Born This Way

Lady GaGa, 2011

Estranho definir o que seria a  música pop. Estava conversando ontem com a Daniele, minha amiga, e falei que até agora o Born This Way é o álbum pop que mais me agradou esse ano. Ela rapidamente, com aquela expressão de superior, me disse: “Sério mesmo que tu acha o Born This Way superior aos discos do Cut Copy e da Lykke Li?”. Eu, confuso, respondi sem a menor confiança de mim mesmo, que era o melhor do ano dentro do mainstream. Ela respondeu: “Sério mesmo que tu acha o Born This Way melhor que o disco do Foo Fighters?”. Daí eu fiquei sem resposta, afinal o pop era, acima de tudo, um termo para diferenciar um álbum com um grande apelo pro público dos mais experimentais e que não poupavam o cérebro do ouvinte. Mas parece que desde Madonna e Michael Jackson as coisas mudaram, o pop passou a ser um gênero também. Por aí talvez tenham surgido os incontáveis artistas de criatividade limitada, com suas batidas e letras mastigadas, que chamam mais atenção para outros lados além de seu trabalho no meio musical. Não querendo desmerecer os dois citados claro, artistas magníficos e inigualáveis.

Bom, mas o fato é que o Born This Way é um ótimo álbum, muito mais interessante que o das suas colegas (vamos deixar assim então) que também lançaram material esse ano. Li em alguma resenha do disco – não lembro se foi The Guardian ou NME – dizendo que “GaGa não sabe andar para trás”. E realmemte, desde que surgiu para o mundo com o divertido álbum The Fame, Lady GaGa só vem crescendo. Tanto em questão de qualidade musical ou de sua proposta de personagem excêntrico do pop. Se no The Fame, seus visuais eram mal trabalhados, produções comuns e repetitivas e letras que mais pareciam uma excessiva renovação de Material Girl da Madonna, no The Fame Monster ela já construiu uma imagem de artista experiente, muito mais confiante de si própria, com letras coesas e estrutura competente.

E agora, no Born This Way, ela está paradoxalmente mais comportada que em seus outros discos. Por que? Ao mesmo tempo em que ela surge em visuais menos polêmicos (ainda que seja impossível não lembrar da entrada triunfal dentro de um ovo no Grammy), performances mais simples e um single sobre aceitação/anti-bullying, ela comenta muito sobre o uso de drogas de forma desagradável (sempre citando o quanto elas lhe ajudam a compor), em não querer ser um “exemplo apra ninguém” e também faz uma abordagem musical utilizando metáforas pesadas com figuras polêmicas: em Judas, uma das mais fracas do álbum, ela usa de personagens bíblicos para construir uma música sobre relacionamentos confusos e em Government Hooker tem o polêmico relacionamento de Marilyn MonroeJohn F. Kennedy, que na verdade é sobre como uma prostituta é capaz de manipular um homem poderoso. Mas as metáforas não param por aí, só que em outras faixas como Hair  e Americano, ela brinca com sua própria banalização e não precisa de tamanha pretensão para fazer algo tão simples.

Aliás, além das metáforas outra tag que marca o ábulm é nostalgia. Nostalgia porque diferente do pop radiofônico atual que sempre pega carona na tendência de sucesso mais recente, pra vender mais rápido e fácil, o disco cai no curioso fenômeno da volta as gerações, no caso 80 e 90, coisa que normalmente acontece com outros gêneros (esse ano tivemos o Destroyer), e vai buscar em duas décadas atrás suas inspirações: temos o House de Born This Way, EBM, o digital hardcore de Judas, o breakbeat de Government Hooker, os riffs de guitarra e ritmos extraídos do hard rock farofa em Yoü and I, o saxofone brega em The Edge Of Glory e Hair, o dance europeu bobinho que lembra muito os primeiros hits de Kylie Minogue em Fashion Of His Love, a disco mais brega ainda de Giorgio Moroder em Marry The Night.

Mas se você acha algo ruim ela pegar essas sonoridades que tem como característica o brega ou o farofa, está enganado. Estamos no tempo em que tudo o que tinha de pior, ou era considerado, nas décadas de 80 e 90 virou cool. Born This Way é como se fosse os filmes do projeto Grindhouse de Quentin Tarantino  e Robert Rodriguez em versão álbum: eles pegam todas as técnicas exploitation dos filmes B, que hoje em dia são considerados cult, mas em sua época de lançamento eram ridicularizados.

No campo de letras, o nível do disco decai um pouco. Mas no caso de Judas e Bad Kids – com várias camadas vazias/utilizando citações à personagem religosos por nada e uma auto-ajuda grotesca do nível de qualquer Katy Perry da vida, respectivamente – temos pelo menos uma outra faixa que é proporcional a cada uma, que envolve as mesmas temáticas, mas de forma bem menos apressada. São elas: Born This Way, a faixa-título, que ao contrário da marca do álbum, é bastante direta em suas motivações (No matter gay, straight, or bi, lesbian, transgendered life) e Bloody Mary, de longe a melhor letra, que trata dos julgamentos que Maria Madalena sofria por ser tão moderna no seu tempo, mas sem o amadorismo de Judas.

O que talvez desagrade muitos ouvintes de GaGa e desse gênero é a carência de refrões mais fortes, mais chicletes, ou até mesmo daqueles momentos “gagos” que tanto marcaram a cantora em hits como Poker Face, Bad Romance, Paparazzi e Telephone. São poucas as faixas que se encaixam nesse padrão, como The Edge of Glory, possível terceiro single, uma perfeita música pop. Ela é como se fosse uma versão decente de Firework da Katy Perry, inclusive tem toda aquela estrutura “vocal exagerado em uma melodia-balada em ritmo dance”. Só que ao contrário de Perry, GaGa tem voz suficiente pra se sair bem nesse tom de música sem ser uma poluição sonora, além da letra, que apesar de simplista, tem uma melodia arrebatadora, ou pelo menos se você não gostar, admita que não tem algo vergonhoso do tipo Do you ever feel like a plastic bag?

Voltando um pouco no assunto, para o lado das inspirações de décadas passadas, as duas melhores faixas do disco são Government Hooker e Heavy Metal Lover. Nota-se uma clara influência daft-punkiana e prodigyana nas duas músicas. O modo como, principalmente Government Hooker, ultrapassa suas barreiras e seus vocais ácidos, frios de um modo sombrio, com ruídos de todo o tipo para ouvidos. E Heavy Metal Lover? É quase uma versão femme fatale de Digital LoveScheiße, que apesar desse nome em alemão,  vai um pouco da estrutura “popzão” de The Edge of Glory, e segue a mesma linha de electro elevado das outras duas,  mas mistura também com um pouco de Madonna na fase Erotica. Outra grande música.

Born This Way tem alguns defeitos, nas letras principalmente, mas se encerra por ser um grande álbum. Lady GaGa já tinha dito que esse álbum ia marcar época, e que ia ser o melhor que você ia ouvir na década. Talvez a excessiva pretensão vá atrapalhar alguns em formular uma opinião, mas afinal de contas o que seria dos nossos grandes artistas se não fossem os seus respectivos egos? Resta saber se GaGa quer liderar o time das cantoras pop-mastigadas-radiofônicas (o que pelo nível do seu trabalho não é muito difícil) ou integrar o grupo das também pop, mas sem limitações de criatividade, como Róisín Murphy e Robyn (aí está mais complicado, mas quem sabe se não continuar “andando pra frente”?).

4/5

3 comentários em “Born This Way”

^-^

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