Amazônia Doc IV

Um pouco menos de duas semanas de festival, uma primeira caótica e uma segunda até parada demais (ainda mais vendo pelos filmes que passaram). Essa quarta edição do Amazônia Doc deixou muito a desejar, não só pela falta de interesse do público como da própria organização que se tinha alguma preocupação com a exibição dos filmes, ela se restringiu a Mostra Competitiva (e ainda assim a quantidade de erros na mesma é bem grande). A mostra no IAP tinha um público diário de 10 a 15 pessoas e os filmes eram projetados do DVD, quanto a Mostra Portuguesa foi a pior de todas. Não preciso nem dizer que colocar o festival dentro da Feira do Livro foi um completo erro, né? Mas o pior era a iluminação tosca que deixava o filme quase transparente, além das péssimas escolhas pra exibição (eu só fui um dia, mas de lembrar que a maioria dos filmes era desse tal de António-Pedro Vasconcelos…). E na própria Mostra Competitiva/Internacional filmes mais atuais eram necessários (creio eu que 90% do que passaram por lá já está disponível na internet e incluindo um que já até passou pelo circuito nacional). Enfim, não fui um frequentador assíduo ano passado, mas comentaram muito comigo que lá decaiu bastante esse ano. E por incrível que pareça, isso é um alívio. Pelo menos não foram quatro edições nesse mesmo nível. Outra crítica a se fazer é em relação aos horários, já que é um festival só que tivesse disponibilidade pro público poder ver todos os filmes do acervo e não colocar todas as mostras no mesmo horário. Mas sem mais reclamações, indo ao que realmente importa.

Juliana Contra o Jambeiro do Diabo Pelo Coração de João Batista (Roger Elarrat) *
A estrutura de curta não cabe a ambição gigantesca (o início é evidentemente todo picotado, com a trilha mais anárquica que eu ouvi em muito tempo) e Elarrat não economiza nos close-ups redundantes que deixam tudo mais irritante ainda. Nos últimos 2 ou 3 minutos melhora consideravelmente, quando o filme se entrega verdadeiramente ao fantástico que ele já vinha preparando desde o início e deixa soterrado por aí, mas esse badalo todo é difícil de entender.

Carta Para o Futuro (Renato Martins) ****
A senhora entra no plano, fala sobre política, sai dele, a câmera permanece filmando o garoto que sem entender o que está acontecendo, começa a brincar. Podemos discordar e muito da visão de Martins, mas sua precisão como cineasta e o olhar cuidadoso pra cada personagem de seu filme seguem impressionantes. E de brinde, um final tão desolador semelhante ao igualmente lindo “A Cidade é uma Só?”.

Toda Nudez Será Castigada (Arnaldo Jabor) ****
O melhor filme de Jabor e provavelmente a melhor adaptação rodrigueana para o cinema esta deliciosa comédia drástica sobre a infidelidade. Surpreende a forma com que o diretor atinge um ápice de riqueza em dramaturgia (reviravoltas não faltam) e mesmo assim soube lidar com os extremos éticos-morais que um material de Nelson Rodrigues possibilita. Que ao puritanismo só resta a dor.

O Casamento (Arnaldo Jabor) ****
É o Toda Nudez Será Castigada felliniano. Forte e meio descontrolado.

Regreso (Jano Burmester) 0
É até bom de vez em quando encarar algo tão ruim como esse filme, especialmente porque só reafirma o quanto uma crítica que aponta Wes Anderson ou Woody Allen são repetitivos não tem fundamento. E há toda uma série de outras questões, que envolvem cineastas do naipe de uma Miranda July, Jason Reitman ou Mike Mills, onde existe uma ideia, mas a sensibilidade é nula. Creio eu que Burmester está neste grupo.

À margem do Xingu (Dàmia Puig Auge) w/o
O descaso da produção do festival com o (pequeno) público foi hilário.

Paraíso Terrenal (Tomás Welss) **
Entre a bizarrice e aceitar tudo que a ficção científica permite.

Avenida Brasília Formosa (Gabriel Mascaro) ***
É um filme de decupagem bastante forte em seu objetivo, mas que esbarra em uma ou outra mesquinharia na construção de seu experimentalismo. Há todo um blá-blá-blá de metalinguagem (a câmera do personagem-documentarista se confundindo com a câmera de Mascaro) mas o filme ganha muito em outra confusão, a da auto-ficção. Lembra Plataforma, do Jia Zhangke no sentido de manter vários momentos para a construção de algo mais concreto.

