2012 em 20 músicas

E chegando a mais uma série de listas de fim de ano, agora em número mais compacto. Nas listas que eu farei relativas a música, optei por um número menor de registros (são vinte e mais menções honrosas) pois já encarei que música não é uma arte tão compreensiva assim quanto cinema (embora goste dos dois na mesma medida) e de certa forma, quando você se sente nessa condição, uma lista muito grande acaba impessoal demais – fora que não havia motivos pra fazer mesmo: estas são basicamente as músicas que eu realmente gostaria de falar sobre. Falando sobre a lista diretamente, apesar de eu notar que repeti o termo R&B muitas vezes, acredito que não houve nenhum predomínio e está bem variada ao meu gosto e vale lembrar também que dei preferência a artistas que não estarão na lista de discos, uma vez que os textos iam acabar ficando redundantes (acho que esse foi um erro cometido ano passado), mas na maioria, é a lista como deve ser. Na foto, Diplo, ao longo da lista vocês entendem o porquê.

Menções honrosas: Stay (Nas), All Your Gold (Bat for Lashes), Myth (Beach House), Something New (Girls Aloud), Sing About Me (Kendrick Lamar), Werewolf (Fiona Apple), Only Now (JBM), My Kind of Woman (Mac Demarco), As Long As You Love Me (Justin Bieber + Big Sean), Marienbad (Julia Holter), Rolê de Hayabusa (Mc Dedê), Dance for You (Dirty Projectors), Rocky Ground (Bruce Springsteen), “See You Bump His Head” (Scott Walker), The Base (Paul Banks), Do You… (Miguel), The First Time I Saw Your Face (The Flaming Lips + Erykah Badu), Monkey Riches (Animal Collective), Numb (Andy Stott), The House That Heaven Built (Janpandroids), Aaliyah (Katy B + Jessie Ware), Under The Westway (Blur), 3 Dollars (Oh No + MF Doom), Ashtray Wasp (Burial), Apocalipsom A – O Fim do Palco no Começo (Tom Zé + Emicida).

MIA - Bad Girls20 M.I.A. – Bad Girls

Uma persona comum entre artistas femininas hoje, ou a utilização do mau comportamento enquanto característica primordial, é aqui violentada por M.I.A.; que sabe como ninguém o prazer de uma encenação irônica (uma atitude de “foda-se o mundo” ou encarnar uma milionária nilista pra ela já vem como uma caricatura que nem precisa ser desmontada, afinal quando percebemos Bad Girls já se espalhou como um vírus por aí – e isto só deixa a atitude dela mais pertinente). Bad Girls é muito do Kala sem tanto as ideias políticas do álbum (e se tem, ela se dilui junto a vontade liberal da artista), mas já com a ideia de que M.I.A foi totalmente afetada pela internet – isso é definitivamente algo que não deve sair do seu catálogo. “Live fast, die young” pra ela, então. Levemente superior ao último registro dela (e falo da Vicki Leakx, não de MAYA), porque M.I.A. debochada e furiosa junto com as batidas com o pé na cultura oriental do Danja, ninguém entende.

ninasky-comatose19 Nina Sky – Comatose

O disco subestimado que as gêmeas lançaram esse ano, Nicole & Natalie, parece uma resposta perfeita a qualquer disco da Rihanna – a estrutura caótica do “mil coisas ao mesmo tempo” é a evidência – na supertição de narrativa e a vontade de sempre estar presas a um conto dentro de músicas over-produced. Cada uma das 8 músicas são bem pensadas num trabalho quase cirúrgico – porque cada uma tem seu senso de grandeza. Mas Comatose tem um impulso maior vindo do Brenmar nas batidas melódicas e joga com indie britânico oitentista (bem a vontade delas) sempre evocando mais um sentimento de satisfação em estar em todos os lugares, em todos os tempos antes de qualquer nostalgia. Pras Nina Sky a balada é sintoma da melodia, e Brenmar deste ponto de vista consegue manter-se estilizado e no mesmo tom por toda a música (e olha que ela de minimalista tem muito pouco). É um pouco como Your Drums Your Love. “Let’s keep going ‘til we’re comatose”. Só que Comatose é mais 2004.

