Dublê de Corpo

Brian de Palma, 1984

O toque hitchicockiano dos filmes de Brian De Palma começou a chamar atenção com Irmãs Diabólicas. Alguns críticos chegam a tê-lo como o legítimo herdeiro do diretor britânico – o que, apesar da qualidade técnica de Brian de Palma, a comparação chega a ser um exagero. Em Trágica Obsessão, a versão de De Palma para Um Corpo Que Cai, ao contrário de Dublê de Corpo, baseou-se numa leitura livre da obra de seu ídolo. Na realidade, Jake Scully é a reencarnação dos personagens interpretados por James Stewart em Janela Indiscreta e Um Corpo Qeu Cai. Jake adota o maneirismo obsessivo de estar sendo perseguido, como no primeiro filme, e é vítima dos encantos sedutores da mulher que faz de isca, como acontece ao policial aposentado, no segundo filme. A veneração de De Palma pelas obras de Alfred Hitchcock vai além de meras semelhanças. Ele reproduz cenas-chave de seus filmes, como a sequência circular do beijo e o famoso efeito de vertigem que Hitchcock realizou em Um Corpo Que Cai. As versões destas cenas trazem certo exagero, o que permite aos fãs dos originais reconhecerem a homenagem.

O exagero de De Palma leva o filme para o terreno da farsa, mas também existe uma dimensão de auto análise, pois são empregadas técnicas que mostram o conhecimento da mudança de política em Hollywood. Submetido à censura, Hitchcock valia-se da sutileza e da ironia para expressar o voyeurismo, com grande perspicácia e características compensadoras. De Palma, ao contrário, decide tratar a questão de forma direta e o exagerado artificialismo do filme, bem como o seu radical simbolismo sexual, apresentam-se como fantasias masculinas agressivas e grotescas. O público se depara com a imagem dos desejos (sem barreiras) de um protagonista impotente e frustrado. Ao contrário de James Stewart, aqui o herói é patético: protegido de uma realidade no seio materno, um solitário apartamento, entrega-se aos sonhos úmidos mais mórbidos, nas partes mais altas do cinema californiano.

Dublê de Corpo é uma homenagem a um mestre e uma crítica irônica aos filmes de Hollywood dos anos oitenta, durante a Era Reagan. Em plena recuperação das fantasias viris, os filmes reproduziam heróis com excesso de músculos e dispostos a enfrentar o mundo. Até Jake entra em ação na cena final, ao interpretar um vampiro em um filme pornô light e derramar sangue falso nos seios nus de uma especialista. Ao seu modo, é um final feliz.

5/5

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