Save the nation

O já tradicional post a sobre as primeiras impressões no circuite de 2013 e, por consequência  sobre vários filmes do Oscar. Já deixando claro que sim, é sempre uma bobagem discutir sobre merecimento ou não dele, de comprar os filmes indicados como os melhores do ano porque trata-se de uma premiação publicitária, conservadora e o caralho a quatro que o Clint Eastwood mostra muito bem no final de A Troca; mas este é sempre um momento curioso do ano: nunca pensei que o dia chegaria na padaria aqui perto e o padeiro taria comentando sobre o novo filme do Michael Haneke (!) e também todo esse acolhimento dos mais variados públicos com o Argo como filme-camarada é muito bacana e, sei lá, é um prazer a mais pra quem gosta de cinema. Acho. Certamente acompanharei esse ano esperando que seja tão divertido quanto o último Globo de Ouro.

Pintou uma decepção aí com o novo da Kathryn Bigelow, A Hora Mais Escura, fácil o seu pior filme. É até esquisito você falar mal de um filme que na sua mente já não tinha chances de ser ruim, principalmente depois de toda a polêmica envolvendo a “glorificação a tortura”, já ensaiava um discurso pra alguns amigos que já vinham criticando ele há algum tempo (e, claro, a carreira sólida da Bigelow me permitia pensar desta forma). O problema de Hora não é necessariamente a respeito de suas cenas de tortura e até que ponto elas valeriam a pena existir, mas está indiretamente ligado a elas: a encenação deslocada (apesar de sempre procurar uma aproximação com Guerra ao Terror) nunca sabe em exato a que opção deve seguir; se ele é crítico ou bem intencionado, se é vibrante ou um filme de horror, etc. E não demoram que estes questionamentos apareçam ao espectador, e quando eles aparecem a única resposta que a diretora nos dá é que ela está filmando fatos (que ainda são duvidosos aos olhos de muitos, talvez essa seja a maior razão deste filme existir), como uma operadora funcional num documentário impessoal. Jessica Chastain não é má atriz, mas se afunda junto com o tom desintegrado do filme que até ameaça levantar em sequências fortes do último ato, mas não esconde sua relevância tão necessária quanto trivial.

Uma agradável surpresa foi o meu primeiro contato com o cineasta alemão Christian Petzold, Barbara. E se a nacionalidade do sujeito chama atenção numa simples menção, ele também não faz questão de estar distante de seu peso histórico: trata-se do drama de uma médica que quer fugir da Alemanha Oriental da década de 80. O lado mais desconfortável, ou melhor, mais paranoico de viver num Estado com perspectiva traçada mas ideologicamente sem óptica. Petzold não deixa de ter sua dose de momentos mellvilianos, como todos os bons exemplos recentes do gênero, mas é curioso como em em sua essência (ou em certos planos-chave) ele não poderia ser mais distante de um Caçada ao Outubro Vermelho: todo o senso de dramaturgia crescente do diretor se liga aos atores, especificamente porque Barbara vive sobretudo dos prazeres e/ou vícios de uma grande interpretação.

O Som ao Redor é um pouco mais irregular do que eu previa em seus passeios destoantes de uma tomada para outra. Neste sentido creio que o maior elogio a se fazer é o controle do Kléber Mendonça sobre essa estrutura meio desengonçada ou o uso equilibrado de alguns clichês de cinema contemporâneo constantemente vampirizados por aí (as estórias que vão se ligando, os personagens sempre sendo sintomas de algum sentimento – ou grandes arquétipos – e o extracampo). No fundo, tudo o que ele não tem de tão bom, sempre me parece como uma parte necessária dentro dos dois elementos primordiais pro diretor: o espaço (cinematográfico e social) e a tensão, sendo o mais envolvente do filme, logo onde Kléber encontra a linearidade para alguns detalhes particulares por vezes deslocados de seu universo.

