O Meu Caso

O Meu Caso é feito de bocados separados, que aparentemente não têm ligação nenhuma uns com os outros. Mas há um substracto comum. É esta a ideia do filme. O substracto comum é o homem. É a humanidade. A existência do ser. Perante os homens e perante Deus. Eu existo sem os outros. O grande problema é esse: existir sem os outros. Se não há outra coisa para além disto que coisa é esta? (…) A figura do Job representa essa expiação, sozinho diante de Deus…diante da ausência de Deus… Tão dividido, tão destroçado como a Guernica, que antes se vê e todo aquele cenário, toda aquela desfiguração. Até que Deus se amerceie de Job. E finalmente vem aquele sorriso da Gioconda… Um sorriso irónico, toda a duplicidade do homem…

A felicidade do homem na Terra é sempre – e será sempre – relativa, sempre muito relativa. Tem altos e baixos. O homem é capaz de se superar a si próprio – acredito – mas a si próprio individualmente. Porque com o sofrimento, com um acto qualquer, ele descobre-se, no fundo, outro. Porque morreu e renasceu um homem novo.

João Bénarda Costa – Mas Job estará feliz, no fim do “O Meu Caso”, na Cidade Ideal?
Manoel de Oliveira – Está porque comunicou com Deus. Comunicou com o absoluto. Mas nós homens, pobres homens, pobres mortais, que não somos Job, não temos essa felicidade de comunicar directamente com Deus.

João Bénarda Costa – Mas será isso a felicidade ou a irrisão da felicidade?
Manoel de Oliveira – …Esse é o enigma, esse é o enigma. Se há Deus, ou se não há, se existe ou se não existe. Julgo que é mais fácil acreditar na existência de Deus do que na Sua não-existência. Porque se a gente vê, se olhar para o mundo, para as estrelas, para tudo isto, há um mistério extraordinário. Tem que haver alguma coisa que sobrepaira a isto tudo. Tem que haver. Nós somos objectos de criação, não somos criadores.

– Entrevista de João Bénard da Costa e Manoel de Oliveira, em 1989

Rivette, Reisnais, Cassavetes, Nichols, Kazan… Após assistir um filme como O Meu Caso, ficou claro que esses mestres “só” tinham facilidade em lidar com o teatro sem deixar de fazer cinema. Alguns potencializavam suas características, outros subvertem elas. Falo disso porque depois dessa obra-prima do Manoel de Oliveira, qualquer outro filme que use influência de teatro vai parecer menor. O Meu Caso é teatro. Enquadrado no cinema.

Estranho que nos filmes do Eugene Green esse efeito dos atores representarem diretamente pra câmera chega a ser engraçado em alguns momentos (eu fico esperando eles saltarem da tela o tempo inteiro, não consigo evitar) mas aqui em Meu Caso nada incomodou. Talvez não tenha tanta profundidade (exagero?), não sei, é tudo muito centrado e sem espaço pra qualquer defeito. Um filme tão grande que não cabe no próprio cinema.

^-^

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