Notas rápidas: Sigur Rós, Jay Z, Ciara, Nick Cave

Algumas ideias rápidas só, coisa que dariam seus próprios posts em outro tempo, mas é um modo de post que eu devo utilizar a partir de agora com maior frequência, como meta de deixar o blog mais atualizado ao menos durante o mês de julho.

Sigur Rós – Kveikur (XL Recordings) C+
Assombrados pela fraca recepção do Valtari (o que é um tanto difícil difícil de entender, já que se trata de um greatest hits do Sigur Rós – no caso deles, mais pra greatest essays) a banda islandesa deixou bem claro que este disco iria dar uma nova tonalidade sonora a eles. Não é só o apelo ‘glacial’ do Sigur Rós que foi embora, mas uma percepção no mínimo curiosa de atmosfera que entra: em Kveikur é tudo histérico, pesado demais (o que é quase um contraponto ao que eles vinham tentando fazer desde o Von). O Laurie Tuffrey deu uma bela definição para o disco, uma ‘unfinished trip’, onde a agressividade é cega/reducionista a ponto de eles se preocuparem mais em caracterizar o material – e todo o dark ambient é usado, sim, como um fetiche – que dar consistência a ele. Se Kveikur está distante dos melhores momentos do Sigur Rós, também não é nenhum mau disco e funciona muito bem como um prelúdio (e parte dele é orquestrado a uma estrutura de soundtrack de blockbuster, em especial pela voz grave do Jónsi lutando fracassadamente a se destacar em meio a extrema agitação das faixas), mas não restam dúvidas de que essa ‘mudança’ deles será um perigo constante.

JAY Z – Magna Carta… Holy Grail (Roc Nation) D+
Deixando todo o marketing duvidoso de lado (e que nós já nos acostumamos este ano com discos igualmente fracassados: Random Access Memories, mbv, Tomorrow’s Harvet etc) este novo disco do Jay Z é frustrante não exatamente porque é ruim, mas por nos mostrar uma faceta redundante do rapper e demasiadamente obcecada em ser oca. Não é só estranho ele virar coadjuvante em parte do disco (ouvir: Holy Grail, FuckWithMeYouKnowIGotIt, Part II e BBC) – e principalmente, parecer satisfeito com isso – mas ser auto-referencial ao forçar um personagem-camisa-de-força que qualquer um esperava que eles estivesse livre há pelo menos… uns 15 anos. Em Picasso Baby, p. ex., ele se aproveita de uma obsessão por arte e seus grandes nomes mas, é claro, não porque tem de haver alguma coerência dentro da música, e sim porque Carter almeja o mesmo status de Picasso, Rothko, Koons e Da Vinci (e eu pensei que ele já tinha!). Ou em Somewhereinamerica, onde há o orgulho da crescente fetichização da cultura hip-hop (“twerk, miley, twerk”). É o tipo de coisa que eu poderia esperar ouvir do Jay Z nos anos 90, mas que dita hoje, transforma ele em nada além de um bobo.

Ciara – Ciara (Epic) B+
Mesmo com uma carreira que se assemelha a uma montanha-russa, algo que Ciara vem preservando em todos os seus discos a partir do The Evolution é manter uma mesma linha de raciocínio/coerência entre todas faixas (no caso, esse se divide em dois lados de uma mesma moeda: o romance-conto-de-fadas com o rapper ascendente Future, e as faixas menos intimistas do disco, onde o foco é no “e se”, o tempo que ela demorou até chegar a esse romance; e aí vem até um reflexo sobre a própria carreira em Super Turnt Up, com direito a réplica do refrão de “Promise” e rap dela mesma) a medida em que ela descobre sua amplitude estílica que, sim, é bem mais rica do que se espera de uma simples cantora de r&b: em Backseat Love p. ex., até o primeiro verso do refrão, já passeamos pelo brostep e o trap, sendo que a faixa em si se assemelha a algo do Michael Jackson à época do Thriller. (Isso sem contar que o disco cobre todo um nicho de hip-hop, onde ela se permite moldar pelos próprios colaboradores – entra a Nicki Minaj, e vem a faixa overproduced do disco; entra o Future com elementos meio dub, meio country-crunk etc.) Poderia transformar CIara numa diluidora, é verdade, mas é um trunfo sutil num disco onde até os momentos mais furiosos se convertem em soft r&b de primeira.

Nick Cave and the Bad Seeds – Push The Sky Away (Mute) C
Ano passa, ano vem (e dessa vez se vão 5) e eu sempre espero encontrar um nível de poeticidade na obra recente do Nick Cave que ao menos não faça feio diante do The Good Son. E já tem sido em vão há algum tempo. A partir do Murder Ballads, onde o Bad Seeds sofreu várias renovações, Cave e sua turma encontraram uma espécie de zona de conforto a princípio sólida, mas que em pouco tempo lhe começou a servir de pastiche: em Push the Sky Away a baixa instrumentação é mais um problema que uma tentativa de parecer minimalista (talvez por isso as últimas sejam as melhores faixas). Ao passo que de dois anos pra cá tivemos ótimos discos do Tom Waits, Bob Dylan e, na sua devida proporção, do Brian Wilson nos Beach Boys que transformavam sem medo a potencial carga dramática da velhice em auto-paródia, Cave já não tenta mais demonstrar a mesma autenticidade vocálica de outro tempo e nem tem o mesmo vigor destes outros artistas para manter o pique da (falta de) seriedade pelos poucos 40 minutos do álbum.

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