20 melhores discos de 2012

346coverChegando a segunda parte dos melhores do ano com os discos. Algumas alterações de última hora, espero não ter sido injusto com alguns que eu tive paciência e contato o ano inteiro em relação aos últimos discos lançados e que não tiveram tantas audições assim. Vocês vão notar que não tem nada sobre alguns EPs que eu tanto gostei, pois é, pra não ficar muito extenso (hoje, não quero mais que a lista de fim de ano se transforme num carnaval) mas vale uma lembrança ao menos aos ótimos trabalhos do Burial, João Brasil, Diplo e Katy B. Assim como nas músicas, são só 20 + menções honrosas por uma obrigação pessoal; então notem aí que nas menções há muitos discos que eu tava lutando pra ver dentroda lista (o do Animal Collective especialmente, que a cada vez que eu ouço cresce um pouco). E mais uma vez com um veterano em primeiro, vamos lá.

Menções honrosas: Centipede Hz (Animal Collective), Tramp (Sharon Van Etten), Pink (Four Tet), Nicole and Natalie (Nina Sky), Coexist (The xx), Push and Shove (No Doubt), Electronics Without Tears (Frederick Judd), Shields (Grizzly Bear), Dependent and Happy (Ricardo Villalobos), Quilombo do Futuro (Maga Bo), Caravana Sereia Bloom (Céu), Poder de Sedução (Dona Onete), channel ORANGE (Frank Ocean), ‘Allelujah! Don’t Bend! Ascend! (Godspeed You! Black Emperor), Assimilating the Shadow (Ricardo Donoso), I Know What Love Isn’t (Jens Lekman), A Mágica Deriva dos Elefantes (Supercordas), Battle Born (The Killers), Valtari (Sigur Rós), Sweet Heart Sweet Light (Spiritualized), Treme (Gaby Amarantos), Ohnomite (Oh No), Abraçaço (Caetano Veloso), Tempest (Bob Dylan), The Seer (Swans), Kill for Love (Chromatics), Psychedelic Pill (Neil Young), R.A.P. Music (Killer Mike), Le Voyage dans La Lune (Air), Clear Moon (Mount Eerie), Banks (Paul Banks).

beach-house-bloom20. Beach House – Bloom
O shoegaze finalmente deixa de ser uma obsessão para o Beach House e em Bloom eles adquirem uma sonoridade materializante, mas é claro, cada dia mais ambígua. Cada faixa do disco preenche uma narrativa diferente e lynchiana, mas tenta (e consegue) formar entre todas uma unidade inquietante de obscuridade que tanto Legrand corre atrás. É como se alí eles encontrassem um modelo ideal para um sucessor do Teen Dream (que, apesar de claramente não ser o tipo de preocupação do processo criativo do disco, é um característica que ninguém deixaria passar em branco) e menos encontrassem nele extensões daquelas projeções de momentos únicos do aproveitamente do dia-a-dia e mais um desprendimento dessas noções essencialmente redondas da vida. Bloom ainda trata do Beach House meio lo-fi, meio melancólico, mas com mais base (não necessariamente melhor) para seu próprio futuro.

ModernLove12091219. Andy Stott – Luxury Problems
Este disco do Andy Stott foi muito elogiado pela solidez conseguida ao se encaixar entre os mais variados estágios de misturas sonoras e, de fato, ele se arrisca um bocado, mas creio eu que a maior força do Luxury Problems vem da segurança com que o músico carrega um jogo perigoso já consciente de que parte do material iria inevitavelmente repelir quem ouve. Stott tem total discernimento da burocracia que um disco desses poderia ser, e por isso mesmo seus maiores experimentos já parecem estudados de antemão (é como se ele fizesse um considerável rework de uma obra-prima já velha conhecida nossa, o que me faz admirar ainda mais o disco) com sua preocupação essencialmente se tratar de tornar tudo palatável e retirar toda agressividade que a sonoridade causaria – mesmo que em alguns (poucos) instantes a situação fujam ao controle dele.

