Total memory access

Lembro do meu primeiro contato com o Disclosure há cerca de um mês, era uma matinê com umas 30 pessoas só e a música era “White Noise”, um house-pop que me pareceu elegante em excesso e uma estrutura totalmente dependente do refrão frágil. O que me chamou a atenção, na verdade, era o vocal da Aluna (do duo AlunaGeorge) e o esforço de inserir um elemento desconhecido num nicho que ele não domina (a música é mesmo baseada num grau de choque de voz-instrumental).

Quando eu resolvi procurar sobre a música, mais uma constatação do quanto a internet pode ser fascinante e carrasca ao mesmo tempo (você jura que sabe muito, mas não sabe nada): eles já são bastante conhecidos há pelo menos um ano e meio. Mas minha maior surpresa é o quanto eles têm sido bem aceitos, afinal o que vem marcando a música eletrônica de alguns (vários) anos pra cá é o total oposto da simplicidade estílica do Disclosure (apesar de que eles receberam algumas comparações – equívocas – com o Burial), que tá mais pra banda de colégio formada no Reino Unido pré-Basement Jaxx. E esse interesse neles ultimamente vem modificando minha visão não só em White Noise (que hoje vejo mais como um conto sobre o desespero no romance por diferentes visões, e dá pra dizer com segurança que é uma das 5 melhores músicas que eu ouvi esse ano) mas a própria noção do que seria a tal “simplicidade” pros irmãos Lawrence. Eles pensam cada faixa de maneira bem acessível de acordo com os primórdios do UK-garage e tentam extrair a tensão, ou melhor a textura, numa relação que não é exatamente entre os vocalistas e a produção dos instrumentais, mas está situado entre os dois.

A curiosidade de ter cantores bem-sucedidos do R&B britânico como a Jessie Ware, Eliza Doolittle e o Jamie Woon transforma-se na descrição do que seria o impacto de cada faixa do Settle. Cada um está alí potencializando seu estilo numa gama de ritmos e tons sem precisar anular o tal simples álbum de dance britânico do Disclosure (pegando a colaboração com o vocal do Friendly Fires, p. ex., uma coleção de falsetes que soterra synths e vice-versa, as beat-driven como “Grab Her!” que tem sample do J Dilla, ou “Confess to Me” que se apropria da imagem musa-disco que a Jessie Ware fez recentemente em “Imagine It Was Us” etc.) É bem como o Jamieson Cox disse, “uma relação parecida com a entre treinador/jogador de futebol”: os artistas estão apresentando, taticamente, tudo que eles costumam apresentar, mas moldados pela unidade estética que forma o Settle; como quando um jogador tem seu próprio estilo e executa aquilo que o técnico lhe ensinou. E com isso, Howard e Guy nem precisam ser mais que simples artesãos para dar consistência ao disco de estréia. Aliás, arrisco até dizer que as ideias diretas/simples que eles tem de música electronica e música pop os levou a não cair em armadilhas do “4” da Beyoncé e o “Free The Universe” do Major Lazer, duas quase-obras-primas que tem praticamente a mesma linha de raciocínio do Settle, mas sem o domínio da mesma.

Nessa ótima matéria do Guardian sobre os irmãos fica claro que, apesar do grande senso de autenticidade, a ideia do Settle é ser menos um pensamento definitivo que estimulante: o Guy tem só 22 anos, o Howard tem a minha idade, eles não bebem, não fumam e nem gostam de fazer grandes shows (e há 3 anos nem de música eletrônica gostavam). Eles sabem que ainda há muito o que se descobrir, o que é tão reconfortante quanto assutador.

Um comentário em “Total memory access”

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