Os Imortais (António-Pedro Vasconcelos) w/o
Eu realmente não estava muito afim de ver o pior filme de todos os tempos.

A Vida Como Ela É: Em Casa e Na Rua (Daniel Filho) *
A Vida Como Ela É: A Dama da Lotação (Daniel Filho) 0
A Vida Como Ela É: O Decote (Daniel Filho) **
A Vida Como Ela É: O Anjo (Daniel Filho) *
Mérito: preservar a ideia de Nelson Rodrigues como único autor das estórias. Demérito: tanta impessoalidade cansa rápido.

Ashes (Apichatpong Weerasethakul) **
Pelo visto (e infelizmente) Tio Bonmee não era só um passo em falso. Joe está cada dia mais chato, filmando bem inegavelmente, e mantendo aquilo que seus melhores filmes tem de menos interessante, também. Muito do que Ashes tem de mais experimental é exatamente o que ele tem de mais repulsivo.

Magic Mike (Steven Soderbergh) ***
Tem potencial para crescer ainda mais com o tempo, mas é desde já um dos filmes mais fortes do diretor. Uma espécie de re-auto-remake (Girlfriend Experience, que gera Contágio, que gera Magic Mike) em forma de melodrama onde a falta de visão de Soderbergh realmente se justifica – e eu nem sei se esse é o termo certo, mas em menos de 15 minutos ele se torna completamente abstrato. Curioso notar a relação quase hawksiana entre os strippers e como eles se admiram um do outro/se orgulham do que fazem, isso é o que realmente leva a sátira de Soderbergh sobre o mundo atual para um humor invulgar e pertinente. Muito se falou a respeito de ser “sobre o dinheiro”, mas creio eu que o dinheiro aqui tem a única função de ligar os personagens, ligá-los a seus deveres, etc. Mas nem tudo volta pra ele, e essa nem é a maior substância do filme. E quando eu espero que o Soderbergh desande para um pessimismo, a sua divisão entre o Mike e o The Kid finalmente se justifica: um escolhe o caminho do dinheiro, o outro do amor. O que põe Magic Mike num equilíbrio. Equilíbrio esse que talvez seja a grande sacada de Soderbergh.

Música Para Um Natal e Seis Percussionistas (Ola Simonsson e Johannes Stjärne Nilsson) **
Vdeoclipezinho que até funciona dentro de seu universo limitado, mas antes dos seus 5 minutos chegarem ao fim notamos que ele é tão inventivo quanto um flashmob de Gangnam Style.

O Segredo da Cabana (Drew Goddard) *
Tá aí um exemplo dos problemas de se fazer um filme de terror em 2012. A crítica gosta de dividir os filmes entre tentativas de reanimá-lo e os seguidores do formato. Este aqui foi vendido como um reânimo, mas não tem nada disso. Ou pior, ele está bem abaixo de qualquer sub-Pânico ou sub-Saw que há aos montes por aí simplesmente porque se nega a ser um filme. O normal é esperar que um filme seja capaz de funcionar por si próprio, que antes de você perceber qualquer esperteza do argumento ele te passe algum sentimento genuíno – coisa que Drew Goddard está pouco interessado em fazer. E mesmo pela sua tentativa de ser meta-referencial ou ser uma sátira, temos exemplos consideráveis recentes vindos de Sam Raimi e Wes Craven e que não precisaram abdicar inteiramente da dramaturgia em prol de tamanha bobagem. Na real, é só um amontoado de não-personagens oscilando entre uma floresta e uma empresa. Esperemos que essa praga não ganhe “seguidores”.

O Piano (Levon Minasian) **
Por um momento, Minasian consegue se livrar da camisa-de-força do típico ‘filme pra festival’ quando tenta construir alguma unidade que a leve para longe da superfície, mas nada chega a ter potência que merece. Não há um espaço que identifique um personagem ou qualquer elemento do filme, o tom dos personagens é um tanto caricatural e não condiz com o estilo de Minasian e não há qualquer controle de tempo dos planos.