tumblr_m8sruonNRg1r9ykrko1_50018. Tom Zé – Tropicália Lixo Lógico
O disco que parece mais um sintoma de tudo o que Tom Zé viveu ao longo da carreira, mesmo contendo lá seu conceito, ele mesmo o faz com uma sensação mais de autoironia do que de satisfação. Como dois terços do disco tem relação com tropicália e só um com o lixo lógico, o músico se dedica mais a romper com as barreiras que costumam descrever sua sonoridade (um bom motivo para ter Mallu Magalhães e Emicida dentre os convidados) e flertar arriscadamente com a balada indie-pop e o hip-hop aceitando-os como consequência de seu ideal de reflexão sobre tropicalismo. Se é o disco mais acessível dele em um bom tempo não é por qualquer motivo, mas pela própria visão de vanguarda de Tom Zé ter mais relação com o impacto (dos artistas, dos flertes) do que com a sonoridade propriamente dita (e a estruturação das músicas continuam sendo o forte dele, com deias rítmicas e dos riffs ampliados).

ktl120v_5mmgatefold01031217. KTL – V
Universalmente apontado como o disco menos acessível do KTL, V é na verdade mais um relato da percepção de dark ambient do Peter Rehberg e Stephen O’Malley com uma precisão em atmosfera que mesmo seus discos mais gordos alcançaram. É acima de tudo, um disco que não enxerga a narrativa como um peso a ser carregado, mas como um aliado na imersão sonora (tanto que aqui ela é, para todos os efeitos, subversiva). As quatro primeiras faixas sugerem em sua passividade um recorte de algo grandioso, como se o duo quisesse primeira estabelecer o fluxo sonoro para depois entregar a matéria do disco (e você se pergunta porque ele teria só 5 faixas…). Chegamos a Last Spring: A Prequel e percebemos que o KTL pedia por algum espaço anterior ao drama que nos mostra a faixa; com um Jonathan Capdevielle num sotaque francês que lembra algo recente do Tom Waits ou Bob Dylan. Trata-se de uma única experiência fragmentada, onde Rehberg  e O’Malley nos mostram que a “ordem dos fatores não altera o produto”.

macdemarco216. Mac Demarco – 2
Não é nostalgia, não é simplicidade; na verdade, é um pouco de aparentar nostálgico, de aparentar simplicidade. O que vemos em 2 é um pouco clichê, mas é uma frase que define bem qualquer bom artesão contemporâneo: um material comum (o olhar para uma particularidade além da sua, e de um tempo que talvez não seja o seu) transformado em algo mais forte nas mãos de um grande artista. Demarco é habilidoso o suficiente para explorar bem as relações de voyeurismo, numa narrativa de cidade-fantasma do interior. E são essas relações que possibilita um apreço instantâneo e inexplicável por 2. Na verdade, é neste “material comum” que você encontra a essência do disco e algum argumento por esse bem-estar sentido após uma audição; apesar de ter sido tão bem-aceito, creio que pra quem curte levantar cedo para não ficar fazendo nada em especial, ele deve ter um gostinho a mais (risos).

0bbcdd5415. Julia Holter – Ekstasis
Julia Holter é uma destas raras artistas com um olhar atento ao que o Sufjan Stevens já veio desenvolvendo ao longo da última década, principalmente em como ela se estabelece como uma cantora de estilo, mas na mesma faixa se sente a vontade o suficiente para flertar com outras formas (o folk morto, a música erudita) e outros arquétipos que não são exatamente amistosos do que ela propõe em Ekstasis (a duração das faixas em especial, mas vale citar a própria estrutura instigante das músicas, com uma instrumentação sinistra que só surge quando o objeto se divide em pólos ou no seu início/fim). Essa vontade de Julia em não ter limites e ao mesmo tempo trabalhar com algo tão limitado, nos revela um ponto de equilíbrio nas melodias que se desenvolvem em Ekstasis; de seu timbre adocicado a onde tudo retorna ao popismo do disco (como para Stevens num Illinois), Julia quer nos envolver na emoção de seu timbre para logo após nos mostrar que isso não impõe qualquer satisfação ao Ekstasis. Uma autêntica contrabandista, eu diria.

stream-flying-lotus-until-the-quiet-comes14. Flying Lotus – Until the Quiet Comes
Mais uma viagem musical de Flying Lotus em busca da sonoridade potencialmente onírica, cada vez mais silencioso (duh!) e em um projeto que só parece fazer sentido em sua totalidade. Ele, que tem sido um dos produtores mais desafiadores do cenário eletrônico atual (e não sei se devo classificá-lo mais dentro do nicho da música negra) apresenta-nos um disco claro, solto, sem querer tanto as idealizações do Cosmogramma; é uma espécie de reafirmação mais de uma unidade que ele já forma lá desde o Los Angeles. Ellison nos desafia – ele tem total consciência dos artifícios maneirísticos que irá usar -, nos põe frente a frente ao painel de camadas densas movimentadas mas que permanecem distantes. Acima de tudo, o que ocorre em Until the Quiet Comes é um jogo de manipulação nos synths espaciais e o conunto dos instrumentos, por um artista detalhista o suficiente para não deixar nenhuma amadilha por aí.

