No Silêncio da Noite

Nicholas Ray, 1950

No Silêncio da Noite, de Nicholas Ray é o que podemos chamar de um filme atípico. Apesar de ser considerado por alguns um filme de drama, ele é um noir que mistura diversas características dos dois gêneros – se é que podem ser assim chamados – criando um resultado inusitado. O cínico personagem interpretado por Humphrey Borgart é em si um primeiro grande diferencial do filme. Conhecido pelo nome de Dixon Steele, ele é um roteirista de Hollywood sofrendo writer’s block, é paranóico e tem sérios problemas de temperamento. Já em sua ocupação vemos que este noir não segue a “regra” máxima do gênero onde o personagem principal é um investigador privado ou da polícia.

Chega o momento então que Dixon estoura de fúria devido a um comentário da mulher de seu amigo e sai vagando pela noite, retornando as suas origens em busca de confusão. Ele acaba espantando um jovem motorista da na estrada, chegando muito perto de cometer um assassinato. Este comportamento errático faz com que Laurel acabe certificando-se de que ele é um assassino. Ela então decide fugir, mas é tarde demais, Dixon acaba então lhe propondo em casamento. No que toca ao final do filme, em terminado momento Dixon acaba tornando-se ainda mais violento, a ponto de se tornar um perigo para aqueles em volta dele. No clímax das revelações ele acaba chegando muito perto de assassinar Laurel para só então ser inocentando por uma ligação telefônica. Entretanto é tarde demais, este é um final trágico, sombrio. Mostra a todo mundo que o amor não supera todas as adversidades, que quando a sombra da dúvida é plantada o mesmo pode acabar não florescendo.

Essa, segundo dizem, era uma visão de mundo do próprio Ray, um homem que vivia no meio de tudo isso, da jogatina, drogas, álcool e femme fatales, em suma: um homem que vivia afundado no próprio universo que ele expunha nas telas de cinema. Também se especula que o temperamento do Dixon era inspirado no do próprio Ray que sempre estava envolvido em brigas com estúdios e pessoas da indústria.

O filme não toca no tema da cidade como personagem, onde existem vícios e perigos a cada esquina, pelo menos não de forma clássica. É possível que o espectador assista No Silêncio da Noite e nem note algumas locações que fazem parte do estilo Los Angeles, como a delegacia, praia ou o conjunto de apartamentos em que vivem os protagonistas, apesar de todos esses elementos estarem bem presentes em filmes do gênero. O que é mais interessante para Ray é mostrar como agiam alguns personagens da Hollywood daquela época, com agentes, atores fracassados e roteiristas à beira de um ataque de nervos por não conseguirem mais trabalhar no pós-Segunda Guerra Mundial. É um filme muito mais movido pelos seus personagens e dramas pessoais do que maquinações de plot muito comuns na maioria dos outros noir.

Também é necessária uma menção ao título original do filme, “In a Lonely Place”, que não apenas é dita numa frase em determinado momento do filme, mas é também em si uma afirmação sentimental de onde se encontra o personagem de Bogart no decorrer de sua vida e ao final de seu breve amor. Após todo este panorama é possível afirmar que mesmo não sendo um noir tradicional, No Silêncio da Noite acabou ainda assim tornando-se um dos filmes de maior referência para o gênero e para o seu diretor.

5/5

^-^

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