foto_capa_caetanoveloso118 Caetano Veloso – A Bossa Nova é Foda

O que vem mantendo a carreira de Caetano tão interessante nos últimos tempos, para além da banda Cê trazer realmente alguma substância dentro dos 3 trabalhos que eles fizeram juntos, é aquilo em que tanto os seus amigos tropicalistas se afogaram (Rita Lee?): a verborragia, uma visão de mundo por vezes reacionária mas contundente na sua exposição pessoal (um pouco como Tom Zé, se bem que esse é uma figura de material pra mais de 100 anos). Contudo o que se vê em Abraçaço é um Caetano com um pouco menos de tudo isso, mais iludido com o conto, abrindo espaço para uma crítica mais didática (e assim tornando parte do disco acrítico) mas com dois momentos especiais dentro de um objeto “menor”: no início e no fim, em especial em A Bossa Nova é Foda, faixa de abertura e de divulgação, com um paralelo inesperado entre a figura de João Gilberto ao redor do mundo e o impacto que lutadores do MMA causam hoje em dia. É acima de tudo, em ‘Bossa’ que encontramos o Caetano furioso, jogando com o indie-rock e o psicodélico que tanto a musica brasileira sempre precisa. “Lá fora o mundo ainda se torce para encarar a equação” porque com o que é bom, é assim.

carrie-underwood-blown-away-single17 Carrie Underwood – Blown Away

Minha falta de interesse em música country hoje deve-se menos pelos rumos duvidosos que a modernidade do estilo o levou do que a falta crença nele propriamente dito (um outro disco de “country” que eu escutei esse ano, do Zac Brown Band, bem simpático por sinal, tem uma capacidade incrível de resistir as ideias de gênero; ele se sente bem mais confortável parecendo um Mylo Xyloto do Coldplay, por exemplo). A Carrie Underwood em geral não foge a essa regra, mas o Blown Away (o disco também) me chama a atenção porque põe o sentimentalismo como algo legítimo e aceita a modernidade do estilo; é como se a garota tivesse parado lá pelo tempo da Shania Twain e encontrasse na balada hard-rock o equilíbrio perfeito com a potência melodramática do country. Gosto principalmente da forma como ela sempre deixa pistas da grandiosidade da música entre alguns versinhos de contos pessoais. “There’s not enough rain in Oklahoma”, canta Carrie pra logo em seguida chamar um refrão organizado em tempestade, parece algum castigo divino inquietante.

joaobrasil_tropicalbritannia_ep16 João Brasil + Murlo – Kookaburra

Dentro do conceito particular de música urbana contemporânea que o João Brasil desenvolveu, este seu último EP Tropical Britannia tem como objetivo não só ampliar o horizonte de uma vontade natural que eventualmente ele teria mas notar que a visão do DJ é tão peculiar que impossibilita um punhado de músicas que abrem espaço para ele dentro da cultura inglesa se relacione com tudo que ele já fez até então (entre os mash-ups e aquelas músicas kistch do início da carreira). Kookaburra naturalmente soa como um “post-tudo”, mas impressiona como João Brasil constrói esse futurismo da música com cuidado – ainda mais se olharmos que ao redor, só uma Grimes tentaria fazer isso,  e a praia dela é basicamente ser diluidora e pastel… Some-se isso ao bashment e dub sujo do Murlo com o UK funky padronizado e temos aí uma forte candidata a revisitação do próximo conceito do momento.

COLUMBIA RECORDS BOB DYLAN ALBUM15 Bob Dylan – Tempest

Um épico de quase 14 minutos sobre o naufrágio do Titanic, trazendo waltz e um pouco de country-raiz, com aquela voz acabadona do Bob Dylan. Pois é.

