Batman inconcluso

Sejamos sinceros, esse Dark Night Rises é um filme por necessidade irregular. O primeiro fator que eu pensoser a causa (que é por ele ser voltado pras massas, e isso inclui bastante didatismo e uma trilha sonora bem redundante) andei pensando e vi que na verdade ele é só um sintoma de um outro fator: Chris Nolan é o diretor que melhor entende o que os críticos e o público querem ver nesses tempos, para o bem e para o mal. Ah, tem um terceiro fator também, mas que também leva a esse segundo: a insistência, o comodismo.

Nolan evoluiu quase nada desde quando fazia curtas na faculdade pra cá. O que isso tem a ver com o fator crítica/público é que eles compram esse estilo com a maior facilidade e, Nolan, esperto (tem coisa mais perigosa no cinema?) do jeito que é, vem se repetindo bastante. Tanto é que este último filme sobre o Batman emula algumas das ideias de Inception. Mas ele tem uma (des)vantagem em relação aos outros filmes do diretor: tudo é minimizado.

Me falaram bastante sobre umas teorias do teor político do filme; que ele é fascista, que é sobre o movimento Ocupe Wall Street, nas referências a Revolução Francesa e ao 11 de setembro mas felizmente não é nada disso. Além: isso me parece só um capricho do Nolan, evidente pelos diálogos meio bregas (aquelas frases de efeito que ele ama, e eu já aprendi a aceitar – e esquecer dois segundos depois de serem ditas) e o vilão sem peso algum interpretado por Tom Hardy. Só que como estamos no tempo no Facebook, onde se fala mais do que faz, isso tudo é necessário pra que o Nolan seja aceito, e é importante que ele saiba que tudo isso funciona como não mais que uma meme pra ser compartilhada.

Outra coisa é que o roteiro, claramente a maior obsessão do Nolan, assume uma postura muito mais deslumbrada que cerebral. Lembra um pouco os antigos exemplares do 007, especialmente naquela reviravolta da Marion Cortillard e o desfecho engraçado (apesar de eu não imaginar Terence Young filmando um flashback tão longo) e a genial aparição de Dr. Jonathan Crane – que permanece sendo o melhor vilão dessa trilogia – presidindo (!) um tribunal anarquista (!). E não é um deslumbramento como o de O Grande Truque, é algo que leva elementos de improviso, de sentir o peso do diretor num filme, um making off fictício. As cenas de ação transformam corpos em desenho animado e a Gotham ganha a face que eu sempre imaginei, de únicos-no-mundo (tanta coisa acontece e o governo americano nem existe pra eles), de desespero, longe de qualquer blábláblá sobre goticismo.

É acadêmico sim, mas distante dos excessos de descuido em Dark Knight, este tem momentos de placidez como a noção da importância de um close-up em Christian Bale e Anne Hathaway, nos campos-contracampos que resolvem alguns dos problemas do texto. É, acima de tudo, filme de decupagem (experimento semelhante ao que Nolan tentou fazer no Batman anterior e errou feio depositando toda sua fé numa montagem pra criar tensão e drama). Não diria que é filme digno de cineasta maduro, mas é de alguém tentando (ou voltando a tentar, pelo menos). E se tem alguma lição a se tirar disso tudo é que cada geração tem o diretor que merece.

***
Até umas duas semanas atrás tava acompanhando o Festival de Terror no Cine Olympia e tal, não tava acostumado a frequentar lá, encontrando vários amigos (em plenas férias…) e quase ninguém querendo marcar. Mas como era péssima a projeção dos filmes, muitos não se adaptam ao formato digital e a tela é fixa (Premature Burial não é dos grandes filmes do Corman, mas alguns planos mudavam totalmente). Era um negócio bem esquisito mesmo, continuei porque a maioria dos filmes são bons. Só que a programação também não é muito pofunda pro gênero né, lugares-comuns e mais lugares-comuns. E por fim ainda me vem esses problemas lá e o festival está totalmente parado. Nem se tem notícia de quando voltará, mas certamente eu não acompanharei mais. Fica aqui só os filmes que eu vi lá com as estrelinhas, nada mais.

Frankenstein (James Whale, 31) ****
Expressionismo como publicidade, Whale era humano.

Dracula (Tod Browning, 31) ****
Sobre faces. A de Bela Lugosi, mais precisamente.

O Homem Invisível (James Whale, 33) ****
A comédia do poder.

O Monstro da Lagoa Negra (Jack Arnold, 53) *****
Arnold, o mais elegante diretor de filmes-B.

O Monstro do Ártico (Christian Nyby, 51) **
No grupo do “nem tudo que reluz é ouro”.

Obsessão Macabra (Roger Corman, 62) ***
Trabalho interessante com a paranóia. Corman faria melhor em X.

Museu de Cêra (André de Toth, 53) ****
A mulher vagando pelo museu a noite é incopiável.

As Diabólicas (Henri-Georges Clouzot, 55) ****
Clouzot, o mestre do excesso, da falta de pudor.

O Túmulo Vazio (Robert Wise, 45) ***
Transposição do conto de Stevenson, mas Wise chegou a ser bom artesão.

10 comentários em “Batman inconcluso”

  1. Falando por mim,eu só fui naquele dia de Diabólicas msm. E lá no Olympia eu ja fui ver varias mostras e costumava ser organizado até, só nesse eu percebi q é mó mancada.

    E que negócio é esse d falar mal de cavaleiro das trevas?

  2. os grandes filmes do batman foram os do tim burton, nolan chegou a acertar em cavaleiro das trevas mas esse é fraquinho na linha do begins

  3. eu vi os mesmos pontos que tu viu, só que levei pro lado ruim da coisa mesmo, haha.

    “Chris Nolan é o diretor que melhor entende o que os críticos e o público querem ver nesses tempos, para o bem e para o mal.”

    bem isso.

  4. oq incomodava mais alem do desleixo com os filmes no olympia sãao as risadas do publico … era mto chato nos tantos filmes tensos passndo lá e todo mundo só rindo, fica mto dificil acompanhar algo atmosferico assim.

^-^

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