bat-for-lashes-haunted-man13. Bat for Lashes – The Haunted Man
Conversando com a Bia outro dia sobre a onda de cantoras ligadas a misticismo com o baroque pop pós-Kate Bush que, claro, sempre esteve vivo, mas ultimamente o número tem se concentrado ainda mais e a atenção que elas recebem é notória, cheguei a conclusão de ser impossível (ou pelo menos, não ter escutado até hoje alguma música me provando o contrário) abraçar este lado clássico sem reconhecer nele um apelo camp – por aí vem a razão de eu ignorar sumariamente gente como a Tarja Turunem e Loreena McKnit. Natasha Khan vinha de um disco perigoso (não por ele mesmo, mas pelo que ela seria a partir dalí), mas aqui ela surpreende desde a primeira música divulgada, Laura, onde encontramos o que de melhor ela poderia nos dar a essa altura: uma faixa estruturalmente clássica e sem desespero pela fábula, e nem pela realidade também, ela trata mais de uma ferida que naturalmente se abre após uma “mudança de planos”. A impressão também se confirma em All Your Gold, uma música muito, muito simples e onde as comparações com Somebody That I Use To Know são totalmente justas. E The Haunted Man se segue mais ou menos nessa ideia: sai a Natasha-fabuladora, entra a Natasha-cronista e reconhecedora da simplicidade do seu lirismo.

CS1943353-02A-BIG12. Traxman – Da Mind of Traxman
Assim como o Treme da Gaby Amarantos, o Traxman tem um pensamento claro em relação ao movimento em que se insere, mas ao transpor este estilo para o Da MInd of Traxman (um dos primeiros registros do juke fora das boates do gueto) ele assume uma posição pretensiosa e necessária: a de levar e representar o juke dentro de um cenário mais amplo, e com isso deixá-lo mais arejado ao novo público almejado. Se por um lado esse projeto arriscado do Traxman talvez desagradasse os fãs mais ortodoxos do juke, por outro ele une melhor uma informação rítmica a outra, deixando os mais céticos engolindo sapo. E nessa posição de An Introduction to Juke, devo dizer que o Da Mind of Traxman se sai muito bem, e, vale lembrar que nem só de sofisticação vive o disco: como uma Galera da Laje ou Ela Tá No Amar, estão lá as Callin All Freaks, que com seus samples vocais atordoados e o instrumental buliçoso não deve nada ao sets do Rashad.

9497811. Keith F. Whitman – Generators
Whitman, hoje um músico de guitarras e sintetizadores, tem uma percepção de seu próprio material que a princípio deve repelir a maioria: ele pensa em Generators como uma experiência direta ao físico, como um impulso ligado esteticamente e cerebralmente ao raciocínio de quem ouve. Mesmo que eventualmente essa ideia não seja aplicada a risca para muitos (eu mesmo, seria difícil encontrar algum local que quisesse ter uma Generator em seu set), com uma maior atenção aos synths modulares pode ter o mesmo efeito. Como este conceito por si só já poderia nos dar a certeza qie Whitman não está para brincadeira, a grande jogada de Generators (que talvez nem deva ser considerado um disco, mas um anúncio dele) está relacionado com a harmonia da profusão estílica do músico eletroacústico. Tem uma ingenuidade um tanto inflada no tom crescente das faixas, porque essa talvez seja a grande utilização de synths essencialmente contemporânea.

210. Sufjan Stevens – Silver & Gold
Raros são os bons registros de Natal (creio isso ser uma unanimidade) muito por os artistas misturarem crenças e a mitologia por trás da festa num objeto comum demais, sem particularidades que fazem parte dos seus respectivos catálogos; é como se eles entrassem num catálogo que nem eles mesmo sabem exatamente de onde se originou. Os bons registros, que devem ser resumidos em alguns discos do Elvis Presley e do Frank Sinatra, também não entregam muita vantagem autoral em relação ao resto do material deles, mas enxergam entre aquelas velhas conhecidas canções alguns sentimentos do Natal-festa que geram a empatia de muitos ano-ano: de repente a nostalgia de encontrar os amigos, o calor e/ou frio que o tempo gera e algumas tradições não abandonas sem-saber-o-porquê estão alí resumidas em músicas como Silent Night, que antes soavam tão impessoais. É deste ponto de partida que o Sufjan Stevens (acrescentado aí que elas podem sim estar dentro do estilo dele) constrói algumas das 59 canções definitivas sobre Natal.

