Assassinos Por Natureza

Oliver Stone, 1994

Dizem que para haver uma boa obra é preciso muita pretensão, é preciso acreditar que aquilo que você está fazendo é algo realmente espetacular (na linha entre otimismo e arrogância). Assassinos Por Natureza é a típica representação do máximo que a pretensão de um cineasta pode chegar: um filme frenético, cheio de inovações e exageros estéticos, além de uma estória pra lá de polêmica. Qualquer um com essa faca e esse queijo na mão passaria séculos estudando, tentando encontrar a melhor forma de botar em prática sua grande ambição. Mas estamos falando de Oliver Stone.

Narrado de forma não-convencional, Assassinos por Natureza conta a esstória de Mickey e Mallory Knox, vividos por Woody Harrelson e Juliette Lewis. Depois de matarem os pais da jovem, eles partem em uma viagem pelos EUA, cometendo assassinatos a esmo e tornando-se conhecidos da população graças principalmente a programas sensacionalistas de TV. Transformados em ídolos de uma parcela da audiência jovem e desiludida não apenas americana, mas mundial, eles acabam sendo presos pelo igualmente psicótico Jack Scagnetti, traumatizado pela morte violenta da mãe. Às vésperas de ser mandado para uma lobotomia, Mickey aceita dar uma entrevista exclusiva e ao vivo para o repórter Wayne Gale, a ser transmitida direto do presídio de segurança máxima onde está preso a um ano. Durante o programa, uma rebelião começa e, com a câmera na mão, Gale acompanha Mickey e Mallory em sua eletrizante fuga, mostrada ao vivo para o país inteiro.

Sem dúvida, Assassinos por Natureza é um filme diferente de tudo que foi visto no cinema comercial americano. Utilizando 18 formatos diferentes de filmagem e quase 3000 cortes – que tomaram 11 meses de trabalho dos editores Brian Berdan e Hank Corwin – a trajetória sanguinária de Mickey e Mallory Knox foge dos padrões convencionais de se contar uma história e, com isso, conseguiu tanto fãs inveterados quanto detratores tão violentos quanto seus protagonistas. O escritor John Grisham, por exemplo, comprou briga com Oliver Stone ao acusá-lo de ser o responsável indireto por uma tentativa de homicídio cuja vítima era seu amigo: o casal que atirou na vítima havia assistido ao filme depois de uma sessão de alucinógenos e, depois de matar uma pessoa, deixou outra presa em uma cadeira de rodas. Stone foi absolvido somente em 2002, mas o episódio apenas reitera o poder do filme junto a audiência. O fato de ter sido solenemente ignorado nas cerimônias de premiação do ano é que Assassinos por Natureza foi rechaçado e julgado transgressor além da conta.  O que, de certa forma, não deixa de ser um elogio.

E era exatamente isso que Oliver Stone queria: gerar polêmica. Criticar o culto a violência? Bem, isso já ficou pra segundo plano, imerso a tamanha confusão em uma mistura de Super 8, animação, comercial e programas de TV e outras inúmeras maneiras de filmar. E, ao meu ver, é essa edição incompreensível que leva a dor de cabeça de todo o resto. A fotografia de Robert Richardson não era para ser ruim. Mas é, graças a edição exagerada que não dá espaço aos exageros visuais de Richardson e seus ângulos tortos. A atuação de Woody Harrelson (tão elogiada) também era pra ser. Mas foi? Não, graças a edição tão exagerada, que não dá espaço aos personagens e seus surtos psicóticos. Resumindo um pouco: se não fosse a edição, o restante dos exageros – se usados de maneira contida – poderiam ser compreensíveis.

Assassinos por Natureza é claramente divido em duas partes. Na primeira hora do filme, a audiência acompanha os fatos que levaram o casal à prisão, narrados de forma quase anárquica e psicodélica por Stone e seus editores – a profusão de cores, de sons e de efeitos que distorcem as imagens soam como a maneira com que os protagonistas vêem o mundo. Vindo desta primeira hora, o espectador poderia até se divertir um pouco com o casal maquiavélico. Porém, logo chega a segunda metade, onde o caos literalmente reina. A tentativa de aprofundamento psicológico de Mickey, na busca de encontrar respostas para seus atos, é digna de pena. Nela está a prova da limitação dos dotes artísticos de Oliver Stone. E a entrevista com Wayne Gale então? Poderia ser o novo “Frost/Nixon” (como diz o próprio personagem), mas cadê que o diretor aproveitou isso?

O ruim é saber (voltando a questão do primeiro parágrafo) que se o filme fosse bem cuidado, bem tratado, com exageros na medida correta e realizado suas críticas de maneira menos confusa e desconexa, poderia ser uma obra-prima. Nem a tão famosa estória inspirada em Terra de Ninguém, escrita por Quetin Tarantino, foi bem aproveitada. Afinal, Oliver Stone fez o favor de pedir aos roteiristas que modificassem quase tudo. Mas não foi.

1/5

Um comentário em “Assassinos Por Natureza”

  1. Nossa, que alarde Lucas! Não acho NBK um marco no cinema, mas é muito legal sim, além dos exageros por toda parte mais beneficiarem do que tirarem qualquer qualidade dele.

^-^

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