Don Siegel

Mais de um mês de mostra e ufa, chegou ao fim. Apesar da projeção ter melhorado muito em relação as últimas mostras que eu acompanhei, ainda é exaustivo ficar aturando só uma rotina quarta-sábado sendo exibidos logo 3 a 4 (as vezes 5) filmes por dia. Tinham sessões que iam até, o quê, 2h da manhã? Alguém alguma vez entrou desde o primeiro filme e conseguiu ficar até o fim? O máximo que eu consegui foi fazer uma dobradinha agora no final com o ótimo Meu Nome é Coogan e a obra-prima Os Impiedosos. Dos 35 filmes que passaram só vi 12. É.

Mas falando de coisa boa, acho que descobri um dos grandes cineastas americanos de sempre. Eu o conhecia só pelas parcerias com o Clint Eastwood mesmo (duas delas que inclusive se revelaram seus dois filmes mais fracos e o outro o seu melhor) e tenho certeza que até hoje a maioria do público também preserva essa imagem dele de cineasta-veículo, infelizmente. Donald Siegel em algumas palavras: auto-consciente, ordinário, arquiteto, objetivo. Gênio.

5. O Último Pistoleiro
The Shootist, 76
Com o tempo, ganhou fama apenas como um veículo para John Wayne realizar seu testamento, mas ele é bem maior do que isso. A exemplo de Peckimpah, é um dos únicos westerns pós-Leone que não se rendeu aos valores espalhafatosos do italiano. Um duelo de camaradagem, o que por si só já é um evento. Conservando o que há de mais clássico no gênero, sendo um irmão menos pop de Rio Bravo e se aceitando numa contemporaneidade inconsequente. Eis os restos mortais do western.

4. Os Assassinos
The Killers, 64
A ideia de Siegel neste remake remete a de Herzog quando fez Vício Frenético, ambos querem andar em oposição ao seu original. O original, do Siodmak, era um noir dos mais típicos; enquanto Siegel parece filmar com um manual do gênero para fazer exatamente o contrário. De uma perversidade e moral condenável como só ele soube fazer. O ponto alto é o personagem de Lee Marvin, que assim como o que ele faz em Point Black, é o centro, mas nunca o corpo idealizado pelo diretor. Fico imaginando o que seria Siegel dirigindo um 007…

3. O Homem que Burlou a Máfia
Charley Varrick, 73
O filme de ação que Siegel promete fica na introdução mesmo. É mais um noir as avessas do que um filme de ação, aliás, trocando as paisagens urbanas cheias de sombras pelas manhãs ensolaradas do campo. Michael Mann deve ter visto muito esse antes de realizar seus primeiros filmes, especialmente os feitos pra TV, onde ambos dão conta de personagens amorais mas gostam de preservar a limpidez de um romance. Sem nunca cair no alcool-gel, é claro.

2. Os Impiedosos
Madigan, 68
A violência como necessidade. Necessidade a ponto de torná-la a essência do enquadramento, afinal, os personagens só fazem parte dele (leia-se dominam o espaço) se tiverem a violência como natureza ou pelo menos que ela seja seu elemento primordial naquele momento. Uma aula de montagem e forma um belo grupo com os filmes que Cimino e Friedkin realizaram na década de 80.

1. O Estranho que Nós Amamos
The Beguiled, 71
A cada segundo que passa eu me perguntava: ‘O Siegel tá fazendo isso mesmo?’ As surpresas já começam logo no início, quando o personagem de Eastwood afirma que uma menina de 12 anos já tem idade suficiente para ser beijada e logo em seguida a beija. É a persona de Clint Eastwood como eterno estranho desta vez entre mulheres supostamente pacatas num espaço puritano. Ainda mais improvável é saber que essas mulheres são as grandes vilãs manipuladoras do filme. Da apaixonada sonhadora interpretada por Elizabeth Hartman a menos certinha das alunas, todas prontas para manipular a visão de Eastwood. E não sendo tão pretensioso quanto Truffaut, eu diria que o suspense foi inventado para O Estranho que Nós Amamos existir.

E os outros filmes vistos por lá:
Vampiros de Almas (The Invasion of Body Snatchers, 1956) ****
O Sádico Selvagem (The Line-up, 1958) ****
Meu Nome é Coogan (Coogan’s Bleuf, 1968) ****
Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971) **
O Moinho Negro (The Black Windmill, 1974) ***
O Telefone (Telefon, 1977) ***
Alcatraz: A Fuga Impossível (Escape from Alcatraz, 1979) *

Um comentário em “Don Siegel”

  1. O q tu disse sobre Beguiled eu concordo totalmente…alias, demora pra cair a ficha daquele inicio com o Clint bejando a garota. do tipo de cena difícil de imaginar na década de 70 e hj em dia… mas meu preferido foi perseguidor implacavel. alias tenso hein essas 2 estrelas…

^-^

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