nas-life-is-good-album-cover19. Nas – Life Is Good
Facilmente confundido como um retorno de Nas às convenções do hip-hop, o Life Is Good trata-se mais de um disco jazzista sobre um cara que não se sente confortável com os rumos do estilo; e por isso mesmo, tenta projetar o que ele já fez traduzido no que ele acreditaria. A melhor música do disco, Stay (sobre sua ex-mulher, Kelis), pede por uma instrumentação a altura dos versos fortes dele, mas Nas sabiamente prefere não se importar tanto com a grandiosidade que poderia ser a faixa e se preocupa em dar algum valor melancólico a uma frase como “I want you dead under 6 feet of soil”; e para isso nada mais apropriado que mergulhar em cima de um sax. A excessão do melodrama gerado por Anthony Hamilton em World’s an Addiction, nem todas as colaborações parecem ajustadas ao contexto do Life Is Good, mas ele é sóbrio, justo, honesto, furioso, seguro e inspirado como Nas já não era há tanto tempo.

dirty-projectors-swing-lo-magellan8. Dirty Projectors – Swing Lo Magellan
Vindo de um projeto divisor-de-águas no finzinho da década passada como o Bitte Orca, Swing Lo Magellan talvez pareça primeirament um disco “menor” por Dave Longstreth se definir quase como um artesão entre as harmonias vocais (da voz esquisita dele/a voz naturalmente bela da Amber Coffman) e incluir lugares-comuns e mais lugares-comuns entre eles. Mas não se engane, afinal se o Bitte Orca era sobre a percepção dos Dirty Projectors em vários nichos bem definidos (de Justin Timberlake a TV On The Radio), Swing Lo Magellan é sobre a percepção do Longstreth a respeito do próprio grupo: vários elementos comuns ao grupo vão saltando ao redor das faixas (a textura dos vocais de fundo, a percurssão em forma de palmas) e o que capitão objetiva é basicamente dar uma tonalidade ao menos mais robusta a elas. Se não é tão grande quanto o anterior é porque eles se desprendem de tratar de gêneros e partem em direção a uma ideia particular a cada música, que talvez um ideal bem mais seguro para o grupo.

tumblr_mc42sySsmm1qjhiyqo1_cover7. JBM – Stray Ashes
Jesse Marchant, que começou como um cantor padrão de folk contemporâneo traz aem Stray Ashes uma sobriedade que o próprio material do disco as vezes se recusa a aceitar (“Given all I can for the last time” – sinceridade não lhe falta, desde literalmente o início do disco). O que estamos dispostos a encontrar aqui é definitivamente um  mundo mais cinza; de um espaço seco, muito bonito a primeira vista e que quanto mais você se aproxima, mais nota que toda aquela beleza não diz respeito  exatamente ao esperado (não chega a ser uma surpresa que todo o processo criativo dele se deu dentro de um cabana no meio de montanhas). A maioria das comparações com Bon Iver me parecem pura preguiça, afinal mesmo em seus momentos mais perfeccionistas (a tonalidade das cordas criam uma dicotomia de desespero x esperança; a voz sufocante do Marchant que se inicia numa comunicação difícil, mas pela textura escura/reconfortante te envolve quando menos espera) Stray Ashes ainda carrega aquela ingenuidade típica da influência country, da essência ser voz-violão.

bruce-springsteen-wrecking-ball6. Bruce Springsteen – Wrecking Ball
É uma pena você ver o Wrecking Ball em primeiro lugar na lista da Rolling Stone, sabendo que o disco é ótimo mas lamentar que isso aconteça. Muito porque as publicações atualmente dizem tão pouco sobre não só o que o Bruce Springsteen vem feito, mas porque reduzem a força de tudo que ele vem tentando falar há 40 anos sobre a América idealizada e América real. Há dois modos de ver o disco: no primeiro é como um sucessor do Working on A Dream e naturalmente, buscando uma fase menos redutora de seu ponto de vista político, ele prefere dar ênfase aos contos pop melancólicos; no outro, é um músico pouco animado em atualizar sonoridade ou trazer qualquer retoque moderno nas composições, mesmo que previsivelmente ele esteja falando sobre algo tão novo como o governo Obama e a crise financeira de 2008 (o que me faz lembrar de Além da Vida, do Clint Eastwood). Vale dizer que Wrecking Ball é muito bom pelos dois, mas o segundo me parece um resumo ideal para os últimos discos de Springsteen terem essa recepção esquisita.