sky14 Sky Ferreira – Everything Is Embarrasing

Lembro quando eu comecei a “gostar” “pra valer” de música e olhava as listas de fim de ano de certas publicações e, sempre entre as músicas do ano eu encontrava inúmeros hits de rádio e nunca eles estavam na lista de álbuns. Eu perguntava pra alguns amigos mais experientes e eles diziam que esse “tipo” de artista geralmente se preocuparia em ter uma ou duas músicas excelentes (as que iriam pro rádio) e o resto do disco seria pura encheção de linguiça. Essa afirmação não era ilógica, mas com o tempo se revelou… ultrapassada, até mais ou menos o dia em que eu escutei Everything Is Embarrasing, vinda de uma artista medíocre como a Sky Ferreira. Essa é uma daquelas músicas made-for-a-context, não só pela maneira como você iria se surpreender ouvindo pela primeira vez, mas porque ela tem que estar perdida, mesmo; num tempo em que ela poderia não ser nada (não a toa os anos 80 é aqui assumidamente um fetiche) e dentro de um catálogo ruim. Provavelmente a Sky Ferreira continuará nos presenteando com outras tentativas bestas de parecer a Robyn (no EP dessa faixa, só ela presta também), e eu irei continuar com alguns desses melhores versos sobre confusão e incerteza, com essa voz aflita mesclada a produção beirando ao lo-fi. “I’ve been hating everything, everything that could have been” – mas sabemos bem que nunca poderia ser…

nova13 Burial + Four Tet – Nova

Estas colaborações do Burial com o Four Tet revelam uma certa zona de conforto para os dois – ainda mais depois de uma audição do EP de Kindred – o que na prática, não revela grandes substâncias sobre o trabalho dos dois (ou o quão limitados eles poderiam ficar). O fato é que Hebden doa aqui em Nova um pouco de sua habilidade artesanal de trabalhar com formas específicas as construções densas do Burial; trazendo um belo acabamento a tudo aquilo que a primeira vista parecia tão grosseiro e manjado. Há inúmeros samples vocais (e o tratamento que os dois dão a ela é especial) interagindo à harmonia da experiência tipicamente densa que é Nova, mas nada melhor que imergir àquele riff de teclado depois de 90 segundos; se ainda havia alguma dúvida, alí se confirma que independente da forma, o cuidado no tratamento da faixa é sempre essencial e sim, podemos considerar uma faixa inocente, romântica e com alcance sensorial limitado em relação a tudo que ele já fez uma das melhores do ano.

frank-ocean-pyramids12 Frank Ocean – Pyramids

O channel ORANGE, bom disco de estréia do Frank Ocean, nos leva a um universo fictício (e que tem como missão uma narrativa envolvente o suficiente para varrer esse fato de nossas mentes) da nostalgia de um garoto em relação a sua adolescência. É um tanto auto-indulgente, irregular porque precisa ser, bem o tipo de disco de estreia chei de ideias afobadas (e geniais) onde nem todas encontram o tempo e lugar certo para se levantar, mas quando encontram, nascem objetos do tipo Pyramids, um synthfunk de 10 minutos cheio de pretensões épicas. A música se divide entre duas partes distintas: na primeira fica claro que estamos no Egito Antigo com Ocean tentando atrair uma certa Cleópatra e funciona a base dos ótimos sintetizadores impondo um clima assustador, macabro (chega a parecer kistch, até quando eles no prova que isto na verdade é parte da atmosfera); na segunda Ocean inteligentemente abandona a influência electronica porque só a tensão sexual agora interessa (ou só o R&B interessa), duma viagem no tempo inexplicável chegamos a hoje em dia com eles num quarto de motel. E Ocean se preocupa com sua Cleópatra. “She’s working at the pyramid tonight”, responde a muita coisa.

20120904-GOOD_MUSIC11 Kanye West + Jay-Z + Big Sean – Clique

Sim, e eu tô aqui de novo falando do prolífico Kanye West. E do Hit-boy, também, agindo aqui como um Timbaland a despeito de seus artistas convidados no desvalorizado Shock Value II. É claro que pra chegar até esses dois temos que aguentar o Jay-Z no piloto automático (mas Jay-Z no piloto automático ao lado do Kanye não é pouca coisa) e um dos grandes charlatões do rap atual, o Big Sean (rimando “pootang” com “Wu-Tang” sem medo de ser feliz). Mas além de entender a condição dos rappers na faixa, Hit-boy põe Clique numa visão fantasmagórica nas camadas de vozes sobrepostas (de novo Timbaland!) e o como o produtor joga com ares de trip-hop sem nunca inserir artifícios que indiquem isso. O que me surpreende mais em Clique é ela estar num disco em conjunto como o Cruel Summer, sendo que tem as doses certas de picaretagem e egocentrismo lá do início da carreira do Kanye; porque Hit-boy vê isso a partir da hora que ele entra em Clique, com tópicos substancialmente mais interessantes que os outros e maior variação nos tons de rap, já falando de CIA e Tenet. “I know Spike Lee gon kill me but let me finish” / “Blame it on the pigment, we living no limits” – acho que isso basta, né.

