O cinema segundo o senhor Affleck

Verdades e Mentiras (1973), de Orson Welles

Argo (2012), de Ben Affleck

3 dos 4 amigos que estavam comigo na sessão de Argo chamavam o filme de ‘fácil’ e ‘previsível’. Eu também achei, mas dentro de um filme do Ben Affleck isso nunca me interessou muito. Desde o Gone Baby Gone, as reviravoltas serviam prum pretexto do diretor mostrar que isso não era a parte essencial de um thriller. O que mais interessa é a tensão, o clima. E mesmo dentro dessa ideia de gênero formada, Affleck ainda prima pela boa narrativa antes de tudo – e quando eu falo de boa narrativa não se trata apenas do ótimo argumento que ele tem em mãos, mas sim da sensibilidade de quem o cria traduzida na fluidez da mise en scene.

Dito isso, se a aproximação de Argo com os outros filmes de Affleck está no que eles tem de essência, seus detalhes de superfície (e não menos importante) não poderiam ser mais opostos. Desde a ideia de espaço (que lá identificava o conflito que seus personagens iriam enfrentar e aqui quando não é falso, é um genérico pano-de-fundo qualquer) até o próprio tom adquirido pelo filme (realizado graças a sátira ingênua em Hollywood). Esses detalhes ressaltam Argo como um filme sobre a mentira, ou melhor, sobre as possibilidades de uma mentira. A dupla formada por John Goodman (e qualquer semelhança com seu papel em Matinee do Joe Dante não é mera coincidência) e Alan Arkin ostentam o falso o tempo inteiro enquanto Affleck filma da maneira mais verossímil possível (os cortes de tele-jornais, a moda qual seguem os personagens, etc – não há dúvidas quanto a estarmos no fim da década de 70 – e nos créditos ainda há uma cínica comparação entre os atores do filme e as pessoas que deram origem ao que eles interpreteram).

E o diretor mantém o jogo com a (ir)realidade a todo instante: a sátira de Hollywood, que seria supostamente a parte mais inusitada do argumento, é filmada exatamente como manda os relatos, enquanto os momentos do thriller (especialmente do clímax/desfecho) Affleck opita por mentir ‘um pouquinho’ para voltar áquilo que ele julga necessário (a narrativa) e fechar o cerco bem costurado. Afinal, se não há nada mais mentiroso que Hollywood, nada mais hollywoodiano que um filme privilegiar o conto (e vindo com ele qualquer sensacionalismo e tendenciosidade), assim, tornando-se impossível do ponto de vista da verossimilhança.

4 comentários em “O cinema segundo o senhor Affleck”

  1. cara, nao valeu pra tanto tu ficar me atormentando esse tempo todo, mas o filme bao mesmo. claro q eu vou continuar achando as saidas faceis mais uma babaquice do que um bom artificio (como tu dizes rs) mas todo o desenvolvimento no fluxo da imagem falsa/real é bem foda.

    1. não acho que seja um simples artíficio, mas faz parte de toda a construção estética que o affleck propõe. que ele já tinha aproveitado até a medula no the town e aqui ironiza (e prioriza) tb. na real, acho que quem reduz o que ele vem fazendo a um simples “genérico” anda sem tesão pelo cinema.

^-^

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