Schrader, Lubistch e Vigo

Ok que é um tanto injusto dedicar só um post a esses 3 mestres, mas creio que se eu resolver separar, ia acabar não fazendo pra algum. Vou ser o mais breve que puder e tentar traçar só uma coerência estética na obra deles de um modo geral, afinal tava há quase dois meses na mostra do Schrader, por exemplo, daí fica difícil pensar em comentar filme por filme agora.

Começando a falar sobre Paul Schrader, há muito no filão dos diretores ignorados (num sentido bem forte da palavra mesmo, porque essa talvez seja a primeira vez que grande parte de seus filmes foram exibidos em película por aqui) é um tanto complicado começar a falar de Schrader sem mencionar sua carreira como roteirista, não só por eles representarem seus grandes êxitos mas principalmente porque revelam/completam muito do que ele fez ao longo de sua carreira como diretor. Scorsese já declarou que não se sente muito a vontade falando de Taxi Driver porque o verdadeiro autor dele é o Schrader. E nem é preciso ir muito longe em sua carreira pra também enchergar isso: em Gigolô Americano, Julian Key representa uma espécie de radicalização das ideias bressonianas depositadas em Travis Bickle. Mas não para por aí, muito do que Schrader fez está poluído por esses personagens que tem uma curiosidade imensa no mundo, a sede de vísceras, de estudar e praticar o impraticável. Do pai que se infiltra no mundo do pornô em Hardcore a vítima que vira parte do bando em O Sequestro de Patty Hearst; da Nastassja Kinski tentando exitar, mas inevitavelmente descobrindo a si mesma em A Marca da Pantera ás crônicas escapistas de um artista sem talento em Autofocus, etc.

Muito desses personagens devem-se a experiências pessoais do próprio do Schrader, que recebeu uma educação rígida e descobriu muito do que o mundo era capaz já depois de adulto. Percebemos que seus filmes estão sempre em busca de algo que ao fim se tornam um enigma cada vez mais forte, no seu estilo que apresentado por 5 fases distintas: 1) seu início totalmente dependente da Nova Hollywood, embarcando numa de “filme de roteirista” vemos uma certa funcionalidade em sua direção); 2) o oitentismo em prol da revisitação de jornadas solitárias, que culminou em Gigolô Americano, uma de suas obras-primas e em A Marca da Pantera, onde ele já sentiu a corda arrebentando; 3) a fase mais visceral, das drogas, da direção estilizada, das cores. Como as duas primeiras, e durou na média das suas duas primeiras fases, o que com Mishima e Patty Hearst já é o suficiente preu afirmar que foi seu auge; 4) um lado mais maduro, não muito consciente dotado de um espírito de culpa desigual; 5) a fase Forever Mine. Sim, a fase do filme, um híbrido curioso, um melodrama que consegue conduzir uma trama absurda sem ter muito gosto pelo kistch. Algo entre Sirk, Chabrol e De Palma; 6) o resultado de muito daquilo que Schrader buscou dos anos 70 pra cá, são trabalhos mais conscientes, mais ácidos e bem menos orgânicos que o restante do que ele costumava fazer. Acima de tudo, estamos diante de um diretor de travellings, de filmes feitos para acompanhar figuras e tentar desmistificá-las.

1 Marcas da Vingança (Forever Mine, 99)
2 Mishima: Uma Vida em 4 Capítulos (Mishima: A Life in Four Chapters, 85)
3 Gigolô Americano (American Gigolo, 80)
4 O Sequestro de Patty Hearst (Patty Hearst, 87)
5 Uma Estranha Passagem Em Veneza (The Comfort of Strangers, 90)
6 O Dono da Noite (Light Sleeper, 92)
7 Auto Focus (02)
8 Temporada de Caça (Affliction, 97)
9 Hardcore – No Submundo do Sexo (Hardcore, 79)
10 O Acompanhante (The Walker, 07)
11 A Marca da Pantera (Cat People, 82)

João Bernard da Costa, num texto sobre Heaven Can Wait dizia: “foi Truffaut que disse, uma vez, referindo-se às célebres elipses lubitschianas (o Lubitsch touch) que “no ‘gruyère’ Lubitsch cada buraco é genial. Em Heaven Can Wait o queijo quase desapareceu e só ficou o buraco”. Pode passar meio despercebido por muito, mas é aí que fica evidente o quanto Lubistch tinha apreço pela subversão da expectativa. Algo que ele já vinha aprimorando desde A Princesa das Ostras e chegou como uma espécie de obsessão em Heaven Can Wait, onde acompanhamos um cara pronto para ir pro inferno e quando menos percebemos, ele não é tão ruim quanto deseja. Seus filmes são sobre aquilo que ninguém quer que seja.