exmaijabu10 Dona Onete – Jamburana / Gaby Amarantos – Ex Mai Love

É um clichê ambulante colocar essas duas cantoras juntas aqui, sendo que não há paralelo mais óbvio do que a o quão regional é a música delas, mas gostaria de dizer que a minha intenção era colocá-las numa lista de discos (não deu, mas ok) porque para além de ser um primeiro registro tardio de ambas, Treme e Poder de Sedução são discos feitos especificamente dentro de um contexto político e cultural que as eleva ao posto de artistas-síntese do Brasil em 2012; ressaltando os prós e contra de uma indústria que só anda como um parasita. A verdade é que Jamburana e Ex Mai Love talvez estejam aqui mais por todo este contexto que qualquer outro argumento. As duas músicas tem ambições muito claras de uma “introdução”: para Gaby e Veloso, se o brega (afinal, é no máximo um tecnobrega mais domesticado) precisa de uma compreensão maior antes de se estabelecer dentro da MPB, essa compreensão surge em Ex Mai Love através da letra; não por como ela é legitimamente brega (no uso das expressões populares), mas o como eles jogam através destas palavras dentro de um conceito mais… amplo (pra não ficarmos em termos extremos). E sim, rimar “love” com “1,99” não é qualquer um. Já Jamburana tem um papel escasso se comparado a Gaby, ela é a certo ponto, uma equivalente de A Bossa Nova É Foda do Caetano á evidência dos ritmos paraenses; com direito a própria Gaby, Lia Sophia, Luê Soares e a Keila da Gangue do Eletro formando um coro sob o impacto do jambú, da modernidade a que chega a música de Dona Onete, ou o impacto que é a própria figura dela. “E o jambú treme”.

alunageorge-your-drums-your-love9 AlunaGeorge – Your Drums, Your Love

A música anterior do AlunaGeorge, You Know You Like It, tinha uma base muito forte de dubstep e o Uk funky era claramente uma prioridade. Alí, mesmo que timidamente – afinal, antes de tudo, a faixa tinha que soar “do momento” – havia já uma vontade em relação ao R&B um tanto desprendida do rumo que ele tomou com o nascimento do The Weeknd (se pensarmos que só em 2012 já tivemos Frank Ocean, Miguel, Jessie Ware, Estelle e Usher como figurões das tendências do gênero…). Esta relação é quebrada ainda mais com Your Drums Your Love, onde o dubstep dá lugar a batidas mais densas que remete a um trip-hop noventista e o R&B é menos um vício de produção que um sentimento pulsante incontrolável do artista (a voz sensual e meiga da Aluna tem uma certa influência na compreensão da letra). Tudo é climático e abafado; mas George (é, você já deve ter entendido o nome do duo) não esconde que a funcionalidade do vocal de Aluna converge o ponto ideal dela. “You can’t say that I’m going no where”, não mesmo.

Diplo-Express-Yourself-cover8 Diplo + Elephant Man + GTA – Move Around

Diplo é o cara do momento. As grandes músicas que ele lançou/produziu/compôs/masterizou em 2012 não cabem nos dedos. Mais do que isso, é uma ironia o potencial mainstream dos trabalhos dele desde sempre, mesmo que o Diplo em essência não tenha ligação com pop. São os artistas que ele escolhe seleciona pra trabalhar que tem esse potencial, e mudam toda a textura de suas produções; e além de ele ser suficiente humilde para isto (e olha que Diplo fez até um excelente conto adolescente do ponto de vista adulto para… Justin Bieber) é incrível o como esse badalo todo na carreira e ainda há espaço para trabalhos como o EP Express Yourself, a Move Around. Diplo já disse que o objetivo desse trabalho era tentar algumas “elitizações” no meio pop (logo ele que já é tido como elitizado), provando o mau gosto como um mito. Eu sei que a essa altura, se você ainda não ouviu, deve estar imaginando o quanto esse material é interessante nas mãos de um produtor como ele, mas deixemos uma comparação como a prova: a Stupid Hoe da Nicki Minaj (igualmente interessante) também utiliza de artifícios que vai contra aquilo que foi padronizado como bom gosto, mas enquanto Move Around explora afundo suas técnicas e a mitologia da cultura de massa em suas variações repentinas de sons, Stupid Hoe termina por ficar cada vez mais repulsiva, com os sucessivos “duelos” das personalidade da Nicki que incrivelmente não dizem nada sobre ela e nem sobre as intenções da faixa.

