A expectativa

Que troço ruim essa tal de expectativa, hein? Desde que eu vi o Les bien aimes do Honoré e ouvi o That’s Why God Made The Radio dos Beach Boys instintivamente só me vem raiva e decepção a cabeça. Essa expectativa que muitas vezes deixa coisa boa passar batido (afinal, o álbum dos surfistas é bom), que me permite avaliar tal album-filme somente dentro do contexto da carreira da banda-cineasta. É complicado. Mesmo passados vários dias, tenho quase certeza de que não tou sendo totalmente justo com ambos.

Primeiro vem o deslumbramento: no filme do Honoré, era isso; bastava ver o estilo do diretor alí (mais estiloso que nunca, e isso tá bem longe de ser um elogio), Chiara Mastroianni e Catherine Deneuve compartilhando o plano, etc. Isso era suficiente, no momento. E quando eu menos percebo, vem a realidade: nada alí tá correndo como deveria. Incrível, os detratores do Honoré sempre alegaram que ele era um sintoma do hype de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Os Sonhadores, mas seu cinema sempre me pareceu honesto demais pra tais comparações. O que ele sempre fez foi trabalhar bem com suas fragilidades e limitações, rendendo filmes mais densos do que o seu próprio talento permitiria (o meu preferido, A Bela Junie, é o melhor exemplo disso). Mas de 4 anos pra cá Honoré já não é mais o mesmo; fez dois filmes de crise e chega agora com esse Les bien aimes que mais parece um discurso bem definido de “é isso que eu sou agora”. E o que ele é agora? Exatamente aquilo que seus detratores mais desejam.

Quanto ao disco do Beach Boys, me parece uma tentativa não muito bem resolvida de um retorno a fase pré-Pet Sounds do grupo, logo no início, mergulhados nas estruturas mais simples (mas que funcion[av]am plenamente). Não é uma emulação tão forte quanto a que eles faziam de si mesmos na década de 60, mas o jogo de texturas com os variados instrumentos tem bons momentos e confesso que o jeitão de abraçar a velhice do Brian Wilson a lá Tom Waits me agradou bastante. Só fica aquela sensação de que é mais um retorno feito nas coxas com uma pitada de oportunismo. Até desnecessário, talvez.

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Em tempo:Dizer o quê? Que o cinema é material? É palpável? Uma fábrica de metáforas? Um espírito pedindo por um corpo pra se tornar vivo? É um tanto irracional, mas é bem por aí… Entre sessões de Maurice Pialat e Catherine Breillat, aonde que eu imaginaria que quem iria me arrebatar era o Almodóvar?

2 comentários em “A expectativa”

^-^

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