Super 8, seus primitivos e contemporâneos

Tenho que começar citando uma parte da crítica da Cahiers du Cinema para esse mesmo filme: “É engraçado: os críticos que tanto falavam mal de Steven Spielberg por ter se rendido a liderança das bilheterias, criando a definição blockbuster e afundando de vez o cinema autoral, hoje estão aí defendendo Super 8, falando que é uma homenagem lá aos primeiros blockbusters diretos da década de 70-80 como se fosse algo bom.” É bem por aí mesmo, muitos insistem em ignorar, mas é fato que o que tem de blockbuster por aí que é tão cinema quanto qualquer filme de Godard, Antonioni, Fellini, Bergman, etc, não é moleza.

Agora, direto ao que interessa…

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Super 8 (J.J. Abrams, 2011) é acima de tudo uma deliciosa brincadeira, feita por gente que entende do assunto, que sabe o seu lugar e melhor: sabe explorar suas limitações. Sim, J.J. Abrams prova mais uma vez que é um dos mais competentes nesse ramo de caça-níqueis hollywoodiano. Até o monstro tão criticado não trás muita relevância, o que importa mesmo é acompanhar aquela aventura dos garotos e suas relações sinceras e bem transportadas. Aqui você não vai encontrar grandes doses de drama, nem nada muito realista (como nos Batmans de Nolan, no último X-Men e em Watchmen), talvez um pouco de comédia e um misto de suspense, mas tudo é extremamente aventuresco, sem a mínima pretensão de ter sequer um momento real. Só pra gerar uma ideia: o filme se passa no finalzinho da década de 70 e aparece um cara com walkman escutando Blondie (uma das melhores de todo o filme). J.J. deve saber que o walkman é só da década de 90, mas quem se importa? O bom mesmo é entrar no espírito do filme e durante aquelas 2 horas, imaginar o inimaginável.

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Os Goonies (Richard Donner, 1985), apesar de usar e abusar dos elementos de fantasia, é um filme onde você facilmente se identifica, seja pelo grupo de garotos principais que não são exatamente o maior exemplo de heróis que queremos por aí, ou seja pelos temas abordados como a adolescência, que fluem tão naturalmente a ponto de você nem notar todas as inverossimilhanças ali presentes. Dentre tantos excelentes momentos, destaco o plano aéreo em que os garotos andam de bicicleta, seguido por um pequeno travelling para a esquerda, mostrando o centro da aventura. Talvez o melhor dos exemplares de blockbuster oitentista, bem dirigido pelo competente Richard Donner e um roteiro extremamente inventivo.

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E.T. – O Extraterrestre (Steven Spielberg, 1982), uma estética e qualidade técnica atemporal. Ao contrário de Os Goonies, que é uma aventura para todas as idades, E.T. – O Extraterrestre é unicamente para crianças e até maltrata bastante os adultos. Quando os adultos assumem o controle do filme, tudo parece descrente, realista demais, leia-se morto. Elliott é a criança que Spielberg gostaria de ter sido, o homem da chave é o adulto que Spielberg se tornou. Mil coisas poderiam ser distas, mas basta a cena do vôo da bicicleta na lua cheia, que seria a síntese de tudo aquilo que E.T. – O Extraterrestre representa (seja piegas ou não). Se não existisse o historiador desajeitado, talvez fosse o melhor do Spielberg.

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Contatos Imediatos de Terceiro Grau (Steven Spielberg, 1977) tenho alguns problemas com a parceria John Willians-Spielberg, mas aqui especialmente sua trilha é ótima. Dá todo o tom extraordinário que os tais contatos impõe. Apesar de também tratar sobre ufologia, Contatos Imediatos de Terceiro Grau não possui o mesmo estilo narrativo de E.T. – O Extraterrestre, pelo contrário, ele tem uma maior proximidade até com o fraco Tubarão. Também não vamos negar: sua abordagem já não é mais tão pertinente hoje em dia, mas ele tem uma composição visual inigualável e uma cena final antológica. Fora que é uma das direções mais inspiradas do Spielberg. E tem Truffaut atuando.

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Paul (Greg Mottola, 2011), tal como Super 8, baseia-se muito por suas referências a blockbusters oitentistas, mas ao contrário do primeiro, não faz delas 90% de suas qualidades artísticas. Para além de ser um filme sobre referências, Paul é também sobre amizades; sobre a convivência forçada e como ela te leva a criar laços; um road-movie belíssimo. Tem a dupla mais genial da última década (Simon Pegg e Nick Frost). Tem uma das grandes comediantes do cenário atual (Kristen Wiig), finalmente desabrochando nas telonas passando de religiosa reprimida a uma desbocada durona. Tem aquele que dará sentido a vida dos outros: o alien, numa composição divertidíssima de Seth Rogen, pode até ser encarado como uma versão (bastante) moderna do personagem de Jack Nicholson em Sem Destino. De tantas comédias boas que tem saído em 2011, talvez essa seja a melhor. Grande Mottola. Ver E.T.s falando palavrões é sempre bom.

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A Morte do Demônio (Sam Raimi, 1981) já tentaram me assassinar por dizer que sou mil vezes o Sam Raimi da trilogia Homem-Aranha do que a trilogia A Morte do Demônio. Curiosamente, o lado do diretor que Super 8 homenageia é o do terror, e não do blockbuster. Porque não sou um fiel apreciador de qualquer filme de terror e esse é definitivamente qualquer filme de terror. Sem os traços visuais hipotizantes do que italianos como Maria Bava e Dario Argento fazem; sem as críticas pertinentes de George A. Romero; sem a tensão ilimitada de John Carpenter… O que me agrada mesmo é o estilo fanfarrão do diretor (que permanece até hoje), consciente de seu brusco orçamento e tentando usar isso a seu favor, acaba sendo o pioneiro no que conhecemos hoje como comédia-terror.

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Halloween – A Noite do Terror (John Carpenter, 1978) o diretor aprendeu bem que para alcançar o suspense não é nescessário exibir violência extrema e derramar muito sangue, e sim explorar o medo carnal e o psicológico do ser humano. Michael é a ausência de sentimentos genuínos, frieza, falta de remorso e culpa para atos cruéis e inflexibilidade com castigos e punições. É perceptível o voyeurismo na qual ele pratica, é como uma espécie de paquera de colegial, Michael se demonstra semelhante a um garoto tímido de colegial, aquele típico garoto que paquera de longe a garota desejada mas não tem coragem de partir para o diálogo, sua vítimas são na verdade suas fantasias, etc.

P.S.:
– O curta dos créditos é obra-prima das grandes, sem pensar duas vezes. Charles pode, a primeira vista, parecer um pouco tímido na direção, mas logo mostra a que veio com alguns dos planos mais lindos de 2011. É consideravelmente inspirado em A Morte do Demônio, mas além de muito humor negro, trasheza, tem também uma sincera estória de amor e doses altíssimas de suspense. Não tô brincando.
– Deve ter faltado só Conta Comigo nesses tantos de homenagens. Eu esqueci de fazer uma revisada, mas pelo que eu lembre, é o mais fraquinho e mais próximo da geração atual filmes-de-cachorro da Sessão da Tarde (risos).

5 comentários em “Super 8, seus primitivos e contemporâneos”

  1. bom post, lucas. o filme dos muleques no final é ótimo mesmo HAHAHA e o filme em si é das melhores coisas q eu vi esse ano.
    tava querendo relembrar mesmo esses filmes aí, pena q hoje em dia nem passe mais na sessão da tarde e o cinema em casa virou um bagunça só D:
    abraços

^-^

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