondade para depois te lembrar do quão difícil é a vida, ou Ya Hey, com seu auto-tune estranhíssimo é uma prova não só do diálogo nada modesto deles com outros culturas (não, não é o Talking Heads!), mas que a cumplicidade entre duas pessoas só totalmente compreendido pelos mesmos. “Though we live on the U.S. dollar, you and me / we’ve got our own sense of time.”

David Lynch – The Big Dream (Sacred Bones) D+
Gosto de imaginar a carreira musical do Lynch como algo bem próximo do que o Scott Walker sempre diz, a respeito de criar imagens sonoras que ilustram sua composição – e só após isso há a certeza de que sairá algo bom de lá. Tanto que este e Crazy Clown Time quando não estão ligados sensorialmente a seus filmes (Lost Highway, Eraserhead e Twin Peaks são as presenças mais fortes aqui), ao menos é possível vê-las como substitutas na trilha sonora – e a textura das faixas são bem próximas. Mas o que para Walker é um processo, no segundo disco de Lynch é uma rotina incansável (o minimalismo, beats tão inorgânicos), algo que você gostaria de se livrar e não sabe exatamente porque não o fez. Um exemplo do inchaço prematuro é a faixa-título, onde a voz distorcida de Lynch é distribuída como elemento climático; mas tudo é sempre ‘jogado’ aos nossos ouvidos, sem esforço algum na construção atmosférica. Ás vezes o disco tenta andar próximo do Drifters do Dirty Beaches, mas um diálogo em algo tão mastigado assim definitivamente não se deve levar muito a sério.

Mayer Hawthorne – Where Does This Door Go (Republic Records) A-
Os dois primeiros discos do Hawthorne eram dois passeios muito bons (e inconsequentes na mesma proporção) de um cara que dedicou parte da vida a ouvir aqueles velhos artistas da Motown. Ele chega ao Where Does This Door Go, digamos, não dando continuidade ao trabalho com influências, mas sim mostrando o que aprendeu com elas: parte da base técnica do disco é moldada em potencializar o que ele sempre fez (mais falsetes, basslines todas no lugar, a organização das letras sobre sexo ligadas em esquetes, o ritmo é mais dependente do piano/teclado, mais elementos de hip-hop etc.), só que imaginado essencialmente contemporâneo – parecido com a ideia do Bruno Mars no Unorthodox Jukebox e conseguiu a proeza de transformar tudo em cacoete -, o que passa também pela sua lista de colaboradores, entre o rapper do momento, Kendrick Lamar, o Pharrell e a musinha Jessie Ware. O resultado é não só o disco mais coeso como também mais próprio que ele realizou, um objeto de devoção grandioso a um estilo que muitas vezes está à margem dos grandes registros de soul.

Robin Thicke – Blurred Lines (Star Trak) B-
A frustração começou no início do ano, quando falando sobre a faixa-título e sensação do ano, Robin Thicke dizia que se sentia um pouco egoísta em relação a seus discos e que a pessoalidade dos mesmos estava afetando o público. O que é curioso sobre essa declaração é que ser pessoal nunca foi desvantagem para elogios ou consumo, especialmente no R&B, mas sendo o Robin um fiel representante de um estilo que muitas vezes visto como de ‘segunda linha’ (assim como o Hawthorne, aliás podendo rolar até uma aproximação do Blurred Lines com o Where Does This Door Go) a recepção de seus discos nunca dizem muito sobre o quão interessante eles são. Dito isso, a mudança é bem menos grosseira do que parece onde se resume basicamente ao sumiço das slow jams; aliás a maior parte do álbum é imaginada através de Blurred Lines-música: um lugar incomum para o Robin, feita quase toda sob improviso e totalmente empurrada pelas suas influências (no caso, o Marvin Gaye, com o hit-disco “Got to Give It Up” de base referencial). Há 3 faixas que fogem a regra também; elas são, para o bem ou para o mal, veículos de rotina para os produtores convidados, e – independentemente de serem ruins/boas – enfraquecem a unidade do disco de um modo geral. Mas Blurred Lines, apesar de um disco menor de Thicke, funciona bem quando substitui a substância por virtuosismo, charme; e por investir na auto-consciência das letras, próximas da pastiche.

4 comentários em “Notas rápidas (II): Vampire Weekend, David Lynch, Mayer Hawthorne, Robin Thicke”

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