nicki-minaj-beez-in-the-trap-video7 Nicki Minaj + 2 Chainz – Beez In The Trap

Desde que eu vi o vídeo de Stupid Hoe (genial), não paro de pensar na Nicki Minaj como algum equivalente de cineastas “marginalizados” pelo nosso tempo e que aceitam e até lidam bem com isso (Neveldine e Taylor seriam uma boa opção); acima de tudo porque ela é capaz de olhar pra vulgaridade desta época sendo exatamente parte dela (afinal, o que dizer de alguém pensar num disco como cardápio de churrascaria?) e ao mesmo tempo superior pelo excesso de acidez em seus raps. Beez in The Trap pode não representar bem o melhor da sua capacidade técnica no rap e/ou nas rimas (Monster, Lil Freak) e nem a fofinha-grudenta (Super Bass) e nem mesmo quer expandir estes dois, mas é sempre bom olhar para a capacidade que ela tem de jogar com a percussão do instrumental (o trocadilho auditivo do “beez” é excelente) e converter junto a força de sua persona – a mais intrigante da atualidade – tamanha arrogância da letra em sintoma do domínio, da capacidade em tornar cada palavra memóravel. “A hundred motherfuckers can’t tell me nothing” – essa frase também não, e daí?

major-lazer-amber-coffman-get-free-firstup.se_6 Major Lazer + Amber Coffman – Get Free

Assim como a M.I.A. hoje vive atormentada pelas ideias da internet, Diplo e Switch não são mais àqueles do dancehall frenético de Guns Don’t Kill People… Lazers Do. Eles também estão atormentados, pelos fenômenos naturais quase que rotineiros ao redor do mundo. Get Free, em seu minimalismo controlado e um reggae-dub autêntico, soa como um antídoto ao que o duo sempre fez; é contida, fria, até desagradável de se ouvir a primeira vista. O romance pós-Katrina da Amber do Dirty Projectors é triste, mais te deixa atordoado que instiga a mudar a realidade. “Water so deep, now we got to swim” – se isso já é difícil de se ler, imagine agora na voz maleável da Amber, que potencializa já tudo que Get Free gosta de evidenciar? Mas não se engane, pra eles o que importa mesmo é que você se apaixone por esse romance – independente do quão pessimista ele possa ser – e embarque nessas linhas synth-gloopy e aceite as batidas semi-orientais. É um pedido injusto, mas fazer o quê? Se antes de aceitar, eu já me apaixonei por ela mesmo.

Py - Lungs (Remixes)5 PY – Lungs

Lungs é um exercício de narcisismo, sob o ponto de vista da artista que a interpreta (“you and me” – não se engane…), mas o verdadeiro autor dela é George FitzGerald que a constrói de uma visão apaixonada por PY. Como uma artista emergente. Como num início de carreira. Tudo aqui é previsivelmente falso; desde os acordes que parecem com um violão desenfreado, mas é de teclado ao vocal caricaturalmente chapado de PY. Fitzgerald tem uma ideia de engenharia rítmica bem oposta a tudo que vemos no house de hoje: ele gosta de equilibrar um lado emocional e o mood-driven, sem nunca haver uma explosão dentro de Lungs (pelo contrário, o seu início talvez já seja o ápice). A grande jogada do produtor aqui é criar uma base de atmosfera crescente em instrumentação para perceber lá pela sua parte final que tudo na verdade não passou de um veículo para o seu sonho (PY) demonstrar em suas oitavas graves desesperadas porquê isso nunca passaria de um sonho. E eu sei bem o quanto esse tipo de musica seria instigante.

