Sobre o 20/20 Experience

Ou não exatamente sobre o disco, mas a recepção previsivelmente tímida (mesmo entre os elogios) que o cerca.

O Alexis Petridis falou no Guardian que é um disco “sonoramente rico”, mas as letras são horríveis. Ok, isso não serve para todos os discos do mundo e nem mesmo pra todos do Timberlake, mas o 20/20 Experience age sempre dentro de um contexto e um conceito muito claro sobre a figura do Timbaland (ou tudo que aconteceu entre o seu apogeu lá na época do Futuresex/Lovesounds até o maldito que conhecemos hoje). As metáforas pueris (Strawberry Bubblegum) e o melodrama palpável (Mirrors) são apenas consequências de um processo estético que se obriga não apenas a ser coerente com imagem sofisticada vendida pelo ilusionista Timbaland mas também com toda a carreira dos dois artistas até aqui.

É como um equivalente musical de Tetro do Francis Ford Coppola: lá o diretor escrevia uma carta de redenção felliniana sobre a carreira pós-Apocalypse Now e que era considerado, num consenso geral ou ruim ou bem abaixo de suas obras mais famosas, estilizando quase tudo o que de essencial havia em O Poderoso Chefão numa roupagem que o enaltecia mais ainda (“o diretor da Nova Hollywood agora faz filmes de arte”). Quer dizer, o que há de artificialidade em Tetro, há ainda mais de precisão do diretor para lidar com superfícies. Do outro lado da moeda, o Timbaland vive uma situação parecida; tentando provar que sua especificidade ainda vale mais que as produções de rotina do David Guetta e praticamente implorando para você esquecer dos Voltas e Hard Candies que ele tem feito nos últimos… 7 anos? (mas o segundo Shock Value é bem bacana). Claro, após já ter declarado até que já não era mais um elemento necessário na música pop, as camadas vocais sobrepostas e o experimentalismo entre as batidas aceleradas não colocariam Timbaland de volta ao seu tão sonhado status de 2006, mas como o bom mago que é, ele trata de subverter a ideia de produtor fracassado para elevá-lo a algo supostamente inacessível. A figura do JT como o clássico soulman, o excesso de falsetes, a duração das faixas e o status de épico que exigem, um toque minimalista aqui e ali etc.

Este tipo de detalhes ligados essencialmente a prazeres de superfície (que Suit & Tie explora muito bem) não são mais que meros impasses criados por Timbaland, objetos querendo te desligar a todo instante do que é realmente primordial no disco (viu Fact? viu Tinymix Tapes?) e pegar narrativas mais “marginais” são pistas e confortos. Um tratado sobre o amadurecimento do Timberlake (só em Mirrors há tanto de N’ Sync, quanto de Justifield, tanto de Futuresex/Lovesounds quanto de 20/20 Experience…) e um estudo sobre a megalomania do Timbaland (o reflexo do maximalismo nas faixas um tanto nervosas que se aproximam do My Beautiful Dark Twisted Fantasy) são um ótimo ponto de partida.

^-^

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