Minority Report – A Nova Lei

Steven Spielberg, 2002

É comum encontrar em listas dos melhores diretores e de melhores filmes Steven Spielberg, dono de uma carreira invejável para qualquer cineasta, cheio de filmes aclamados pela crítica, vencedores de inúmeros Oscars e que sempre se saem muito bem nas bilheterias (o que não foi o caso deste, que apesar de ser bem recebido pelos críticos, não foi exatamente bem de bilheteria nem mesmo foi lembrado pela Academia). Mas a verdade é que sempre teve algo que me incomodou no cinema de Spielberg. Longe de achá-lo um mau diretor, porém ele tem um paradoxal espírito de renovação: nunca está satisfeito com seus filmes, está sempre procurando novas definições para a palavra limite, o que acarreta danos e qualidades nas mesmas proporções. Danos como o que poderia ser novo acaba ficando tão mastigado quanto qualquer filme de Michael Bay, por conta de sua extraordinária pretensão que nem sempre é capaz de ser sustentada, assim, vez ou outra caindo no banal (caso de Guerra dos Mundos). E a principal qualidade é exatamente o espírito jovial que vive em Spielberg, que sempre o faz ter um olhar contemplativo sobre suas obras, que faz o espectador sentir na tela a mesma fascinação dele e, vendo dessa maneira, é – e provavelmente sempre será – um diretor de uns 15 anos no corpo de um velhinho de 64. Isto, é claro, válido para os bons filmes do diretor, que se incluem na categoria blockbuster, porque se for comentar dos defeitos de seus dramas sentimentalóides…

Após assistir ao filme Minority Report – A Nova Lei é importante ressaltar os aspectos sociais daquele futuro sombrio. Dois dos aspectos mais marcantes mostrados no filme foram questões como violência e desigualdade social. Para muitos a violência seria uma consequência da desigualdade. A fim de deixar o artigo mais rico elas serão discutidas separadamente. O filme aposta num futuro realista onde a desigualdade e a segregação aumentaram junto com a evolução tecnológica. É isso que acontece quando não há uma melhor distribuição dos benefícios tecnológicos. Essa má distribuição das riquezas da humanidade gera os flagelos que voltarão a incomodar no futuro como a fome e principalmente a violência. Os Estados Unidos, particularmente Washington, onde se passa o filme, continua um verdadeiro caldeirão cultural. Essas outras culturas continuam assim como hoje marginalizadas e vivem em verdadeiros guetos que nada tem a dever a Chinatown e Brooklyn. Nessas cenas mostra-se que a moderna tecnologia ainda está longe do alcance do povo. Suas casas são muito parecidas com as de classe média e baixa da atualidade, bem diferente das modernas mansões dos ricos. A violência é gerada da desigualdade desse mundo que nem a tecnologia conseguiu resolver. Tal qual hoje no Brasil a violência chegou num ponto em que foi disponibilizado um referendo em que uma pergunta foi posta em debate, qualquer semelhança é mera coincidência. Vê-se nesse filme que os governantes ao invés de irem na raiz da questão, e resolve-la com saúde, educação, habitação entre outros continuam a querer resolver essas questões com força desmedida de seus órgãos e parece que nem no futuro nos livraremos desses martírios.

Tom Cruise interpreta John Anderton, chefe de uma divisão da polícia conhecida como Pré-Crime, que prende criminosos antes que eles cometam os crimes. Como eles podem ser condenados de algo que não fizeram? O sistema se baseia nas previsões de três cognitivos cujos nomes são baseados em escritores policiais: Dashiell, Arthur e Agatha. Eles captam as intenções dos futuros criminosos e enviam as informações para que Anderton possa evitar o crime. Em seis anos, não houve um único assassinato. O sistema é perfeito. Ou assim eles dizem. O problema começa com a chegada de Danny Witwer (interpretado surpreendemente bem por Colin Farrell), que procura falhas nesse sistema. “Se há uma falha, é humana“, ele diz. Ninguém vê os cognitivos como humanos. Na melhor das hipóteses, eles seriam como o mais perto de deuses, chegando a serem reverenciados. Aliado a isso, Anderton recebe um chamado de um crime, que ele mesmo deve cometer, contra alguém que não conhece. Enquanto filmes fazem com que o culpado procure a inocência por um crime já ocorrido, aqui Anderton deve tentar se inocentar de um crime que ele deve supostamente ainda cometer. Como se faz isso?

Com a assessoria de técnicos e cientistas na concepção, e da ILM de George Lucas na realização dos efeitos em computação gráfica, vemos na tela interfaces interativas de computador, hologramas, automóveis movidos por levitação magnética, armas sônicas, hoverpacks, aranhas artificiais e estruturas arquitetônicas imensas, tudo fotografado em um tom frio, azulado, pelo colaborador habitual de Spielberg desde A Lista de Schindler, Janusz Kaminski. Além das tão faladas referências a Stanley Kubrick, explícita em momentos como onde o John Aderton opera o painel fotossensível transparente ao som da mais pura melodia erudita, mesclando elementos de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, Laranja Mecânica e um pouco do cinema noir (gênero popular dos anos 40 e 50 e raramente lembrado em nosso tempo). Neste cenário incomum desenrolam-se cenas de ação eletrizantes, um mistério envolvente e um final por demais otimista e luminoso, em contraponto à trama noir e à própria frieza estampada na maior parte do filme. Mas, segundo o próprio Spielberg, Minority Report – A Nova Lei foi um filme quase experimental para ele, no qual lançou mão de alguns elementos até então inéditos em sua carreira, como o humor negro decorrente de determinadas situações insólitas vividas por Anderton.

Agora entramos em um ponto comentado no primeiro parágrafo desse texto: os defeitos. Se Spielberg fez um dos grandes blockbusters (por mais que não tenha ido tão bem de bilheteria, este é o gênero no qual ele deve ser enquadrado) da década de 2000 com Minority Report – A Nova Lei, seus tiques já citados felizmente não nos dão o ar de sua graça. Mas o problema do filme está quando ele deixa de habitar a linha entre um bom entretenimento com um notável tom reflexivo (o livre-arbítrio, algo recorrente em filmes extraídos de contos do mestre da ficção científica Philip K. Dick) e passa a empregar o sentimentalismo mecânico das obras dramáticas do diretor, como O Resgate do Soldado Ryan. Spielberg não tem o menor talento em tratar de humanização em geral (embora acerte na costrução essencialmente melancólica do personagem de Cruise), sempre inconvincente e recorrendo a elementos previsíveis, o que acaba por nos dar um ato final corrido e insatisfatório. Mas de qualquer forma os deslizes não chegam a comprometer em demasia, além de levar uma grande ajuda da estética extremamente detalhada, de um roteiro pertinente e bem construído e de um elenco carismático.

4/5

2 comentários em “Minority Report – A Nova Lei”

^-^

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s