5 coisas sobre Drive

1) O Carro: No Tarot de Marselha as figuras de 0 a 5 são seres sobrenaturais; com capacidades sobre-humanas, inalcançáveis. A partir da sexta figura, o ser-humano começa a surgir; com ele vem junto as escolhas, as frustrações, a vontade, há dramas, há impasses, há intrigas. Na sétima figura, o ser-humano tem um novo amigo: o carro. Com ele a sua volta, não há nada disso. O ser-humano com um carro é visto como expressão de poder, é fascinante; no caso aqui, The Driver – como ele mesmo diz – “dirige” e isso faz dele mais do que um ser-humano, faz um mito, um herói. No próprio Tarot, essa figura já é vista como algo muito maior que os tais inalcançáveis.

2) Ryan Gosling: Os atores costumam ler roteiros antes de aceitar ou não a proposta de fazer um filme e se preparar para criar (ou recriar) um personagem. Em, Drive, se o Gosling tivesse criado seu personagem, através do roteiro, o filme provavelmente não seria tudo que ele é (mas sim, o roteiro não é tão nulo quanto tão dizendo por aí). Toda a austeridade do The Driver está só no Winding Refn, assim, Gosling e ele transformam-se em um só. Do tipo de composição de personagem que a gente vê só de vez em quando, assim como foi com Delon e Mellvile, Eastwood e Leone, etc. Um mito de ações, quase sempre sem palavras. E Gosling entendeu bem isso tudo: Drive tem até o fim um clima de investigação e Gosling carrega em si na maior parte do tempo expressões vazias e gélidas. É aí que está, cada raro gesto ou movimento do personagem é uma nova informação que o espectador vai acumular. As escolhas dos atores são bem interessantes, e sempre mostram bem toda ambição do filme: um rosto jovem e se estabelecendo como um dos atores mais bem quistos de sua geração como Ryan Gosling, a mocinha carismática também jovem e também um dos símbolos de seu tempo como Carey Mulligan, estrelas da TV “emergentes” no cinema como Christina Hendricks e Bryan Cranston, veteranos brincando com sua própria persona como Albert Brooks… Drive já nasce como um clássico.

3) Nicolas Winding Refn: Tudo o que li sobre o diretor antes de assistir Drive era basicamente que “ele é um diretor interessante em busca de um estilo próprio”. Eu não sei se antes ele já tinha encontrado este estilo, mas em Drive definitivamente ele não está mais em busca de nada. Tudo que ele precisa pra filmar um grande filme está ali; e ele o faz, sem grandes dificuldades. Suas sobreposições, os contracampos em meio ao agonizante silêncio, a mise-en-scéne rigorosamente bem trabalhada, a câmera lenta (estigmatizada como algo somente ruim e videoclíptico desde o surgimento de uma aberração da natureza chamada Zack Snyder), tudo aí forma uma melodia só; a violência é elevada a belas imagens-movimento. É um filme que se assume como artificial, certo e frívolo demais e adota tais características sem pensar duas vezes. Refn investiga e questiona cada movimento de seus personagens, investiga a violência que filma. Mas filma o necessário: temos um espaço onde o personagem faz algo, e a câmera capta isso. E só, sem espaço para vírgulas.

4) “Um action-movie”: Estamos num momento onde filmes nostálgicos e/ou saudosistas estão em alta. Uns mascaram o seu saudosismo com firulinhas chatas (O Artista), outros se assumem apenas como homenagem (Super 8), outros usam destas características e conseguem se sair bem dialogando com os dois tempos (Hugo), etc. Mas Drive se assume como um resgate do cinema de ação dos anos 70-80 e junto com ele traz aquela sensibilidade que nunca parece se conectar de verdade com a narrativa. Drive é um filme fake por excelência. A figura do super-macho-implacável-solitário é restagatada e superpotencializada por Winding Refn, numa época onde a figura do herói já não é mais tão querida assim. Se formos ver na última década, por exemplo, os grandes heróis são aqueles dos quadrinhos e não há porque justificar toda aquela força sobrenatural deles, logo, sobra tempo demais para criar-se uma pseudo-vida comum deles e quase nenhum para desenvolver sua figura como herói. Seja um nerd feito Peter Parker/Home-Aranha ou um playboy feito Bruce Wayne/Batman. Martin Campbell já tinha debatido sobre essa questão da figura do herói estar em depressão no nosso tempo no pouco discutido 007 – Cassino Royale.

5) Synth-pop: Esse é um subgênero da música electronica famoso por suas variações discrepantes, assim como o personagem em questão do filme. Mesmo com todo o “código de honra”, todas as ações do The Driver são sempre uma surpresa, especialmente nas mais sangrentas, e a princípio não parecem fazer sentido com a responsabilidade que ele mesmo carrega. Drive se assume (não sei quantas vezes eu falei essa palavra nesse texto, mas é porque é exatamente isso: um filme sem medo de ser aquilo que é, seja algo ruim ou bom) como um filme dependente da trilha sonora, onde cada música descreve melhor que qualquer frase do roteiro, o personagem. E os conflitos que ele vive, nada mais são do que continuações dessa trilha (ou seria o contrário?). Os planos gerais, na noite de Los Angeles especificamente, confirmam isso.

E só porque eu não vou baixar o filme (não agora, pq depois devo rever bem umas 100 vezes): em vídeo, a cena do elevador, também conhecida como A CENA:

3 comentários em “5 coisas sobre Drive”

  1. Isso aí, Lucas! Concordo com quase tudo que tu disses, mas não acho que seja um filme fake. Acho que isto faz parte do resgate de um outro cinema de ação também, que sempre andou junto com as narrativas mais lentas (a trilogia dos dólares é mais ou menos assim). Tudo pra mim cabe direitnho.

    Abraços ;-)

    1. Grande Juliana, volte sempre hein! E, não sei se vc entendeu assim, mas isso não é bem um demérito pra mim. Mas sim, acho que todo o unidimensionalismo e a narrativa “indieland” pra um filme de ação soa meio falso sim. É como se o prólogo fosse uma bebedeira num bar, e o resto do filme fosse a ressaca do dia anterior.

  2. Pode demorar para realmente cair a ficha, mas quando cai, não restam dúvidas a respeito de Drive: é um filmaço – talvez o melhor do ano. E essa cena do elevador é A CENA mesmo, disparada a melhor do filme.

    Curiosamente publiquei um texto recente para o filme. Uma crítica. Salvei nos rascunhos do Ornitorrinco mas ainda não foi publicado… eh bien, mas está no Injeção Cinéfila. Eis o link: http://wp.me/p294n7-4F

^-^

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