no love deep web

amour11Lembro de uma frase dita pelo seu Élcio mês passado antes do início da sessão de Showgirls lá no CESP, era algo como “todo bom diretor um dia irá precisar de artifícios que costumam ser categorizados a um mau diretor”. Essa frase, é claro, falava sobre a incitação do que era dito por mau gosto no filme de Verhoeven, mas me diz muito sobre o cinema do Haneke (ao contrário de Verhoeven, que não se sente nada superior as situações/personagens mostrados, Haneke filma sempre com a convicção calculada do que parecerá desagradável). O cinema que é por hábito um pouco injusto, frio, robótico e que as vezes em sua própria insistência em ser sádico, acaba refletindo muito mais um mal estar do diretor que de seus personagens. Mas não há o que condenar nisso: os mecanismos emocionais utilizados por Haneke em Amor deixam claro que não se trata de uma crença na relação de Georges e Anne, mas um olhar do seu cineasta a um tipo de relação a qual ele não está familiarizado (há uma notável artificiliadade nos atores). O que há de mais verdadeiro, se não, no cinema de Haneke está em Amor; nos seus enquadramentos vidorianos do apartamento invadindo os problemas do casal sem conseguir ser íntimo com sucesso. Cresce como cinema sobre atores (artificial, de novo) a partir da Isabelle Huppert em A Professora de Piano – e que volta em Amor como uma presença simbólica -, onde o austríaco encontrou algum vínculo para sua habitual perversidade: soma-se a frieza de Haneke a “técnica” costumeira dos “atores de prestígio” e seu cinema é cada vez mais pornográfico; disfarçado (inevitavelmente há quem vá ver Amor, Fita Branca e Caché como seus filmes mais contidos), mas pornógrafico. Nesse caso, trata-se mais de um filme sobre humanidade que sobre amor.

***
Pensando no porquê desde a primeira ouvida do disco solo do Paul Banks, eu lembrava do Claridão do Silva e toda vez que eu escutava esse e lembrava do Banks ele crescia um pouco na minha percepção, penso que (além dos dois serem uma estréia – ok, ignorando aquele alterego idiota do Banks de 2009) eles nunca conseguem formar uma unidade, ou mesmo criar um ponto-chave que localize uma proposta. Os dois discos são bons o suficiente pra criar algumas das músicas mais instigantes que eu escutei do ano (Falando Sério de um lado, The Base do outro) e ficam por aí. Parece que Banks e Silva se auto-subestimam ao estacionarem num conforto do “disco de algumas faixas”, “de alguns hits”, etc. Nunca mostrando qualquer autenticidade nos registros. O Claridão tem sido previsivelmente superestimado, provável que seja por ser o primeiro (ou um dos primeiros) aqui no Brasil a entender plenamente esse tempo em que vivemos, que não tenta separar música em “nichos” – ele se apresenta como resultante mais de movimentos que de gêneros, sendo o chiclete e o experimental convivendo em harmonia numa mesma faixa e o disco inteiro é algo entre Radiohead e Guilherme Arantes (sendo a influência desse escancarada na proposta melódica de algumas músicas beirando o melodrama). Mais ou menos como o Banks, que dedica metade do disco em tentar criar uma sonoridade pertencente só a 2012 (porém bem mais irregular que Silva: aqui o Banks distribui cada elemento, o que torna essa pretensão de fazer um disco tão atual frustrada mas funciona em partes dentro do pensamento mais amplo) e a outra é pra se aproximar com o que a gente já conhece vindo do Interpol; formando um post-punk que já nasce debilitado mas se levanta de vez em quando graças aos tons do Banks – mais ou menos como ocorreu no último disco do Interpol. O problema é esse, são os “mases” de ambos; o aperfeiçoamento vem pela metade, nunca sequer tentando concluir aquilo que é tão interessante a princípio.

2 comentários em “no love deep web”

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