Desvirginando 2012

Passada a época das listas, finalmente 2012 começa pra valer por aqui. Passei a semana vendo alguns dos primeiros filmes do ano, leia-se as sobras de 2011, e como rolaram algumas surpresas/decepções, um post pra isso é bem-vindo. Pretendia colocar os primeiros discos que ouvi esse ano também mas como todos são uma bosta, nem ia valer a pena.

Começando pelo novo e aguardado filme de Steven Spielberg, Cavalo de Guerra. Uma espécie de união entre as aventuras infanto-juvenis dele (pra mim, seus melhores filmes) e seus melodramas mais esquemáticos. Vou logo dizendo que esperava bem menos. Ok, isso não quer dizer muita coisa, mas conseguir emocionar em duas ou três cenas já é um avanço na carrreira do diretor. Em muitos momentos estão lá as mesmas pataquadas de sempre: uma sede pela grandiosidade que enfraquece a mise-en-scene, cenas-espetáculo que te sufocam, trilha tosca do John Williams e os mesmos artifícios controladores pra despertar o sentimento que ele tiver afim. O bom é que aqui Spielberg está em sua zona de domínio. A narrativa em tom clássico, muito semelhante a do subestimadíssimo Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (embora aqui Spielberg não esteja com um décimo do controle) tornam os artifícios menos manjados – mas nem sempre eficientes. E depois que tudo não parece mais que uma grande fábula, Spielberg já tinha me ganhado completamente. Só poderia ter oscilado menos, né? As já citadas cenas-espetáculo não entram em contato com o resto do filme. E eu achando que ele já tinha superado esses problemas desde Guerra dos Mundos… Fora que essa necessidade de colocar um lado como bom e outro como ruim na Guerra já deu (mesmo na sequência estranha em que dois soldados de lados opostos se unem pra salvar o cavalo).

Detalhe para os screens que mostram bem esse “emprego” clássico do filme, desde a conduta moral e a descência com que Spielberg trabalha seus personagens (fazendo juz as comparações com Ford) até a inocência que em nada incomoda. A cena final, lindíssima, uma bela homenagem a …E o Vento Levou. Não duvido mais da capacidade de Spielberg e, quem sabe, se ele continuar nesse caminho, se torna o diretor que tanto sonha.

Tinker Tailor Soldier Spy (melhor que o nome nacional, que também é ótimo) é meio decepcionante vindo de Tomas Alfredson. Na verdade é um filme bom, um thriller cheio de charme, bem diferente dos filmes atuais do gênero, com sequências muitíssimo bem filmadas. Talvez o grande problema esteja comigo, que fui ver o filme ligado demais em ver uma estória ser contada. E não é isso que acontece: desde o início tudo é tímido demais, os mstérios parecem ter medo de acontecer. Deve ter alguma depedência do livro de John le Carré, que eu não li mas também nem vou condenar Alfredson por iso (perdi a conta da quantidade de filmes que ficam melhores porque dialogam com outras obras que eu conheço). O desempenho de Gary Oldman é outro incômodo. Não que ele seja um mau ator, mas fica fora dom tom o filme inteiro. A grande ambição de ‘O Espião’ em quer a cada plano parecer ‘épico’ ou grandioso é um perigo e tanto, e nem Alfredson corresponde a tudo isso. O que certamente o tornará ainda menor aos olhos dos mais exagerados. É um filme interessante, deve melhorar numa revisão, já com maior conhecimento sobre a trama.

Um filme que eu fui ver quase que obrigado ontem a noite é Histórias Cruzadas, esperando algum daqueles filmes feitos sob medida pro Oscar. E, de certa, forma é exatamente isso que ele é. Mas posso dizer que ao menos o tal do Tate Taylor me pareceu bem intencionado. Os personagens são didaticamente distribuídos entre bons e ruins, sendo que quase nenhum chega a alcançar um bom nível de interesse. A trama dilui temas importantes pra levar a lugar nenhum (ainda quero entender se aquele final com Viola Davis caminhando por aí era pra ser algo considerável ou só uma solução de melodrama oco). E a personagem da Emma Stone? Era pra ser uma garota independente? A boa moça? Basta aparecer um homem pra ela que os rumos que a personagem toma desabam. Esse é só um dos péssimos exemplos. Enfim, parece uma novela das 6. O ruim é que por vários momentos, o filme tenta abraçar uma atmosfera mais teatral-kitsch – talvez assim fosse bem-sucedido -, mas o próprio diretor se recusa a arriscar algo além do óbvio. E já que é tudo uma disputa entre grandes atrizes (não se surpreenda se todas elas passarem pelo Oscar), devo dizer que quem sai ganhando é a Jessica Chanstain, a personificação do que The Help poderia ser/tem de melhor.

E, passando mais rápido, os indies: 50% é correto. É levemente divertido, levemente agradável, levemente emocionante, levemente conduzido, etc. Passa perto de ser melhor que isso quando Levine pula do eixo cômico para o dramático (e visce-versa), mas não é porque é leve. Também passa perto de ser mais um filme indie afetado, mas também não consegue porque também é leve demais pra isso. É, um filme leve (risos)… E Martha Marcy May Marlene? Tinha certa curiosidade em ver, depois de ler uma comparações com Lynch, mas o filme é uma grande bobagem. Coisa típica de Sundance mesmo, com ideias interessante na premissa, mas chega na hora do vamovê e o Sean Durkin não tira porra nenhuma delas. Na verdade, é quase como um carnaval em cima de tudo que ele queria tratar. E as firulas de suspense genérico irritam (toda vez que a câmera se aproxima de Martha é aquela mesma coisa). A Elizabeth Olsen atua bem, mas sua personagem era muito melhor e mais interessante quando estava só na minha mente, antes de ver esse troço. Semelhante a Martha nesse sentido é Precisamo Falar Sobre Kevin, outra decepção pra mim: entre um ou dois minutos, a diretora foca mais na narrativa e aí consegue abordar os temas com uma certa eficiência, mas em 90% do filme é uma sabotagem sem fim, em prol de um estilo que nem sequer existe. É só irritação mesmo. No fim, está muito mais para Requiem para um Sonho do que pra Elefante. Só vale a pena elogiar a Tilda Swinton e olhe lá.

Em estrelas:
50%, de Jonathan Levine ***
Cavalo de Guerra, de Steven Spielberg ***
Histórias Cruzadas, de Tate Taylor **
Martha Marcy May Marlene, de Sean Durkin *
O Espião que Sabia Demais, de Tomas Alfredson ***
Precisamos Falar Sobre Kevin, de Lynne Ramsay **

2 comentários em “Desvirginando 2012”

^-^

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