John Cassavetes

Já tem um tempinho que acabou a mostra dele aqui (e vi quase todos), mas só agora percebi que ainda não havia postado aqui ao menos um top5 deste que é considerado o pai do cinema independente americano. Os filmes de Cassavetes buscam não narrar uma estória, mas captar emoções através de situações carregadas de poder afetivo. Em seu cinema, a estória não antecede os personagens, mas é por eles secretada. Por isso decorre o mito, muitas vezes sustentado por seus intérpretes e outras tantas desmentido pelo diretor, de adotar o método da improvisação. Sem roteiros, os atores sabem quem são os personagens, seus perfis, e o diretor (dizem) deixa que eles inventem as falas na hora.

Intérprete experiente de teatro e de cinema, Cassavetes levou, ao passar para trás das câmeras, uma atenção especial à atuação. “O ator é a força criadora fundamental, porque, se a atuação é boa, o filme se torna bem-sucedido, e o trabalho da equipe é, em última instância, secundário.” Não a toa que Gena Rowlands, mulher do diretor, teve suas melhores atuações nos dez filmes que participou de seu marido. A liberdade formal que seus filmes transmitem tem a ver com essa escolha. Em vez da beleza dos enquadramentos, nota-se um aparente desleixo. Pois o que interessa ao diretor é a tonalidade e a qualidade das emoções.

Como Ingmar Bergman, seus filmes têm poucos personagens, como em Faces, por exemplo, as filmagens são praticamente todas em ambientes internos, geralmente interior de casa, mas diferentemente do diretor sueco, seu cinema é o mais real cotidiano que surreal. Cassavetes tem o ímpeto de ser mais realista ao dizer que tudo é filme antes do filme começar, fazer uma avaliação de sua obra antes de mostra-la, e deixar avisado que tudo é real, verossímil e possivelmente causará angústia em um casal de meia idade qualquer.

05) Os Maridos
The Husbands, 1970

Se em Faces, Cassavetes encara o abismo, em Os Maridos, de 1970, o abismo encara de volta. A comédia humana na qual três amigos se lançam, após a morte do quarto companheiro é absolutamente plena de humanidade e respeito pelos traços mais desesperados da existência. O turbilhão histérico compete com as barreiras inexoráveis da tristeza e do tédio. O mal-estar e a cumplicidade andam de mãos dadas em todas as cenas neste que é mais um filme em que Cassavetes reflete sobre a consequências inevitáveis da velhice.

04) Faces
Faces, 1968

A crueza do filme se traduz em sinceridade. Através dos diálogos é possível identificar-se com facetas de praticamente todos personagens, porque eles são tão reais. Não dá pra encontrar um supérfluo dentro da trama. Apenas eles estando em cena, lhes são revelados características íntimas. Isso é uma constante. Em um de seus extensos diálogos, Dickie fala que amigos nunca se levam a sério. Os personagens nunca são quem eles mostram ser à primeira vista e é fascinante descobrir quem é cada um a cada minuto do filme, e de perto. Faces é Cassavetes abusando dos closes.

03) Uma Mulher Sob Influência
A Woman Under the Influence, 1976

Raras vezes no cinema a dinâmica emocional de uma família (e de uma mulher) foi exposta com tamanha energia, atirando o espectador no centro de uma tempestade que parece interminável, enquanto os personagens buscam um ponto de equilíbrio no qual possam ancorar a própria angústia. O excesso e a falta que conduzem a personagem de Mabel ao abismo em Uma Mulher sob Influência passam diante de nossos olhos como uma experiência que mais parece feitiçaria. Melhor interpretação de Rowlands.

02) Amantes
Love Streams, 1984

Se há um filme-síntese de Cassavetes quando se diz respeito ao desenvolvimento dos personagens, esse é Amantes. Aqui o que eles fazem ou deixam de fazer pouco importa, a relação entre os dois sim. Não se sabe o que exatamente está acontecendo com os dois ou mesmo entre os dois, mas é possível perceber o que eles estão sentindo, como se sentem em relação ao outro e ao que acontece em suas vidas que antes estavam separadas, mesmo que o público não entenda exatamente o ocorrido.

01) A Morte de um Bookmaker Chinês
The Killing of a Chinese Bookie, 1976

Longe de constituir um filme policial, como o nome até sugere, A Morte de um Bookmaker Chinês é a crônica de uma derrota. Uma derrota esplêndida, que paradoxalmente não arrasta a alma do personagem. A narrativa, que começa com um tom sedutor, torna-se sombria quando os bandidos vêm coletar a dívida. Não querem dinheiro, querem sangue. Exigem que Cosmo mate um bookmaker chinês, que suje as mãos num acerto de contas que não lhe diz respeito. Ele não pode dizer não. A independência que ele tanto preza está definitivamente comprometida.

5 comentários em “John Cassavetes”

  1. fala ai lucas, tinha ido só na semana q foi big trouble.. n fostes n?? ei e esse mes vai ter la no CLL especial da claire denis (diretora francesa d desejo e obsessão e minha terra africa, n sei se tu conhece), a gnt bem q podia marcar d ir um dia ne…

  2. O diretor que mais capta a realidade e possui respeito pelos seus personagens, na minha opinião. Acho “Mulher Sob Influência” o auge da carreira dele, por que exibir uma dona de casa ficando maluca, com todos seus olhares e tiques, e não fazer nenhum julgamento ou coisa do tipo é coisa de mestre. Um dos maiores diretores americanos fácil…
    E aproveitando, “Desejo e obsessão” é fodástico!

^-^

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