Histoire de Melody Nelson

 

Serge Gainsbourg, 1971

Serge Gainsbourg era cantor, compositor, cineasta, pintor, provocador de carteirinha, entre muitas outras coisas, morreu em 1991. E, desde então, o culto a ele vem extrapolando as fronteiras da França, entronizando-o como uma das figuras mais interessantes e inclassificáveis da cultura pop do século XX.

nsbourg até hoje é mais conhecido pelo seu hit pornô-kitsch Je T’Aime, Moi Non Plus, que aliás tem muito a ver com este disco. Lá por 1967, Brigitte Bardot (talvez até hoje o maior ícone francês do que se é relacionado a beleza), intérprete desta música e amante do artista, tinha o abandonado e proibido de lançar uma versão com outros vocais. Serge, deprimido com o seu declínio instantâneo, buscou na inglesa Jane Birkin (sim, esta da capa) inspiração para realizar alguns de seus álbuns seguintes, entre eles Histoire de Melody Nelson, consagrado por muitos como a obra-prima do francês.

Serge teve uma influência assombrosa a partir da década de oitenta, quando o post-punk estava começando. Seu trabalho foi extremamente abrangente, indo do jazz ao reggae, mas o foco foi no french chanson junto com outros como Jacques BrelGeorges Brassens e a própria Jane Birkin. Influenciou bastante também artistas de vanguarda como Beck e Sonic Youth, além de neste álbum criar um breve conceito do que seria o trip-hop.

Histoire de Melody Nelson, como o próprio nome sugere, é um álbum conceitual, com todas as suas canções baseadas nesta tal história. Ele conta a história de um homem maduro que atropela uma jovem ciclista com seu Rolls Royce, acaba transando com ela em um bordel barroco e, finalmente, faz cair o avião em que ela se vai, invocando um ritual primitivo da Nova Guiné. Tudo isso apoiado em guitarras psicodélicas, vocal falado e grave (registrado bem perto do microfone e se sobrepondo à massa sonora), doses consideráveis de soul, uma orquestra e um coral carregados de dramaticidade.

De abertura, temos Melody, que cumpre o principal propósito de toda primeira faixa de um disco: fazer valer a pena ouvir o resto. O ritmo é lento, onde temos o baixo de estrutura prioritária, que faz uma linha simples e extraordinária. E ainda temos a brincadeira entre a bateria e guitarra, esta é a faixa que com certeza mais se aproxima do que hoje conhecemos como trip-hop. Em seguida, Ballade de Melody Nelson, uma faixa forte, com arranjos de orquestra e a participação da musa de Gainsbourg, Jane Birkin. Aliás, os arranjos de orquestra são algo marcante do álbum. Eles também estão presentes em faixas como Valse de Melody e Ah! Melody.

O grande destaque do álbum fica para a quinta faixa, L’hôtel particulier, onde mais uma vez temos a participação de Jane Birkin, com gritos histérios marcantes e (por que não?) risíveis. A música tem vocais estranhos, quase que sussurrada por Serge, mas irresistível de se ouvir. Os riffs violentos nos instrumentos, um baixo totalmente autônomo e a bateria bem guiada devem ajudar bastante no processo de digestão.

Histoire de Melody Nelson é um disco pequeno (com inacreditáveis 30 minutos de duração), mas que consegue fundir magistralmente rock, funk, música orquestral, valsa, inúmeras fragmentações de música pop e até mesmo literatura, incompreendido no seu tempo, mas que graças a artistas  e bandas como Jarvis Cooker, Air, Portishead e Beck, hoje pode-se dizer que ele tem ao menos um terço do reconhecimento merecido. A emulação do pop tradicional, inevitavelmente através do pós-moderno, por Serge Gainsbourg.

5/5

^-^

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