Lincoln é mais um sinal da ótima fase que vive Spielberg (a melhor de sua carreira, aliás) retornando algumas das práticas experienciadas no torto Cavalo de Guerra e que aparecem aqui felizmente sem precisar de tanta decoração. Estamos aqui, vendo um drama humano com uma consciência histórica pueril costumeira na carreira de Spielberg (o Abraham Lincoln como uma figura imaculada); mas o que material nos fornece permite ao diretor olhar para o sujeito com certa consciência mítica, o categorizando como um homem preenchido nas suas relações sociais e familiares. É quase um filme de ação da década de 80. E claro, certamente se não fosse este juízo duvidoso que Spielberg faz de seus personagens, não teríamos aqui o Daniel Day-Lewis tão calmo/certo de sua posição e por isso mesmo carrega todos os passos da narrativa como um fardo – justificando a fotografia escura – como contraponto da Sally Field e Tommy Lee Jones, dois personagens sem a mesma sorte do Lincoln e que buscam no filme inteiro aquilo que ele sempre teve.

Outra surpresa foi O Voo, um dos melhores do Zemeckis, um drama humano sem vocação para mesquinharias e com um grande Denzel Washington em cena. Os primeiros minutos já impressionam: o corpo nu de Katerina passeia por uma câmera estática enquanto Whip – notável, numa noite mal dormida – tenta dar um cochilo. Há algo de Abel Ferrara nestes momentos mais fortes, no modo em que passa entre o repulsivo e o carismático ao lidar com um alcoólatra  se Zemeckis não fosse um autor tão clássico ou essencialmente visual dava para tirar daquilo uma obra visceral. Mas há sim uma certa sobriedade entre as situações mais perigosas, como o flerte com a fé/religiosidade (onde para cada cena motivadora, Zemeckis insere um contexto irônico) e, acima de tudo, há uma consciência de que o único conflito aqui é o de Whip com as substâncias químicas – independente das injustiças, dos atos moralizantes ou das atividades otimistas que uma resolução traga.

E sobre Django Livre, o Tarantino mais gordo e com a melhor trilha sonora: comentei com muita gente a época do lançamento do Centipede Hz que Animal Collective e Tarantino, por melhores obras que eles façam, por mais obras-primas que eles tenham (e não são poucas!), seus discos e filmes sempre me deixam com uma sensação de cansaço e esvaziamento ao término. É como se tudo que eles nos pudessem entregar já estivesse ali e o que vem depois é só ressaca, o que sempre me impediu de me animar com qualquer novo lançamento de ambos. Não me surpreendeu que seus pontos mais baixos (ainda que bons) tenham saído no mesmo ano.

4 comentários em “Save the nation”

  1. A Hora Mais Escura: concordo em partes contigo, porque irrita o desleixo da Bigelow com qualquer ponto de vista… agora outra coisa é tu levar isso para o filme de um modo geral, o que eu julgo um completo equívoco. A construção da Maya + a interpretação da Jessica Chastain, que creio eu ser o maior mérito dele – a obsessão dela na investigação – tem um fator expressivo sobre o espaço cênico semelhante ao da personagem do Jeremy Renner em Guerra ao Terror. Julgo ambos, antes de tudo, como filmes sobre relações de trabalho.

  2. pô, castaneo quando eu falei que estava indiretamente ligado as polêmicas envolvendo as cenas de tortura, achei que tava óbvio que era impossível não associar essa ausência de ponto de vista com o filme ‘de um modo geral’. mas vamos lá: não existe “construção da maya” e menos ainda “atuação da jessica chastain”; a maya é aquela garota do início assustada com a tortura mas consciente do papel da mesma, ao longo do filme ela vai se transformando num gancho entre a excessiva preocupação da bigelow com os fatos históricos (e é aí que entraria uma suposição de que ele tem sua boa dose de propaganda, o que não chega a ser um demérito) e qualquer coisa que eu possa chamar de filme. é como numa balança, sendo que a primeira pesa mais.

    1. Entendo sua ideia, mas os fatos estão relacionados a fixação da Maya com a investigação. Estar lá em excesso é quase uma obrigação da Bigelow.

  3. obrigação? lol essa devia ser mais ou menos a intenção dela, mas acabou ‘sacrificando’ o filme inteiro, então defender essa tese, pra mim, seria como defender algo que está bem além DO A HORA MAIS ESCURA. ela confunde a obsessão da personagem com a obsessão dela.

^-^

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