reagan4 Killer Mike – Reagan

O disco que o Killer Mike lançou este ano, R.A.P. Music, nos prova que rap e política ainda podem formar uma aliança as vezes pertinente, sem precisar das afetações de um Public Enemy. E Reagan, assim como Mr. November do National, nos prova o porque de uma opinião contundente, com embasamento e conhecimento o suficiente do objeto pode ser respeitável, independendo do ponto de vista moral (moral em Reagan é um inseto). Em 4 minutos, pela batida do El-P, vamos de política externa a armamento; de discriminação racial as leis presidiárias americanas. E ainda é só uma música. Convicta. “We brag on having bread, but none of us are bakers” – ou como a metonímia é um vício ideal para os momentos ideais, para o ideal dos outros.

boddika_joyo3 Boddika + Joy Orbison – Nil (Reece)

As dimensões texturais que Joy Orbison sempre gostou de dar a todo áquele material aproveitável (nos remixes principalmente) ganhou contornos novos e pertinentes em sua extensiva parceria com Boddika: o que era introspectivo, agora soa assimilável; o gancho melódico que Orbison tanto preza no centro da faixa agora é jogada desde o início e consegue manter-se no traço do impacto até o fim, fora que com Boddika nada é tão bom enquanto não for predominantemente físico, climático. Pensar nas produções desses dois juntos como desafiadoras é redundante e, eu poderia ter colocado qualquer uma das que eles lançaram esse ano aqui (da ferocidade de Mercy e Dun Dun a club-anthem Swims) mas tenho Nil como um híbrido que todas estas poderiam parir. É estranho a simplicidade na qual Joy O e Boddika fazem um trabalho artesanal aqui, e ela consegue ser tão deliciosamente confusa em sua estética mecânica; é visceral e violenta, com um uso de graves em evidência já bem típicos deles e que surgem aqui em tom confortante.

sleepingute2 Grizzly Bear – Sleeping Ute

Foi single e é a faixa de abertura do Shields. Sleeping Ute enquanto eu ouvia (já viciado) como uma simples faixa isolada, me mostrava um Grizzly Bear como o de sempre, cheio de impulsos, procurando uma estética carregada e estilizada; jogando aquela porrada das guitarras levemente oitentistas e esperando que em algum tempo encontraríamos sentido na faixa, tomando-a na maior parte do deslumbramento mais instigante do que propriamente bom. Já visto no Shields, apesar de só tudo descrito acima seria o suficiente para ela estar aqui, Sleeping Ute se revela menos um exercício “de estilo” que uma síntese de um disco que não quer procurar novos horizontes a banda dentro de uma mesma lógica interna mas sim ampliar a capacidade dessa lógica, expressos em seu amor incondicional ao folk. Insatisfação, particularidade, calmaria-explosão-calmaria, intimidade, a voz minimalista. Sim, isso é o suficiente pro Grizzly Bear. Pro momento. “But I came here myself” – se definir, Rossen, se definir.

usher-climax-single-artwork-700x7001 Usher – Climax

Estranho o momento em que eu ouvi Climax pela primeira vez. Não porque era uma das primeiras músicas que eu gostara do Usher (de cabeça, lembro de Trading Places e Lil Freak), mas é pelo psicodrama em que a faixa se envolve, mesmo; ela parece inacabada porque Diplo (e de novo o cara) quer chegar a um espaço minímo, mas não quer acabar com ele. E ainda é estranho. Para além das comparações com The Weeknd, vejo bem mais uma música como Climax buscando uma unificação entre os dois pólos menos amigáveis da música do que qualquer uma do catálogo da Grimes. É só por como ela se desenrola com Usher sendo Usher (nos falsetes incontroláveis, ricos desta vez e com uma imersão real) com um Diplo monocromático domando seus excessos (e o Looking 4 Myself tem mais dessas) e as tendências ao exagero caricatural que assombram Climax por toda a sua duração; é sobretudo de equilíbrio que estamos falando, e de evocar sentimentos sem necessariamente precisar traduzí-los, com os esforços do arranjo de Nico Muhly trazendo a tensão (sexual, textural, musical, e sabe lá mais o que…) perfeita pela influência dubstep e os synths pneumáticos. “Going nowhere fast”, e assim caminha a humanidade.

2 comentários em “2012 em 20 músicas”

  1. ótima a menção a “lungs” e a música é bem como você descreveu, tirando que (1) não entendi o que tanta gente viu nessa climax (2) yet again >>>>>>>> sleeping ute.

^-^

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s