Terrence Malick

Muita badalação vem cercado esse nome nos últimos dias, não só por ser o nome do realizador do provável filme mais hypado do ano e vencedor da Palma de Ouro em Cannes, mas também por seu anonimato. Aliás, foi fruto desse tal anonimato que eu fiquei ainda mais fascinado pelo trabalho. Muito se comentou sobre a ausência de Malick nos bastidores do festival de cinema mais importante do mundo. Segundo os produtores do filme, que receberam a Palma, ele não compareceu por ser tímido. Mas a justificativa oficial é a seguinte: Malick não quer jamais manipular a opinião do público ou dos críticos com suas teses sobre A Árvore da Vida, ele quer que ambos descubram seus filmes e formem opinião própria. Talvez seja puro marketing, mas conhecendo bem a curta, porém bela, filmografia do diretor, acredito que seja seu jeito de ser mesmo, e admiro essa sua postura.

Pois então, pegando embalo no comentadíssimo A Árvore da Vida, que chega ao Brasil no final de junho, fui rever seus filmes Além da Linha Vermelha e O Novo Mundo e correr atrás dos que eu ainda não tinha visto, Cinzas do Paraíso e Terra de Ninguém. Vistos e revistos, fiz uma espécie de ranking dos filmes de Malick, com um breve comentário para cada um:

4. O Novo Mundo (The New World, 2005)

O Novo Mundo poderia facilmente ser dividido em duas partes: a primeira é a história de John Smith e Pocahontas, a segunda de John Rolfe também com Pocahontas.

A primeira é a mais extensa, com uma história de amor intensa, mas com elementos que estão a volta desses dois que também merecem destaque. Malick se preocupa em mostrar uma jornada interior dos personagens, sempre colocando de maneira poética o choque que aquele grupo de europeus e os nativos da região sofrem ao haver a colisão entre ambos. O relacionamento entre os dois é sutilmente bonito e lírico.

A  segunda parte destoa da narrativa/ritmo comum do diretor, que também está presente nesse filme, com o relacionamento de Pocahontas e de Rolfe. Nele há cortes rápidos, uma edição brusca, o romance dos dois não convence. Comenta-se muito que esses elementos são propositais. Mas de qualquer modo, Malick poderia ter caprichado mais para essa percepção, acabou soando mais confuso do que proposital. Essa parte no entanto, vale pelas expressões da belíssima Q’orianka Kilcher, quando há em seu rosto a dúvida sobre as escolhas de Pocahontas.

O Novo Mundo, assim como os outros filmes de Malick é denso e bastante contemplativo. Mais uma vez o diretor mostra-se confortável com o visual arrebatador da natureza, mas não só o visual, os sons captados da floresta são belos e quase que funcionam como uma hipnose. Um grande filme.

4/5

3. Terra de Ninguém (Badlands, 1973)

Este é o primeiro trabalho de Malick. Aqui ele fala de um tema que está presente em toda a sua filmografia: a violência e suas consequências. Mas aqui, ao contrário dos outros filmes de Malick, vemos suas reais consequências.

Como vem de Terrence Malick, não é apenas a estória de um casal que viaja matando pessoas pelos Estados Unidos, mas um filme sobre a relação causa-efeito. E também sobre a psicologia de um assassino. Os dois, principalmente Holly, nunca parecem saber o que estão fazendo. Kit parece sempre ter uma idéia fixa na cabeça, uma solução para a situação, mas, de verdade, nunca tem, e suas atitudes sempre acabam gerando ainda mais confusão.

No início eu estava sentindo falta daquela fotografia, que marca tanto os filmes do Malick, que muitas vezes até parece uma poesia traduzida em imagens, mas depois de um certo acontecimento, Terra de Ninguém torna-se um road-movie violento e belíssimo com uma fotografia, agora no melhor estilo Malick de ser, numa ambientação desértica.

5/5

2. Além da Linha Vermelha (The Thin Red Line, 1998)

Além da Linha Vermelha é ofilme mais famoso de Malick, que teve 7 indicações ao Oscar, porém infelizmente ficou eclipsado com o aclamado  O Resgate do Soldado Ryan,  de Steven Spielberg, com a mesma temática mas sem a mesma genialidade.

Diferente do que estamos acostumados a perceber nos filmes cuja temática é a guerra, essa obra não visa retratar heróis de batalha, nem descambar para um ufanismo típico, mas se propõe principalmente a mostrar a guerra sob ótica do espírito dos combatentes, e incitar o espectador a vasculhar dentro de si mesmo pensamentos que possam socorrer-nos diante das visões ou cenas daquele inferno humano.

Trata-se de um filme reflexivo, gerador de indagações, que nos leva a uma forma diferente de encarar a realidade dos campos de batalha. Quando o filme acaba somos acometidos por aquela estranha sensação que apenas as grandes obras de arte são capazes de proporcionar.  E ainda por cima conta com um grande elenco de atores, belíssimas imagens da paisagem natural contraposta aos horrores da guerra, e um certo ar de transcendentalismo que transpassa a obra em vários momentos.

5/5

1. Cinzas do Paraíso (Days of Heaven, 1978)

A obra-prima de Malick, com um perfeccionismo que te deixará de queixo caído. Seu tom é elegíaco. Ele evoca a solidão e a beleza das ilimitadas pradarias texanas. Ainda que os comentários-clichês sobre esse lindíssmo filme sejam comuns (monótono, chato), qualquer ser vivo que não goste da experiência visual que o diretor propõe, deve estar com sérios problemas mentais.

Néstor Almendros e Haskell Wexler criam, a partir dos excelentes planos gerais de Malick um trabalho tão bom quanto de iluminação, buscando inspiração nas paisagens de Wyeth. Como diz no cartaz do filme: Your eyes… your ears… your senses… will be overwhelmed. E é exatamente isso que acontece. Na primeira hora do filme, há raríssimas cenas interiores. Os trabalhadores rurais acampam sob as estrelas e trabalham no campo. O filme coloca os humanos num quadro cheio de detalhes naturais: o céu, rios, campos, cavalos, faisões, coelhos.

5/5

Então é isso, agora é só aguardar A Árvore da Vida. Em breve, talvez eu faça um post completo para Cinzas do Paraíso, só me falta tempo e paciência.

6 comentários em “Terrence Malick”

  1. Esse lance de cinema poético não é pra mim. HAHAHA
    Mesmo com o falatório sobre TTOL, eu nem quero ver, mas parabéns pelo teu comentário. Poderia fazer mais desse formato…

^-^

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