Os Agentes do Destino

George Nolfi, 2011

Adaptar uma obra do escritor Philip K. Dick pro cinema já virou de certa forma um status, assim que você anuncia isso as expectativas vão com certeza estar mais em torno de tentar traduzir em espetáculo audiovisual (ou até mesmo sensorial) os delírios do fissurado pelo sobrenatural. Só para se ter uma ideia, entre as adaptações dos livros de Dick estão o clássico de Ridley Scott Blade Runner: O Caçador de Andróides,  o indicado ao Oscar O Vingador do Futuro, o blockbuster neo-noir de Steven Spielberg Minority Report: A Nova Lei e O Homem Duplo.

Porém,  Os Agentes do Destino não tem tanta preocupação em ser fiel ao conto de Dick, tanto que até o nome foi trocado – o nome original do livro é Adjustment Team e o nome do filme em inglês é The Adjustment Bureau. George Nolfi, estreiante na direção e assumindo o comando do roteiro, também parece não se improtar muito em agradar os fãs de ficção científica. O filme flerta livremente com a comédia e a base de ficção científica vem apenas do essencial do livro. Ou seja, no fundo é um romance fantasioso.

A trama acompanha um político que descobre, por acidente, que a vida de todos os seres humanos é parcialmente controlada por seres com capacidades especiais, os tais agentes do título. Os agentes não tem poderes sob as vontades dos humanos, devem apenas mantê-los no “plano”, uma espécie de mapa onde está traçado o destino de cada pessoa. Para sua desgraça, ele recebe permissão de viver com esse segredo desde que acate duas ordens: não poderá em momento algum de sua vida falar sobre a existência dos misteriosos homens de chapéu e terno cinza, e também não poderá voltar a ver a mulher que encontrou por acaso; e que acabou sendo a salvação de sua carreira política que parecia definhar.

Apesar deste enredo totalmente inconvincente, a narrativa de Os Agentes do Destino quando linear, se mostra bastante competente, além do clima denso prevalecer e o espectador sempre vibra a espera do desfecho.  George Nolfi como diretor, se saiu um belo roteirista. Ele, que foi responsável pelo roteiro da ótima trilogia Bourne, foi habilidoso em conduzir as sequências finais de perseguição, mas de resto, tem uma direção sem nenhum vestígio de personalidade e utilizando planos semi-prontos.

Em compensação, como já foi dito, no roteiro Nolfi brilha. Ele acerta ao distribuir a cada cena do filme uma nova informação sobre os agentes, sempre mantendo um bom suspense sobre no que daria aquilo tudo. A humanização dos tais agentes também é um grande acerto, sem dúvidas um dos grandes destaques do filme. Eles surgem mais como uns agentes federais do que como integrantes de alguma seita ou qualquer coisa que se esperava. Nolfi peca na construção apressada do desfecho, mas no geral, o que diz respeito ao roteiro, ele se sai bem. As óbvias metáforas religiosas, que comparam os agentes com anjos e seu “presidente” com Deus são menos exploradas, mas foi um assunto bastante comentado, justamente por formar o eco complexo da trama.

Se Nolfi deixou alguns buracos no roteiro e na direção, coube ao elenco fechar todos os eles e tentar tornar Os Agentes do Destino um filme satisfatório. E não é que eles conseguiram? O filme é inteiramente focado no personagem de Matt Damon, o político David Norris. É notável que sua atuação passe longe do grau de esforço que ele vem feito em recentes filmes (Invictus, Bravura Indômita e O Desinformante!) e ele até poderia até ter ido além construindo momento mais marcantes, mas sua interpretação ainda é bastante convincente. Apenas não é nada além de bom. Já Emily Blunt conseguiu driblar a construção superficial de Nolfi a Elisa e exibe todo o seu charme e expressividade, proporcionando os momentos encantadores e até cômicos do filme, só com a força de sua atuação. Completando o elenco temos o ótimo John Slattery (o Roger de Mad Men) e o veterano Terence Stamp, os dois gritam de uma forma excelente para David de modo que fiquemos tanto temerosos, quanto intrigados pelo sujeito.

Os aspectos técnicos também tentam encobrir as falhas do condutor, com a fotografia de John Toll que junto com a direção de arte, tenta construir um universo peculiar mergulhado em tons azulados que pode ser associado tanto a vida de seu protagonista, quanto a construção fantasiosa da trama. Os figurinos e, em especial o chapéu, são certeiros e mais metafóricos do que aparentam, além da montagem de Jay Rabinowitz que obedece a estrutura previsível do roteiro ao mesmo tempo em que é excelente em equilibrar a duração/velocidade dos planos de acordo com o necessário para a situação.

Os Agentes do Destino discute sobre destino, livre-arbítrio, liberdade, autoridade, entre outros temas, de forma competente e criativa, mas se perde um pouco ao complementar essas discussões com questões pessimamente trabalhadas, como as metáforas religiosas, que eu já comentei. Além de se mostrar intrigante com as abordagens, incitando a curiosidade do espectador e no final, tornar o desfecho algo tão desinteressante. Um filme satisfatório, que talvez com uma dose reforçada da de Win Wenders e uma boa relida no livro de Philip K. Dick, fosse uma obra-prima.

3/5

Um comentário em “Os Agentes do Destino”

  1. Porra, 7? tudo isso? Vai te fude. Na hora q a gente tava saindo do shopping tu disse q achou uma bosta
    É muito amor pela Emily hein ¬¬

^-^

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