Curioso é notar que Lubistch, realizador inegavelmente entusiasta do sexo, em seus últimos filmes ficou menos explícito (o que se torna ainda mais surpreendente se tratando do que era a sociedade entre as décadas 20-40). A Loja da Esquina (que, pelo seu início, pode invariavelmente ser confundida com um Capra qualquer) e Heaven Can Wait são dois filmes que se aproximam muito duma comédia romântica comum por sua estrutura – mesmo que ao longo de ambos, seja difícil não perceber os extremos comportamentos dos personagens sempre na linha ente o inverossímil e o afetado e eles se revelem típicas pérolas lubistchianas tão dignas quanto Sócios no Amor, certamente o seu filme mais perverso.

Mas meu preferido do diretor é mesmo Alvorada do Amor, um filme literalmente grandioso sobre o casamento, onde o que temos é nada mais que o cinema depurado, em seu estado mais físico. São planos e mais planos que criam personagens, que criam uma estória, que criam imagens, situações, e por aí vai. É como se você soubesse o tempo inteiro que aquelas imagens só possam existir naquele filme, ao mesmo tempo em que sente ele como um momento que você viveu. Afinal, nós vivemos mesmo aquilo que assistimos. E se já é tão difícil encontrar algum cineasta que consiga conviver com essa ideia, o que dizer então da quantidade dos que trabalham (e bem) com ela?

1 Alvorada do Amor (The Love Parade, 29)
2 O Diabo Disse Não (Heaven Can Wait, 43)
3 Sócios no Amor (Design for Living, 33)
4 Ladrão de Alcova (Trouble in Paradise, 32)
5 A Princesa das Ostras (Die Austernprinzessin, 19)
6 A Loja da Esquina (The Shop Around the Corner, 40)
7 Uma Hora Contigo (One Hour with You, 32)
8 Ninotchka (39)
9 Ser ou Não Ser (To Be Or Not To Be, 42)
10 O Homem Que eu Matei (Broken Lullaby, 32)

Sobre Jean Vigo, fiquei triste pela pouca quantidade de gente que foi ver lá na Saraiva. As cópias ótimas (apesar de eu desconfiar que a versão de O Atalante que passou estava meio picotada) e um papo muito bom depois. Esse não é o tipo de coisa que deveríamos ter só uma vez, né? São apenas 4 filmes, sendo seus dois curtas (Nice e Natação) belos exercícios de estilo. Sobre Zero em Comportamento, escrevi esse texto pro Ornitorrinco Cinéfilo, do qual reproduzo aqui esse parágrafo que resume (e é bem resumido mesmo) o que me impressionou no cinema de Vigo: François Truffaut já dizia que Jean Vigo, com sua pequena carreira – apenas um longa, dois curtas e um média-metragem – deveria ser eternamente lembrado como o cineasta que mais arriscou. E não seria de se espantar que Truffaut muito provavelmente está certo, pois Vigo com sua sua ênfase no caráter imanente das tragédias sociais cotidianas e sua estética de Realismo Poético criou obras que se aproximam muito do horror e são envolventes pelo que elas tem de mais encantadoras (há um famoso plano do homem na água em O Atalante  com a imagem esfumaçada de sua mulher que sintetiza isso). Não a toa que o legado de Zero em Comportamento se estendeu ao próprio Truffaut, que fez Os Incompreendidos em homenagem a ele; ao British New Wave – que infelizmente transformou algumas dessas ideias em malabarismos, mas formou autores sólidos como Lindsay Anderson – e pariu alguns dos poucos autênticos filmes políticos que o cinema realizou em muito tempo (o que, sendo bem generoso, não deve estar muito além do cinismo de um Paul Verhoeven ou Joe Dante).

1 O Atalante (L’Atalante, 34)
2 Zero em Comportamento (Zéro de conduite: Jeunes diables au collège, 33)
3 A Propósito de Nice (À propos de Nice, 30)
4 A Natação Segundo Jean Taris (Taris roi de l’eau, 31)

2 comentários em “Schrader, Lubistch e Vigo”

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