O Leitor

Stephen Daldry, 2008

Stephen Daldry ganhou notoriedade em 2000, com o ótimo Billy Elliot, já dando uma sacudida no mundo da sétima arte, onde seu filme aparentemente era o que chamamos de “redondinho”, mas que com uma visão mais apurada, tratava de suas temáticas de uma maneira bem aberta e sincera. Se com seu primeiro longa-metragem Daldry já era uma grande promessa, em 2002 ele se consolidou, mesmo que tendo só dis trabalhos no currículo, com As Horas como um dos grandes diretores da atualidade, onde ele já demonstrava o seu grande fascínio pela literatura.

Em O Leitor, ao começar pelo título, há um cunho literal ainda maior que As Horas. O filme é marcado por três atos: romance, conflito e redenção. Tanto que esse tom excessivo me incomodou bastante. Sei que é provável que ele esteja lá propositalmente, mas não me agradou. Stephen Daldry aborda a temática dos campos nazista de um modo diferente de como é tratado em muitos documentários e revista, os quais, em sua maioria, costumam atribuir grande relevância aos atos criminosos. Nesse sentido, O Leitor, foge um pouco dessa perspectiva há muito tempo narrada, nos permitindo, com isso, avaliar e pensar de forma crítica sobre uma sociedade que também fora participante de tal barbárie ao atribuir poder, apoiar e contribuir de forma significativa com os muitos ditadores que abalaram o mundo e causaram tamanha ferida na História mundial.

Quando o filme avança no tempo e assistimos ao julgamento de Hanna, várias questões polêmicas envolvendo Ética e Direito vêm à tona. Hanna enxerga tudo em termos absolutos, é próprio de autoritarismos enxergar o mundo por uma ótica de absolutos. Ela tinha ordens de seus comandantes e tinha que cumpri-las a qualquer custo, poderia ser julgada culpada por isso? Aliás, durante as décadas de 1930 e 1940, até o fim da Segunda Guerra, a sociedade alemã era conivente com o nazismo. O regime totalitário exercia repressão, mas não podia se sustentar sem apoio. A questão que se coloca é: poderia Hanna ser julgada por leis posteriores ao período em que trabalhou? Afinal, em sua época de guarda, ela não cometeu crimes, mas ajudou o regime dominante. Ela só passaria a ser vista como um monstro depois de os Aliados vencerem a guerra e levaram a ideologia dos Direitos Humanos aos quatro cantos do mundo.

Embora a direção de Daldry não seja muito competente e sofra ainda mais ainda com o ritmo irregular, o grande problema de O Leitor está no roteiro de David Hare. Ele pegou as ótimas ideias do best-seller de Bernhard Schlink mas não soube conduzi-las corretamente para o cinema. Além de diversos buracos e tropeçadas onde parece improvável, ele não soube gerar ambiguidades e momentos densos. Tanto que as cenas mais conflituosas há um grande silêncio. O seu erro mais notável está em Hanna, personagem de Kate Winslet. Hanna é uma mulher que por si só já carrega diversas peculiaridades, que nasceu para ser contraditória, mas Hare a constrói de forma artificial e confusa. Sendo mais claro, conforme o filme avança era para nós irmos mudando nossas opiniões sobre Hanna, o que não acontece. Porém, há quem caia na manipulação do roteirista e acredite que ele fez o seu trabalho direito…

Em compensação as atuações são bastante satisfatórias. Aliás, já é algo caraterístico na condução de Daldry, saber extrair tudo o que há de melhor do seu elenco. Se em Billy Elliot ele tinha Jamie Bell e Julie Walters e em As Horas tinha Nicole Kidman, Julianne Moore, Ed Harris e Meryl Streep, aqui ele tinha Kate Winslet, Ralph Fiennes, Bruno Ganz e David Kross. Kate Winslet, merecidamente oscarizada, dá uma aula de interpretação. Sua expressão é poderosa, seus olhares são cortantes e sua presença em cena já se faz sentir lá dentro do peito. Ralph Fiennes e Bruno Ganz, ainda que com um foco diminuído, também dão o máximo de si e David Kross surpreende, mesmo que inexperiente ele tem uma técnica que não deve em nada aos grandes atores da atualidade.

O Leitor poderia ter caído facilmente no moralismo, mas que graças a força do livro de Bernhard Schlink consegue cumprir o seu propósito de contar uma estória sensível e cheia de nuances, ainda que com as tropeçadas de Daldry e Hare. Mas fica no ar aquele pensamento de “se alguns dos envolvidos fossem mais competentes, poderia ser uma obra-prima”. O estranho é o fato de tais envolvidos terem formado uma dupla e tanto em As Horas e aqui pecarem em demasia.

2/5

^-^

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