raime-LP5. Raime – Quarter Turns Over A Living Line
Joe Andrews e Tom Halstead sabem bem lidar com formas. Este primeiro disco deles cresce quando você entende que profusão e superfluidade podem ser termos totalmente opostos. Quarter Turns é magro. Magro até demais, pra quem tenta ligar industrial a doom metal, dubstep e por aí vai. O que os dois querem é formular sua própria imagem daquilo imaginado de antemão por quem ouve; é uma mesma estética recriada onde cada forma não requer uma sequela em sua junção, porque todas as faixas são minimamente estudadas para não sofrerem com isso, elas são totalmente enxutas, pensadas como frágeis mas substancialmente parecem mais pesadas e ameaçadoras. E funciona, porque é um modelo estético que permanece na mente enquanto a essência é modificada. Sem manobras a mais, é só a atmosfera claustrofóbica que damos conta de encarar.

tumblr_mfqbdd2AqE1r2fdeyo1_5004. Fiona Apple – The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do
Como no último disco do Nas, Fiona Apple também reflete uma insatisfação, não com a má interpretação de algo que ela ajudou a definir melhor, mas sobre ela mesma. O que vemos muitas vezes no The Idler Wheel são cacoetes da artista expostos não como feridas em um corpo, mas um sintoma da crise (eterna no momento) que ela nos mostra totalmente sincera. Tudo parece direcionado a figura de Fiona, construindo um faceta a cada música (mas todas direcionadas a uma mesma insatisfação dela, que é uma estudante aplicada desses estados expostos no disco) da ironia a angústia, frustração etc. Isto sem nunca parecer algo muito particular: a vontade da Fiona é tornar sua figura mais próxima de quem ouve com a crueza daconstrução lírica e os arranjos pontencializados, como nem no When The Pawn ela conseguiu. E é partindo dessa figura que você, intimamente, percebe que a figura “caricatura de naturalista” usada tanto por ela, é dissecada no disco como uma vontade de não definir nem julgar tudo que ela foi até então, nem procurar um novo rumo para ela. Tudo se trata da insatisfação, mais uma vez…

Kendrick-Lamar-Good-Kid-Maad-City3. Kendrick Lamar – good kid, m.A.A.d city
Responsável pelo que, digamos, seria a síntese do hip-hop daqui em diante, Kendrick Lamar é em seu primeiro grande disco menos o membro consciente e inovador do Black Hippy (apresentado por ele em Section.80) e mais um garoto em Compton que passou boa parte da vida ouvindo Outkast e Nas, aprendendo com eles como rimar um pouco, mudando nas músicas basicamente a letra dos versos. Se o que nós ouviamos há um tempo atrás com um Tyler The Creator era o hip-hop cada dia mais sombrio e assombrado por uma produção rica, Kendrick nos trás um retorno “as tradições” que nem chega a ser tão tradicional assim, mas tentando reanimar a importância primária dos bons versos (como fez o Killer Mike no R.A.P. Music também, só com o cotidiano obscuro dos rappers que está mais pro Tyler). Um registro, acima de tudo, de uma narrativa biográfica com construção/ascenção/queda e por isso mesmo, reconhecendo seu valor fantástico.

foto_capa_metal_2. Metá Metá – MetaL MetaL
O que ainda é um enigma (ou empecilho, um fardo para alguns) na música popular brasileira é a forma como muitos artistas constroem uma sonoridade que, por mais absurda e por mais tentativas de se diferenciar de tudo que já se fez por aqui, sempre carrega lá uma certa dose de brasilidade – não, não é redundância, esta particularidade é um peso que muitos não gostam, alguns aprenderam a conviver com, outros nem tanto. O fato é que, MetaL MetaL é talvez o primeiro disco brasileiro escutado até aqui, que mesmo utilizando a dicotomia sonoridades/temas alternando entre a cultura africana e o retrato urbano nacional, é totalmente desligado desses conceitos de brasilidade. Dinucci não se importa se vai ou não estar ligado (e, de fato, não está); MetaL MetaL soa como uma banda enxergando a MPB como um estágio  de preparo passado por eles no primeiro disco e ampliando o real foco lírico nas faixas (o candomblé, a música africana). Talvez não seja um disco que vá definir qualquer coisa no cenário musical do Brasil (não hoje, pelo menos), mas que é o disco brasileiro melhor e mais importante do ano, eu não tenho dúvidas.

