Entre o prazer e a necessidade de fazer música

Port of Morrow, Wrecking Ball, MDNA… Para o bem ou para o mal, devem ser 3 dos discos mais comentados do ano. Por razões óbvias. E as comparações entre os 3 terminam aí mesmo, porque enquanto Bruce Springsteen promove uma relação forte e justa entre personagem/artista, Madonna e Mercer/Shins reduzem, escancaram, jogam e torturam esse personagem. Port of Morrow e MDNA são duas provas de que nem sempre o artista estar no domínio é o melhor. Springsteen fez de sua carreira uma representação de América real vs. América idealizada, não é de espantar que é até hoje ele tenha discussões de sobra pra soltar em suas letras nervosas e calculadas; no caso do Wrecking Ball, temos um discurso artístico sobre tudo que vem ocorrendo desde a crise de 2008/governo do Obama. Já Madonna e Mercer também impregnam seus discos com discursos, mas que mais parecem matérias amadoras de jornais tendenciosos: Mercer repete ao longo do disco inteiro que não é ambicioso, que é simples etc. e insere um ou outro assunto meloso pra confundir o ouvinte. Oras, mas sabendo que Port of Morrow é o primeiro disco pelo selo do Shins, não é natural que ele seja “só mais um”? Antes este disco fosse “mais do mesmo”, mas ele não só é uma diluição imbecil dos dois primeiros discos do grupo como também ainda tenta mascarar sua falta de coragem com artimanhas fúteis. O que não  é muito diferente da Madonna que, na teoria, poderia fazer um disco consistente sobre o fim de seu casamento com Guy Ritchie, mas na prática é uma salada sem gosto algum que, tentando agradar a todos, acaba não pegando ninguém de verdade. Há uma necessidade de tocar no melodrama (talvez o lado mais pessoal do MDNA, o que não quer dizer nada, afinal, o que é Masterpice comparada a What If Feels Like for a Girl?), as produções preguiçosas de William Orbit pra iludir os fãs mais conservadores, Martin Solveig tentando atualizá-la ao público do LMFAO, etc. Port of Morrow e MDNA são dois discos picaretas de artistas que a cada dia se distanciam mais de seu propósito e preferem não enxergar isso. Wrecking Ball é um disco de um artista de uma ideia só e que, vejam só, já funciona há quase 40 anos – e a cada dia que passa é mais centrado.

Em tempo: como é difícil achar algum texto interessante sobre qualquer disco do Bruce Springsteen pós-11 de setembro. Ás vezes alguns artistas viram motivo de piada só porque os críticos ficam cômodos demais com eles. Springsteen e U2 são dois grandes exemplos, porque ambos estão em boas fases criativas (No Line on The Horizon é subestimadíssimo, fácil o melhor disco do U2 desde o início da década de 90) e ninguém se interessa em dissecar seus discos. Pegando dois exemplos bem opostos de conservadorismo e liberdade pra cena atual: enquanto a Rolling Stone se resume a chamá-los de “gênios”, a Pitchfork faz 5 parágrafos pra definir “coxinismo”. Vai entender…

2 comentários em “Entre o prazer e a necessidade de fazer música”

  1. Certo, mas o disco do Shins é muito bom.
    E tenho certeza que tu é o primeiro que eu vejo comentar sobre esse do Bruce Springsteen rs…

^-^

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