Nas Sombras (Thomas Arslan) *****
Melhor filme de todo o festival. Reinvenção de gênero de primeira, não só pelo olhar elegante com que trata os personagens e a sua ação de fato mas principalmente por ver a influência mellvilliana acima de qualquer fiapo da narrativa (aonde Tomas Alfredson errou feio em O Espião Que Sabia Demais). Pegando como exemplo o personagem do Mišel Matičević (em uma atuação impressionante), que se assemelha a qualquer outro criado pelo Michael Mann, o que importa mesmo é sua conduta dentro daquilo que ele tem possibilidade de fazer e não a moral de seus atos.

Os Infiéis (Michel Hazanavicius, Jean Dujardin, Gilles Lellouche, Emmanuelle Bercot, Fred Cavayé, Eric Lartigau e Alexandre Courtès) *
Típico filme publicitário francês tão satisfeito em seu próprio mundinho inexistente que nem dá muito vontade de falar sobre. E também é aquele típico filme onde a estrutura é a maior inimiga da dramaturgia (mas será que ela realmente existe?). Diversas esquetes que poderiam até render um bom pastelão kistch acabam fugindo ao controle dos realizadores, que não conseguem habitar exatamente aquilo que eles estão fazendo.

5 comentários em “Amazônia Doc IV”

  1. O dia de abertura/encerramento nos 3 cinemas foi ótimo, mas realmente ao longo deixaram a desejar. Cê chegou a ir na entrega dos prêmios? Nem lembro de ter visto e ambém tava bem organizado e lotadinho ;)
    O pior mesmo era o “telão” no Hangar, era dificil de acompanhar especialmente porque nem era o formato adequado para esse tipo de exibição. “Palavra e Utopia” do Manoel de Oliveira ficou um horror…

  2. Meu caro, por acaso encontrei hoje ( 08/02/2013) sua crítica sobre a realização do Amazônia Doc IV. Concordo com algumas questões levantadas por você. Algumas são realmente pertinentes, porém venho apenas esclarecer que existem várias e diversas questões de viabilização e produção de um festival de cinema das quais o público participante não toma conhecimento. Fazer uma crítica apenas do está diante dos seus olhos é lugar comum.Mergulhar nas profundezas das problemáticas/dificuldades que envolvem a realização de um projeto cultural internacional como este, exige outros interesses, que não apenas a crítica pela crítica. Te confesso que acreditei que seria possível ( era nossa única opção diante do não pagamento/repasse financeiro do patrocínio pela Oi que estava com dívidas com o Governo do Estado do Pará) fazer uma edição em parceria com a Feira do Livro. Ponderamos os riscos, não queríamos ter uma lacuna de edição. Foi um erro de avaliação, perdemos muito mais do que ganhamos, porém conheço grandes grupos de realizadores viabilizando festivais de cinema no Brasil com muitos recursos e dando vexames de produção imperdoáveis. No nosso caso, tudo que foi realizado na nossa IV edição, foi com apenas 30 dias de antecedência e sem nenhum recurso financeiro direto ( A Secult nos apoiou nas condições mínimas e na cessão dos espaços e equipamentos disponíveis) e com uma equipe de 4 pessoas trabalhando voluntariamente, sem remuneração. De qualquer modo, peço-lhe desculpas por não termos conseguido atingir os níveis de excelência desejados por nós ( de um modo geral) que fazemos o festival e por você que é público.e crítica. Declaro que foi muito frustrante para nós da organização, e por essa razão provavelmente não teremos a 5ª edição em 2013, pois avaliamos que é melhor não realizar, se não for dentro das mínimas condições necessárias. Foi uma grande lição! grande abraço, Zienhe Castro – Diretora geral/fundadora do Amazônia Doc

    1. valeu pelo comentário esclarecedor, zienhe. eu imaginava que algo assim havia acontecido (e nem chega a me surpreender: essa semana tà acontecendo o festival do juri popular lá no libero luxardo e com um publico bem baixo, provavelmente por isso há um certo descaso dos organizadores em relação as projeções – o que se repete em vários cineclubes daqui de belém), mas acho realmente uma pena se não houver o amazonia doc este ano. mesmo que tenha sido tâo pouco divulgado ano passado, nas outras edições foram bons momentos pra cinefilia paraense. voltar a ser a lá no olympia seria uma boa…

^-^

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