34c3bfd21. Scott Walker – Bish Bosch
Nos últimos meses, criei uma relação meio conturbada com os discos do Scott Walker. Todos. Sem excessão. Mesmo havendo um estigma da separação do Scott pop dos anos 60 e o avant-garde de hoje em dia, esta variação deve-se muito mais a uma agressividade com que ele conduz seus trabalhos hoje, pois em questões sonoras ele ainda se aproxima muito da quadrilogia de discos homônimos. Creio eu essa relação partir de um ato que o próprio Scott assume; seus discos possuem um encantamento natural como observação de superfície, mas logo em seguida se revelam alguns dos registros mais desafiadores que você vai ouvir: as mutações sofridas dentro das inúmeras variações das fórmulas instrumentais, a delicadeza palatável dentro de uma faixa que há segundos atrás parecia incompreensível… Walker é um exímio provocador de sensos de gosto. Essa pode parecer uma análise um pouco reducionista de toda a carreira dele, mas não vejo melhor forma de descrever porque eu gosto tanto do Bish Bosch.

E uma pequena menção aos piores do ano: The 2nd Law (Muse), Born to Die (Lana Del Rey), Visions (Grimes), Love at the Bottom of the Sea (The Magnetic Fields), All Hell (Daughn Gibson), The Only Place (Best Coast), The Spirit Indescrutible (Nelly Furtado), Babel (Mumfords and Sons), Vicious Lies and Dangerous Rumors (Big Boi), Not Your Kind of People (Garbage), Girl on Fire (Alicia Keys), Tudo Tanto (Tulipa Ruiz), MDNA (Madonna), Mature Themes (Ariel Pink’s Haunted Graffiti), Attack on Memory (Cloud Nothings), Happy to You (Miike Snow), Fantasea (Azealia Banks), Gossamer (Passion Pit), Unorthodox Jukebox (Bruno Mars), Confess (Twin Shadow).

18 comentários em “20 melhores discos de 2012”

    1. achei desnecessário perder tanto tempo falando coisa ruim. além de fazer mal a saúde, alguns aí são esquecíveis a ponto de eu nem lembrar direito o pq, só de não ter gostado mesmo.

    1. não, por ser não mto familiarizado com a carreira solo dele (e nem taanto com o dire straits, tb). e ouça sim o do metá metá, pode causar alguma estranheza no inicio, mas é muito bom mesmo.

  1. Já ouviu o Hurry Up, We’re Dreaming,do M83? Foi lançado no finalzinho de 2011, pena; caso contrário, daria pra colocar num top desses (ou então citar nas menções honrosas). Mas é indispensável, vale a pena.

  2. Alguns menções aos piores me chamaram a atenção: o do Grimes, que eu não gosto(hehe) mas meio mundo ta pirando nessa mulher do cabelo rosa e fico feliz de saber que não sou o único que não compartilha isso, e Ariel Pink’s que tb não gosto e tb foi muito elogiado; tenho curiosidade de ouvir o da Nelly Furtado e do Big Boi, esse especialmente pois gostei muito do álbum que ele lançou em 2010.

    Sobre os melhores os meus são quase os mesmo dos seus, só que em outras posições na lista, e não sei se vc gosta do The Walkman mas o ultimo álbum deles, Heaven, tá bem legal entrava em um top 20 meu.

    1. gosto sim, do walkmen, do lisbon principalmente. mas não sei o que foi, muita gente me recomendou esse último disco deles, deve ter faltado foi tempo pra ouvir. esse e o do liars são dois desse ano que eu ainda devo dar uma olhada. e eu tbm curto muito o outro disco do big boi, mas esse não deu.

    1. me irrita pra caralho (e soa mto oportunista) algm querer fazer um disco inteiro a partir das “tags mais populares do tumblr”, mas o pior mesmo eh q ela tem uma dificuldade enorme trabalhar com isso de vdd – fica sempre so na parte conceitual dele – ficando só um amontoado de ideias num disco mto fragil.

^-^

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